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BANALIDADES


Marlos Degani


Retornar às crônicas depois de tanto tempo, gera uma sensação muito diferente. Escrever em prosa, tornou-se algo estranho para mim. Uma vida inteira dedicada aos mistérios do verso, àquela prisão sem cadeados que um dia escolhi como ofício – o único que sobrou à minha vida. O único que coube. A xepa da feira.


Costumo falar, nas vezes em que a poesia traz essa oportunidade, ou num lançamento de um livro ou numa participação em algum evento literário que, ser poeta, talvez, seja a única profissão da qual não se exige absolutamente nada. Não há premissa alguma para ser poeta. Nem mesmo a de ler e escrever ̶ Patativa do Assaré não deixa ninguém mentir. Qualquer pessoa que componha uma frase apenas, pode, legitimamente, considerar a sua composição um poema, e ter o direito de ser chamado de poeta ou poetisa. Qualquer um. Qualquer uma. Seja quem for. Poeta é qualquer um.


Escrevo a primeira crônica de retorno (depois de ter passado pelo sítio do Baixada Fácil, do querido Eduardo Ribeiro, onde eu tinha um espaço chamado A Crônica do Poeta e, também, por pouco tempo, no nosso Correio da Lavoura. Lá se vão quase vinte anos), num dia típico de outono, chuvinha intermitente, aqueles vinte graus de avião, e um céu que parece de estopa suja. E mais a banalidade das horas que perseguem o dia, e constroem a rotina, essa mó que tritura qualquer esperança pelo caminho. Ou não. Ou nem todas elas, afinal...


Mas esse papo de banalidade das horas é com o Seu Adauto. Eu o conheci há muitos anos, no final da década de 90, num boteco, lá perto do Carmari, num domingo de manhã. Seu Adauto, um negro alto, forte para dedéu, então com seus 88 anos, e meio aborrecido, disse que tinha sido obrigado a parar de trabalhar pelo seu encarregado de obras. Que até o final daquele mês, ele teria que ficar em casa, atrapalhando a patroa. O papo seguiu e ele disse que sentiria falta de duas coisas: a primeira era da abordagem dos recém-formados em arquitetura e engenharia civil, que o encarregado mandava diretamente para ele:


̶ Fala lá com o Adauto... Ô Adauto, cuida desses meninos...


Ele se gabava de ter recebido vários presentinhos dos estagiários:

̶ Olha aqui esse anel... Foi uma menina com idade para ser minha bisneta que me deu... Coitados... Esses meninos não sabem de nada... Eu ensinava tudo... O que eles ficam fazendo na faculdade?


E perguntei:

̶ E qual é a segunda coisa que o senhor vai sentir mais falta?

̶ Ah, meu filho... É da cervejinha aqui nas segundas de manhã, cedinho. Sempre tirei folga nas segundas para poder beber uma cerveja e ficar olhando o povo no ponto de ônibus, aquelas caras de desespero, de ressaca e de início de mais uma jornada. Era a cerveja mais deliciosa de todas....

̶ Mas seu Adauto, isso não se faz...

E ele rindo de entortar a barriga, disse...

̶ Mas agora acabou, meu filho. Como vou poder beber esta cervejinha nas segundas, se todos os dias serão iguais?

Nem tanto, Seu Adauto, nem tanto...


 

Arte, Cultura, Ciência



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