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DESTINOS



O Orlandinho, coitado, era perfeito.


Ao menos para os padrões impostos naquela família estranha em que ele veio ao mundo. Solteiro cobiçado por meninas de famílias tão estranhas quanto a dele, adeptas de conservadorismos diversos e pra quem nomes e sobrenomes pesam mais que outras afinidades mais terrenas e menos aristocráticas.


Terceira geração de contabilistas, segunda de contadores, com curso superior mesmo. O avô tinha fundado a “Orlando e Cia” em meados dos anos 60 e o escritório contábil tinha se tornado um sucesso de público. Todos os estabelecimentos da vizinhança viraram clientes imediatamente. A fiscalização tinha se tornado mais rigorosa e a sistematização dos esquemas contábeis era uma exigência.


O Orlandão, ainda bem jovem, trabalhava num pequeno banco, onde fazia um pouco de tudo. Sempre fora o melhor funcionário, o que lhe valeu a indicação para fazer o curso técnico de contabilidade. Fundou o escritório quando os pais mudaram pro interior e ele ainda não tinha a necessária autonomia financeira para morar sozinho na capital. Lá, os primeiros recursos, modestos, foram suficientes para um terreninho. Ergueu uma casinha e casou-se em seguida. O nascimento do Orlando Segundo, pai do Orlandinho, foi o mote para o nome do escritório.

Orlando 2 cresceu e foi direcionado para o mesmo mundo de balanços e balancetes, livros caixa e outros registros. Aos doze anos já dominava a coisa. Fez o curso técnico e em seguida o de ciências contábeis. Na aposentadoria do Orlandão, tornou-se o chefe da equipe e modernizou o trabalho com o que era possível nos anos 80.


Orlandinho já nasceu com a banca ocupando andar inteiro na Rio Branco, dezenas de contadores e técnicos movimentando milhões por dia, mantendo a tradição de correção e discrição que os acompanhou desde sempre. O menino primogênito não escapou de ser Orlando e menos ainda do destino de administrar o movimento financeiro dos outros, como seus predecessors. Claro que agora já com o uso da moderna tecnologia, multiprocessadores de última geração, relatórios online de bancos no exterior, transações correntes em diversas moedas e uma complexidade sequer jamais imaginada pelo Orlando fundador da dinastia.


O que saía do script é que Orlandinho tinha qualquer coisa de diferente. Era um Orlando, sem dúvida, com todos os cacoetes, vocabulário, formação técnica, honestidade e dedicação que distinguia os Orlandos do clã desde o princípio. Mas não desejava a continuidade da história. Não queria se casar com uma das secretárias do escritório, como tinham feito o pai e o avô. Não queria educar um filho olhando planilhas infinitas. Nunca conversara sobre isso com o pai, mas sentia nele uma frustração tremenda, ainda que reconhecesse algum entusiasmo na transmissão do conhecimento a que foi submetido a vida toda. Desde a primeira geração do escritório, o sucesso financeiro poderia ter propiciado alternativas de vida fora do escritório de contabilidade. Não havia artistas na família, médicos, engenheiros, advogados, antropólogos, sociólogos, nada. Todo mundo era contador ou contabilista, no mínimo. Vidinha sem graça!!


Perdiam a juventude entre créditos e débitos, passavam a vida adulta corrigindo balanços, lançando balancetes e constatando lucros e prejuízos alheios. Olhava os pais dos colegas de faculdade – e foi assim desde o colégio – já que não tinham exatamente “amigos”, mas “colegas” ou “clientes”, e tinha inveja da vida comum que eles levavam, podendo escolher as alternativas que mais lhe aprouvessem para a vida, sem uma determinação prévia e impositiva de seguir o ofício que a família exercia como um carma. Por pouco não decidiu jamais ter filhos, para que não fossem submetidos ao terror de serem contabilistas e contadores. Mas achou alto demais o preço a pagar. De qualquer forma, não se casaria com uma secretária do escritório!! Isso não!!


Não que não houvesse pressão. O pai e a mãe insistiam e mesmo criaram situações, normalmente constrangedoras, para aproximar Orlandinho de uma das secretárias, a Leci. Orlandinho chegou a conversar com ela, igualmente envergonhada, pra que fingissem uma aproximação natural, sem maiores consequências, a fim de acalmar os pais dele. Nada que tivesse continuidade, mas um jantar ou um cinema sem compromisso, com fotos no celular pra mostrar em casa. Optaram pelo jantar. Ambiente mais claro. Melhor pra fotografia.


Leci, que era secretária durante o dia, levava uma vida paralela de cantora da noite. Não era uma popstar, mas era competente e conhecida na cena do samba. Correta e responsável, nunca se atrasou ou deixou que suas noites de roda de samba, duas por semana, no máximo, interferissem na sua rotina de secretária séria e disponivel. Estrategicamente, começava as férias todo ano logo após o carnaval. Assim, tinha tempo de remover qualquer vestígio de purpurina remanescente.


Pois foi num bloco no Centro, sob o sol saariano de um carnaval desses, discretamente purpurinada, mas quase irreconhecível atrás da máscara meio Veneza, meio Madureira, como as amigas tinham apelidado o acessório, que reconheceu o Orlandinho vestido de Pierrô. Parecia à vontade, mas ela, acostumada ao dia a dia no escritório, notou nele algum desconforto, como se temesse ser descoberto. Foi a senha. Leci acompanhou, a uma distância segura, os passos do herdeiro do império contábil dos Orlandos. Nunca imaginou, mesmo tendo assumido de uns tempos pra cá a condição de assistente pessoal dele, que o Orlandinho tivesse qualquer pretensão carnavalesca, tão sério e vetusto ele se mostrava no trabalho, apesar da combinação que tinham feito pra agradar aos pais. A conversa nunca passou daquilo e sempre envolvia clientes, balanços, investimentos e deduções de imposto. A discrição do Orlandinho era impressionante, passava do limite. Não resistiu! Mesmo correndo o risco de uma reação apavorada ou de ser agressivamente dispensada, abordou o chefe nas proximidades do escritório, por onde o bloco passava. Ela mascarada, ele pierrô.


Não há justificativa razoável pra contar a história toda daí pra frente. Se, por um lado, casou com a secretária, dando continuidade involuntária àquela estranha predeterminação, só o terceiro filho é que acabou batizado Orlando. Mas a homenagem foi ao Orlando Silva, o cantor preferido da Luci.


Depois de delegar funções no escritório, Orlandinho e Leci criam galinhas no interior. Poucas, selecionadas. Mais por hobby que por resultado econômico. Só vão à cidade quando Leci quer cantar.


E Orlando 4 faz escola de circo!

Prefere o trapézio aos balanços...


Rio de Janeiro, setembro de 2023.


 

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