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BACALHAU



Bacalhau era muito mau. Pior que a rima. Aquele personagem recém elevado à gloria pela subcivilização. Uma mistura insana de miliciano, traficante, líder religioso, influencer e político de direita. Talvez não houvesse ser humano pior, ao menos não ao mesmo tempo no mundo. Ao menos não em plena atividade, no auge de sua bem sucedida carreira. Que o digam os moradores da Favela do Rato Vermelho, onde era o líder do tráfico, e de onde dominava o complexo de favelas da Serra do Demorô.


Também tinham o que dizer sobre ele os moradores da Vila Triste, conjunto de prédios residenciais de baixa renda onde ele mandava e desmandava, mas não permitia tráfico de drogas! De jeito nenhum! E também não permitia gás, tv a cabo, internet, luz, água, correio, taxi, aplicativos de transporte em geral, SAMU, agiotagem ou qualquer outro serviço concedido que não fosse de seu próprio “grupo empresarial”. Na condição de influencer, gerava e transmitia, em sua área de influência direta, o conteúdo que interessava àquela população, incluindo notícias de política, economia e religião. Religião, aliás, é de seus temas preferidos. Um tipo de cristianismo intolerante e que não considera razoáveis os ensinamentos atribuídos a Jesus. “Esse negócio de amar ao próximo e de dar a outra face é coisa de gente fraca!”, repetia constantemente, nos cultos que dirigia na Igreja do Guerreiro Divino, onde era bispo, pastor e proprietário. Suas prioridades eram a pregação de uma guerra santa contra tudo e todos que ameaçassem, ainda que hipoteticamente, a hegemonia de sua seita. Proibiu as manifestações das religiões de matriz afro logo no início do domínio, incluído as festas nos terreiros e as oferendas nas encruzilhadas ou em qualquer outro lugar. Vela acesa já era motivo de advertência. A segunda vez resultava em punição dura.


Politicamente, era conservador, claro. Alinhado com os dogmas mais relacionados aos seus interesses diretos, só entendia a política como monitoramento de costumes. A economia tinha de ser regulada pelo mercado e as funções do Estado deveriam ser meramente assistenciais. Não aceitava discutir drogas ou aborto, apesar do incontável número de filhos que tinha gerado com as moças de seus “feudos”. Orgulhava-se de sustentar a todos e às respectivas mães e de trazê-las sob controle, ainda que pra isso necessitasse de mais braços. Os homens do movimento ajudavam. Ou os da milícia. Tinha mão de obra suficiente. A descriminalização das drogas seria a ruína de um de seus impérios e estava fora de cogitação, por óbvio. Pensou usar sua influência a favor das recentes propostas de liberalização do porte e uso de armas, mas não se empenhou muito. Seria mais uma frente aberta e teria que se organizar para vender armas com exclusividade em seus territórios. O sistema de informações pessoais até funcionava a contento, mas o risco de armas circulando poderia estimular reações impensadas daquela gente.


Tinha ainda uma missão divina que era o combate sem trégua à liberdade de orientação sexual. “Que merda é essa de garota com garota, garoto com garoto, menino virando menina e menina virando menino?” Era um conservador! Onde ele manda não tem dessa pouca vergonha!

Entre os casos de ação direta e os executados sob suas ordens, tinha já uma dezena de assassinatos de gays. Se orgulhava de já ter “cancelado vários CPF’s” de “gente que nem merecia ter documento”, como ele dizia. Ainda assim, circulava com facilidade entre setores da imprensa, políticos, formadores de opinião, altas autoridades jurídicas.


O maior azar do Renatinho foi encontrar com o Bacalhau numa festa. Miraram na mesma menina, a Domitila, uma gracinha de menina interessada em filosofia, cerveja artesanal, teatro, música folclórica. E ela, assim como o Renatinho, só foram parar na favela por causa do trabalho voluntário de educação ambiental que faziam.


Num dia de ronda, o Bacalhau aportou no galpão com meia dúzia de seus homens e até largou mão do que tinha que ver quando deu com os olhos na Domitila. Ela tinha que entrar pro seu harem. Tentou o modo direto, baseado em seus atributos físicos. O Bacalhau era alto e relativamente jovem e forte, o que não foi suficiente para seduzir a Domi, mais interessada nos conhecimentos de Yoga do Renatinho, franzino e de óculos fundo de garrafa, além de cultivar uma brancura sombria, de pele que só muito raramente se expunha ao sol. Derrotado no primeiro round, o Bacalhau apelou para sua popularidade e poder, mostrando o quanto era conhecido na comunidade e deixando, à vista de todos, um grande bolo de dinheiro para apoio ao projeto. Também não foi feliz. Tila não era materialista, acreditava mais na caridade desinteressada, com investimento apenas emocional. Desancado duas vezes, Bacalhau já tinha sido mais contrariado naqueles minutos do que em toda a sua já longa carreira de chefão do crime. E resolveu jogar do jeito que jamais perdia: sacou um reluzente fuzil israelense e chamou Domitila pra uma conversa tête-à-tête.


Renatinho não sabia o que fazer, mas precisava proteger a Domitila daquele monstro. A Domitila parecia se sair bem, mesmo sob ameaça, mas o Renatinho avançou sobre o perigoso facínora com o canivetinho que usava pra entrar no mato, onde fazia trilhas, sempre com a preocupação de sair em dias nublados, para proteger a pele frágil, normalmente já recoberta por camadas e camadas de filtro solar e repelentes.


Bacalhau, cujo apelido veio da ascendência portuguesa, só notou muito perto, quando Renatinho já se aproximava perigosamente de seu pescoço. Virou o fuzil na direção dele e puxou o gatilho.


Renatinho acordou gritando e a mãe veio ver o que havia acontecido. “Esses pesadelos recorrentes do garoto ainda vão acabar mal”, ela pensou.

E gritando “Bacalhau”. Não sei o que tanto essa molecagem pensa em futebol e comida!

E ainda me mija a cama toda...


Rio de Janeiro, julho de 2023.

 

Arte, música, economia criativa


Instituto Observatório Itaú Cultural aponta a indústria da cultura

como responsável por 3,11% do PIB brasileiro




Cedro Rosa Digital firma parcerias estratégicas com Universidades Federais, impulsionando direitos autorais na música independente em meio a um setor cultural promissor.


Convênio entre Cedro Rosa e UNIPAMPA




A Cedro Rosa Digital, reconhecida plataforma no mercado da música independente, tem fortalecido ainda mais a proteção dos direitos autorais em parceria com renomadas Universidades Federais em todo o país.


Essa iniciativa ganha ainda mais relevância diante do recente estudo divulgado pelo Instituto Itaú Cultural, em 2023, que aponta a indústria da cultura como responsável por 3,11% do PIB brasileiro. Esses dados evidenciam que o segmento cultural não só gera milhões de empregos, mas também impulsiona a renda e a economia do país.


Playlist de artistas Cedro Rosa, na Spotify.


Ao estabelecer parcerias com as Universidades Federais, a Cedro Rosa Digital não só assegura a autenticidade das obras musicais, mas também contribui para a valorização e reconhecimento dos artistas independentes. O estudo do Instituto Itaú Cultural reforça a importância desse setor promissor, ressaltando a relevância dos direitos autorais na geração de empregos e renda no Brasil.


+40 Anos do Clube do Samba e muita música de qualidade,

nesta playlist Cedro Rosa, no Youtube.



Com a colaboração dessas instituições de ensino superior, a Cedro Rosa Digital assume uma posição de destaque ao promover um ambiente seguro e confiável para compositores, músicos, bandas e produtores. Essas parcerias estratégicas, aliadas ao impacto positivo do setor cultural na economia do país, reforçam o compromisso da Cedro Rosa Digital em impulsionar a música independente e contribuir para o crescimento sustentável do segmento artístico.

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