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O Anjo sem Deus

Eleonora Duvivier (arquivo pessoal)


Antes do Tempo posar como pai da Existência, o Orgasmo nasceu de um sopro de paz entre Deus e o diabo, para agraciar as pessoas na terra. Sendo atemporal, ele continha o bem e o mal, renascer e aniquilação, sofrimento e prazer, tudo de uma vez. Mas não ameaçava o Tempo porque dependia deste para ser alcançado, pois aqueles que se atraiam precisavam passar momentos de sedução entre si. Mas as pessoas frequentemente queriam se vender caro e tornavam o caminho para o Orgasmo mais longo e sinuoso que os ritos de acasalamento dos animais. Muitas vezes, absurdamente calculado.


No começo, isso apaziguava o Tempo, mas pouco a pouco, ele encarou o fato de que Orgasmo lhe escapava. Tal explosão de graça e pecado transgredia os limites temporais que subjugava tudo e todos. Tempo, que era preguiçoso, entediado, e repetitivo, decidiu ignorar Orgasmo, dizendo a si mesmo que atrasaria e bagunçaria mais e mais o caminho para aquele prazer esquisito que o desrespeitava. Assim, continuou seu trabalho de fazer as pessoas ficarem mais feias, gastas e deterioradas. Transformou-se numa teia da qual ele próprio era a aranha. Todos os seres ficavam presos nessa teia e vagarosamente podiam se mover, acabando por serem devorados pela preguiçosa aranha.


Junto com a Deterioração, o Medo, a Culpa, esse golpe de misericórdia que se chama Morte, penetraram na existência. A humanidade estava aprisionada, e Orgasmo tornou-se quase impossível de ser alcançado por muitos, pois Medo e Culpa se apaixonaram e deram origem ao Puritanismo. Esse resultado pretencioso e auto importante da mistura dos dois relegou Orgasmo à procriação e ao casamento. Regrando esse momento de eternidade, conseguiram que este ficasse anêmico e desprovido de paixão.


Mas havia um anjo sem Deus entre os homens, e ele resolveu ajudar quem pudesse. Era cientista, e como a maioria deles, não acreditava no que não podia ser provado, no que não podia ser possuído pelo conhecimento. Mas Sigmund Freud era anjo porque conseguia absolver as pessoas através de compreendê-las melhor do que elas mesmas. Afirmou a existência de uma parte desconhecida da mente, que acessava através de uma terapia que ele próprio criou e chamou de psicanálise. Seu poder de empatia era tão grande que quase destronou Culpa, a filha mais velha do Tempo, pois como poderia alguém se sentir culpado pelo que fez se não se conhecia o suficiente para saber o que o levou a fazer aquilo?


A responsabilidade por nossas ações e ate mesmo pensamentos foi posta em questão, e o que a religião considera “pecado” se tornou para muitos um mero resultado da auto ignorância. Nosso anjo também era anjo por ser poeta a despeito de si mesmo, e como se inspiradas pelas musas, suas declarações tinham qualidade altamente literária. Esse anjo terrestre construía estórias dramáticas interpretando mitos antigos e seus achados, frequentemente ilustrados por metáforas poderosas, mudaram o mundo. Alguns filósofos ficaram furiosos porque a existência do seu amado livre arbítrio foi posta em questão. Mas o anjo sem Deus estava resolvendo os problemas sexuais que afligia a humanidade e tentando mostrar que a religião também nasceu da Culpa.

“Se esse cientista continuar a decretar absurdos, nada mais merecerá castigo e ninguém vai mais precisar de mim!” esta pensou.


Tempo, a aranha, se perguntou o quanto diminuiria sua importância, se todos os prazeres pudessem ser alcançados independentemente de metas através dele, quer dizer, sem se ter que subir a sua teia. Medo era muito covarde para se preocupar, mas só gostando da escuridão, sempre odiou a coragem do anjo sem Deus trazer as coisas à luz. Ademais, estava super ofendido por ter sido desmascarado o seu laço incestuoso com Culpa. O anjo deu tanta independência `a sexualidade que esta não mais precisou se aliar a paixão. O amor livre ficou quase mecânico, e para entrar numa relação, as pessoas ficaram cerebrais, avaliando vantagens e desvantagens antes de se decidir.


No céu, a família do nosso anjo não se preocupava, porque ateu ou não, ele estava fazendo o bem. Mas quando viram como as ligações sexuais se tornaram descartáveis, substituíveis e banais, e o quanto as pessoas foram se tornando indiferentes à religião, se horrorizaram e sentiram pena de seu primo terrestre. As consequências do que ele dizia os levaram a se focalizar nos problemas da terra, e, da eternidade onde vivem, viram o que aconteceu, o que estava acontecendo, e o que ainda estava por acontecer. O que mais lhes chocou foi o que se tornou a religião. Muitos transferiram sua fé para a ciência, mas pior que desaparecer, a religião deu origem ao fanatismo dos evangelistas, ao vale tudo do New Age, e a conflitos entre Este e Oeste.


Regida pelo pensamento utilitário, que é outro filho mesquinho do tempo, a tecnologia foi acabando com o planeta e justificando seus fins. Muitos se preocuparam com a sobrevivência de seus descendentes e começaram a promover a defesa dos recursos naturais, contra outros que, só querendo dinheiro, ateavam fogo nas florestas, poluíam o oceano, o ar, a comida, e não estavam nem aí. Além desses oponentes, havia outras correntes de ecologistas, e alguns achavam que a ciência encontraria a solução. Mas não se chegava a nenhum acordo.


Essas crises precisavam de intervenção sobrenatural. A família do anjo terrestre foi pedir ajuda aos arcanjos das quatro direções de Deus: Miguel, Rafael, Uriel e Gabriel. Miguel, o líder de todos os anjos, é pura paixão. Carregando a espada da verdade, não hesita em limitar, libertar, e atacar em favor da justiça. Traz coragem, força e fé. Gabriel ajuda a entender as mensagens de Deus através da intuição, sonhos e visões. Rafael abre o caminho de comunhão com a natureza, trazendo cura para mente, corpo e espírito. Uriel, com a sabedoria do amor de Deus, traz compaixão e reconciliação.


As queixas que os anjos celestes fizeram aos arcanjos sobre os conflitos na Terra não os surpreenderam. Mesmo sem considerar os que destruíam por dinheiro, a relação de interesse que os outros tem com a natureza, só a considerando em função da própria sobrevivência, já tinha revoltado o Arcanjo Rafael. A intenção deles era mais nobre do que a cobiça financeira, mas a maneira interessada de só ver na beleza natural uma fonte de sobrevivência revoltava Rafael. Mesmo que a intenção deles fosse melhor do que a dos que só queriam dinheiro, não tinham a menor capacidade de ouvir a voz da floresta, enxergar as ninfas das arvores, escutar a música do mar e apreciar o som do silêncio. Não tinham nenhum senso poético, nenhuma chance de poder honrar a verdadeira e curadora alma da criação natural. Não podiam se abandonar ao único amor que pode anular o impulso egoísta com que construíram a Terra.


“Será que as pessoas só podem interessar por si mesmas? será que não podem ir um pouco além e ouvir o espírito? Os que só pensam em dinheiro são desprezíveis, mas os ecologistas também estão presos na teia da aranha Tempo. Não conseguem tratar a natureza com o devido respeito porque não transcendem.” Rafael disse aos arcanjos.

“Não esqueça que eles não são como nós! Não esqueça que não têm asas... Vamos respeitar os desígnios de Deus” Gabriel recomendou.


Uriel por sua vez detestava o novo vocabulário que trocava certas classificações por termos ambíguos, permitindo a quem fizesse uso deles a ficar em cima do muro. A palavra “energia” por exemplo, dizia respeito ao mundo físico como a eletricidade ou a força corporal, e com a equação mais popular de Einstein (Energia é igual à matéria vezes a velocidade da luz ao quadrado) se revelou relativa à matéria e não ao espírito. Mas com o novo vocabulário, “energia” passou a significar realidades espirituais como emanações da aura das pessoas e até mesmo espíritos vagantes. Usada com frivolidade para designar conteúdos imateriais, “energia” passou a sugerir uma mistura de realidades espirituais e cientíicas cujo significado ninguém sabia ao certo, permitindo a seja quem fosse fazer uso dela para evocar algo que se queria importante, invisível e metafísico.


Certas palavras podiam ser vagas se ignorassem limites que muitos não queriam definir, como a distinção básica entre sexos. O termo “They” em inglês, que é plural, passou a ser usado em certos meios para designar tanto o singular “ele” (he) como “ela”(she) tal imprecisão abrangendo uma variedade de identidades sexuais incluindo as que resultam de alterações cirúrgicas, e preferencias eróticas que podiam antes se revelar através dos encontros entre quem se atraia. O que deveria nascer de uma improvisação criativa da “arte do encontro” (nas palavras do poeta) passou a ser estabelecido antes de qualquer interação, como rótulos fixos que definem produtos antes que estes sejam usados. A necessidade de especificação chegou a fazer o tiro sair pela culatra, e o termo “fluido” foi inventado para expressar o fato de que a sexualidade e os comportamentos sexuais podem mudar com o tempo ou de acordo com a situação. Em poucas palavras, para anular qualquer especificação.


Entretanto, a palavra “Deus”, cuja flexibilidade provinha de sua riqueza metafórica e poética, passou a ser inadequada para muitos por falta de precisão. Essas inovações verbais expressavam uma atitude desprovida de espontaneidade e totalmente contraditória: a necessidade de especificação por um lado e imprecisão por outro; categorias aqui e medo de categorização ali. Uriel por exemplo, se indignou com a substituição de “Deus” por “universo” em alguns círculos que, também escravos do medo da espontaneidade, se apaixonaram pela ciência e a imparcialidade de seus termos e julgamento. Palavras científicas, impessoais e frias, são moralmente neutras e não comprometeriam a retidão de ninguém. E muitos achavam “Deus” um termo inadequado por implicar a crença numa entidade sábia e ética governando a vida e os acontecimentos lá de cima. Esqueciam que poetas e filósofos livres de qualquer dogma viam “Deus” como a fonte de criação, como a beleza da natureza, e na linguagem coloquial se encontrava muitas expressões em torno de “Deus”. Com efeito, Uriel mesmo, exasperado com tudo aquilo, pensou “Pelo amor de Deus!”, sabendo que Deus era a fonte do bem, um pai todo poderoso, uma invocação de socorro, o divino feminino e masculino ao mesmo tempo, a beleza da natureza, e muito mais. Frases de empoderamento ao invés de humildade, como “Faça com que o universo saiba que você quer ter sucesso” substituindo “Deus me ajude a ter sucesso” o deixavam louco.


“Será que não podem perceber que o amor é a força da criação, o vínculo entre Criador e criatura? Será auto importância que os leva a pensar que sua modernidade deve se expressar através de conceitos frios e objetivos? Onde foram parar? “Universo” é o objeto da ciência ao passo que Deus se manifesta em nosso coração e nada pode arrancá-lo de nós como se fosse um espécime de laboratório ou um resultado de especulação!” ele disse aos outros arcanjos.


“Isso é porque lhes falta paixão. Estão sob o domínio do Medo e por isso confundem objetividade com solidez, incapazes de perceber que essa própria “solidez” de seus conceitos resulta da divisão do que antes era comunhão. Tenho que inspirar coragem neles!” declarou Miguel.


Sob sua liderança, os arcanjos acolheram tudo que ele decidiu. Lembraram-se de quando abençoaram com sua força redentora o cipó banisteriosis caapi, e o arbusto psychotria viridis, transmitindo a um indígena da maior e mais pura floresta no mundo para misturá-los numa bebida. Ela conteria a coragem de Miguel, a verdade de Gabriel, a cura de Rafael e o amor de Uriel. Quem bebesse dela seria tocado pela graça de Deus. Logo ela se espalhou pela Amazônia e se tornou uma fonte de aprendizado para todos os indígenas.


Agradecidos, eles compreenderam que aquele abençoado chá lhes garantia revelações transcendentes, mostrando a verdade de cada um através do além de cada um. Ensinou-lhes também as propriedades de uma infinidade de outras plantas. Tornou-se seu mestre sagrado. Os arcanjos tinham sido atraídos pela inocência daquele indígena e pensaram que outros como ele seriam os únicos habitantes da terra. Agora era tempo de espalhar a medicina sagrada aos que se consideravam “civilizados” e haviam se tornado a maioria no planeta. Miguel, a coragem da paixão e a paixão da coragem, é responsável pela justiça e garantiu aos outros três que daria conta do recado. Voou para a Amazonia e se manifestou através de todos os cipós banisteriosis caapi e os arbustos psychotria viridis. Sua radiante beleza era invisível aos olhos, mas não ao coração. Era sentida como a aniquilação de todos os limites.


Aqueles que vivenciaram a presença de Miguel compreenderam que deviam levar a mistura de plantas ligada a ele para as cidades. O principal arcanjo de Deus havia até lhe dado um nome: Ayahuasca, a videira da alma; a medicina sagrada da floresta. A partir de então, pajés de tribos diferentes aprenderam a tocar violão e a cantar ícaros, as músicas de cura enviadas por ayahuasca. Viajaram pelo mundo conduzindo rituais dessa medicina para gregos e troianos. Assim continuam, e os arcanjos torcem por seu sucesso.


Depois dessa estória, você ainda se pergunta por que o Arcanjo Miguel aparece para tantos ayahuasqueiros?


 

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