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ROTINA (2)



Na repartição ia tudo bem, ao contrário das expectativas sempre negativas e geralmente confirmadas pelas sucessivas gestões municipais abaixo da crítica. A totalidade dos processos havia sido despachada a tempo e não havia reclamações dos superiores na caixa de correio e nem no telefone funcional que o prendia, em qualquer tempo ou lugar, ao chefe sempre irascível e exigente.


Mas o momento era favorável. Tudo acontecia a tempo e hora, sem surpresas ou equívocos de qualquer tipo. Um céu de brigadeiro como há muito não se via, numa repartição sempre caracterizada pelas pressões vindas de cima, de baixo e de direções não diagnosticadas, provavelmente envolvendo, considerando a veemência, o tom de voz e o vocabulário, setores pouco interessados no cumprimento da lei.


O Araújo – desde cedo acostumara-se a ser chamado pelo sobrenome – vivia sua lua de mel com o trabalho, após dez anos de tentativas frustradas de trocar de emprego, dentro da prefeitura. Todos conheciam o departamento dele e o temiam, pela natureza do trabalho. Quem conseguia um cargo fora dali corria desesperado ao setor de recursos humanos para agilizar a transferência, antes que o futuro setor mudasse de idéia.


A saída só era permitida caso se conseguisse um cargo de chefia em outra repartição ou se alguém de outro setor resolvesse, voluntariamente, fazer uma troca, o que era absolutamente improvável e ainda sem registro na literatura. Ninguém havia chegado por permuta de servidor. As pessoas envelheciam ali, sem perspectivas, caso não conseguissem uma aprovação em outro concurso público ou o tal cargo em outro lugar.


O Araújo havia se resignado. Era competente, mas não se relacionava muito fora ou dentro do ambiente de trabalho, o que impossibilitada a sua descoberta por algum outro chefe disposto a lhe oferecer um cargo em outro lugar. Finalmente, agora, começava a se sentir feliz naquela estação de trabalho, cercada por outras estações de trabalho, cada uma ocupada por um infeliz diferente, todos dando de si o máximo para manter sob controle uma sempre crescente pilha de processos e um chefe nervoso como um demônio da Tasmânia.


Foi o próprio chefe, numa demonstração de satisfação com o trabalho, que fez o convite ao Araújo para um café. Usou o telefone institucional e marcou para as dezesseis horas. Ainda eram onze horas da manhã e a tranquilidade efetivamente reinava no ambiente. Nos últimos dez anos, era a primeira vez que via coisa semelhante. O chefe jamais havia dirigido a ele a palavra, não fosse para cobrar processos ou corrigir, aos berros, eventuais equívocos nos despachos. Não havia os “bom dia”, “boa tarde” e “bom fim de semana”, sempre simpáticos, mas no mais das vezes desprovidos de conteúdo efetivo, triviais em espaços de trabalho. No máximo entre os de mesmo nível hierárquico.


Da parte do chefe, jamais. Nem elogio, nem condolências no caso da perda de entes queridos. Era um tipo de campo de concentração funcional, onde não eram levados em consideração nem os mínimos princípios da liderança que “conquista para liderar” ou coisa do gênero, como dizem os modernos manuais de gestão de pessoas. Era uma derivação direta da escravatura, conforme os capatazes e capitães do mato deixaram o estado da arte em fins do Século XIX.


De tão surpreendente e não natural, o convite tirou a concentração e o sossego do Araújo, cuja paz interior alcançada a duras penas ameaçava ruir em segundos. Saiu de mesa em mesa perguntando se alguém sabia de algo errado que pudesse ter acontecido, se alguém mais havia recebido o convite, enfim, se alguma bomba explodiria sobre a sua momentaneamente tranquila vida funcional.


As respostas foram negativas e a reação ao convite causou em todos a mesma estupefação que agora subia pela corrente sanguínea do Araujo, causando já um certo tremor involuntário e o aparecimento de gotículas de suor nas áreas do couro cabeludo onde os fios começavam a faltar.


O tempo passou lentamente e a possibilidade de chegar o Natal antes das onze horas passou a ser considerada pelo Araújo. E ainda era junho!


O almoço foi tenso. A marmita que acompanhava o Araújo havia muitos anos, desde que fora demitido da empresa de engenharia num programa – paradoxalmente – de reengenharia, tinha sido esquecida em casa. Precisaria ir a algum restaurante nas proximidades, mas temia encontrar o chefe e antecipar o que havia sido previsto e que causava tanta ansiedade. A feijoada não lhe caiu bem no botequim de má fama onde almoçou e tinha certeza que o chefe não estaria.


Não foi visto entre as três e as quatro da tarde, mas reapareceu no local combinado e dentro do horário previsto, sob a ação de pelo menos um ansiolítico, além do coquetel de antiácidos e reguladores intestinais.


Na copa do andar (o convite do chefe não incluía a ida a uma cafeteria ou restaurante de bom nível, ainda que no entorno do Centro Administrativo), o chefe anunciou ao Araújo que ocorreriam mudanças administrativas e que ele, Araújo, seria, em virtude da qualidade dos serviços prestados ao longo dos anos , indicado para a chefia de uma repartição que necessitava muito de um técnico competente e que aquela seria a sua arrancada no sentido de se consolidar como um homem do segundo escalão.


No entanto, como nem tudo são flores, a repartição se situava a 70 quilômetros do centro, onde o Araújo morava e, por razões de controle de gastos e hierarquização de processos, a gratificação oferecida seria um pouco menor que a atual. As perspectivas, no entanto eram as melhores, com um treinamento garantido para a liderança e a certeza do reconhecimento.


O Araújo não emitiu uma única palavra, além de sons monossilábicos e indistintos. Resistiu ao impulso natural de uma reação violenta. Lembrou ter ouvido que “viver é reprimir instintos”.


Agradeceu ao convite para o café, declinou educadamente da indicação e foi terminar o expediente, que seguia sem novidades.


De onde menos se espera é que não vem nada mesmo.


Na repartição, a vida segue sem incidentes.


São Paulo, novembro de 2023.


 

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