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SHAKESPEARE NA PAULISTA


Há poucos anos, ainda no Governo da Presidente Dilma Rousseff, editei um livro denominado ' O Mundo é um Palco ', organizado por José Roberto Castro Neves, este grande intelectual. No livro, notáveis autores de diferentes formações (advogados, um Ministro do STF, psicólogos, atores, jornalistas e outros) identificam situações semelhantes entre as peças históricas de Shakespeare e os dramas que o nosso país enfrentava. Como se os arquétipos pouco mudassem ao longo do tempo. O livro mostra a repetição do ensinamento histórico da recorrência e celebra a universalidade e a atualidade de Shakespeare, exposta no caráter mais profundo dos dramas humanos que ele narrava. Peças como Ricardo II, Ricardo III, Henrique V e outras, possuiam situações e personagens parecidos com os que se assistia repetir no Brasil de então.

 

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O Presidente da República, Jair Bolsonaro, foi eleito após o livro ser lançado, num momento em que o País rejeitava tudo que tinha acreditado, como se dissesse: mil vezes o desconhecido, a ser enganado de novo por aqueles mesmos de sempre.. Assim foram eleitos Eduardo Leite, João Dória, Romeu Zema, Wilson Witzel, Carlos Moisés e Jair Bolsonaro. Governadores e Presidente. Desconhecidos ou pouco conhecidos nos respectivos ambientes políticos. Uns estão acertando, outros nem tanto. Até ter sido recolhido à prisão. mais de um experimentou. Como todo processo do gênero voto impulsivo, um resultado lotérico é o resultado Alguns acertam , outros não. A maior perplexidade ficou, evidentemente, reservada a quem foi eleito para o maior cargo da nação, o de maior responsabilidade, Jair Bolsonaro. Bafejado pelos ventos de mudança em relação à política rasteira a que vínhamos sendo submetidos, ele não era certamente o Presidente dos sonhos que se queria. Para muitos que nele votaram, era a alternativa face à opção resultante ao final do do primeiro turno. Algumas de suas atitudes tinham lhe ocasionado problemas como ao elogiar um confesso torturador a serviço do regime militar ou quando foi particularmente agressivo com uma deputada, ao dizer que ela não merecia, sequer, ser estuprada. O seu retrospecto político igualmente não era muito animador. Seus 27 anos no Congresso não haviam resultado em projeto de lei algum aprovado. Muitos dos seus votos se alinhavam com o que se chama interesses corporativistas, aliados a segmentos presentes na Câmara que reforçam o caráter clientelista das suas decisões. Num segundo turno entre o passado ruim na memória recente e o futuro nebuloso, o eleitorado embarcou neste último. Os brasileiros são, apesar de tudo, otimistas e alicerçados por alguns ministros escolhidos na primeira leva, como Paulo Guedes e Sérgio Moro, que sonharam um governo de liberdade , justiça e repúdio à corrupção, deram um crédito de confiança ao Presidente. Não demorou muito porém, esta lua de mel. Vários dos seus atos começaram a dar mostras que ele se mantinha igual ou pior do que tinha sido, refinando suas atitudes negativas em relação à justiça, aos direitos humanos, ao meio ambiente e à condução de uma saudável política externa. Cercado de um círculo de estranhos colaboradores não se investiu, em momento algum, da dignidade que minimamente se espera de alguém que ocupe o cargo de Presidente da República. Talvez o clímax da decepção, aquele ponto onde não pode restar mais dúvida alguma quanto ao caráter do seu governo, tenha sido atingido no seu discurso para uma multidão de fanáticos seguidores no dia 7 de setembro último, na AV Paulista. Ali, numa fala direta e objetiva, mentiu deslavadamente ao pôr em dúvida a correção do futuro processo eleitoral, a isenção dos Ministros e Juízes que o conduziam , ofendeu ao Supremo Tribunal Federal e a alguns de seus membros, colocando se como um enviado divino para garantir a democracia, acima de qualquer poder, ele e o povo ( dele, por suposto). Voltando agora a Shakespeare, desta feita para lembrar de comportamento inverso." Não suponha que sou o que já fui " diz Henry V, o antigo Príncipe Harry, recém feito rei, a seu velho companheiro de pândega Falstaff. A vida dissoluta nas piores companhias de bêbados e escroques, dentre os quais o velho Sir John Falstaff, gordo, e simpático como os grandes vigaristas, que o arrastavam para aquela vida havia ficado para trás. No passado isso o havia levado a ser preso pelo supremo Lord Justice, digamos o presidente do STF de então na velha Inglaterra. Morto o Rei, aclamado Harry como Henry V, na mesma sequência de diálogos, onde profere a frase acima, na presença de Falstaff e do Lord Justice que outrora o prendera , com razão, imbuindo-se de suas reais responsabilidades. O Lord Justice assiste e até entender a situação, não se mostra tão tranquilo em relação ao seu destino, quanto se acha em relação à sua consciência. Esta é a cena final da peça Henry IV- 2a Parte, que se passa em 1413, quando da coroação de Henry. O Rei se dobra à figura institucional da justiça e Falstaff, que a desafia, é repudiado pelo Rei e mandado à prisão.


 
 

Mutatis mutandi destino melhor teve o Lord Justice do que aquele que o Rei Henrique II deu ao seu velho amigo Thomas Beckett, Arcebispo de Canterbury. Fiel a seu posto institucional, ele discordou do Rei e acabou assassinado a mando deste em 1170.

Tanto Beckett, como 250 anos depois Henry V, mostraram honrar as cadeiras que se sentaram e à Justiça. Um virou santo e o outro um dos maiores heróis da história inglesa.

Bolsonaro não deixou de ser o que era e deve se cuidar para não ter destino e memória análoga à de Falstaff.


 

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