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Nem cedo nem tarde, apenas noite



Há mais ou menos duas semanas tive a oportunidade de conhecer Otoniel. Estávamos no Bar do Pedro, que fica na Cantareira, pertinho da UFF, e já quase me representa uma extensão do ambiente universitário. Antes de ir para casa, por volta das dez da noite, parei para tomar um litrão de Brahma Duplo Malte e – se por sorte companhia alguma aparecesse – jogar uma partida de sinuca. Otoniel encerrava mais um dia de trabalho nas ruas. O artista carregava pouco consigo: alguns azulejos brancos, um pedaço de plástico que improvisava como paleta, tubos restritos em cores de tinta à óleo e um copinho com tíner – solvente utilizado para esse tipo de tinta. Nossa aproximação não se deu de imediato. Um outro frequentador assíduo do bar – que até então me era conhecido apenas de vista – foi quem liderou as interações com o ambulante, que nitidamente buscava conversa qualquer a lhe tirar a monotonia dos olhares desviados que costuma receber pelas ruas.


O freguês – quem dia outro eu havia de vir a conhecer – tomava uma bojudinha de Caninha da Roça – cachaça da pior qualidade que se pode encontrar – e exalava um estilo de vida boêmio, figurinha carimbada dali. Pôs-se então a derramar uma dose generosa no copo de Otoniel e a demostrar interesse em seu trabalho. O artista não hesitou: sacou um azulejo, espremeu na paleta as cores que já estavam no fim e começou a pintar um pôr do sol. Não eram de seu feitio técnicas rebuscadas ou misturas elaboradas – o que impressionou foi sua prática e a destreza com que manuseava as tintas e o azulejo. Sequer usava pincéis, pintava com os próprios dedos. Até tinha um fininho que carregava detrás da orelha, entremeado em seu Black Power, mas não vi ser sacado. Otoniel gostava do papo, de impressionar com seu trabalho e com sua velocidade. Agradeceu a cachaça e retribuiu com a pintura. Feito o pôr do sol, pegou um novo azulejo para mostrar como pintava prédios. Pediu um cartão emprestado. Com um pouco de hesitação, seguida da indagação de se a tinta sairia, recebeu um Riocard e, por pura paixão pelo processo, esboçou rapidamente uma paisagem com arranha-céus – para os quais fora utilizado o cartão – um rio e uma ponte. Logo molhou um pedaço de papel no tíner e apagou toda a obra – pintara apenas para exibir a técnica. Disse que uma espátula serviria, mas não valia o investimento – “cartão qualquer um tem”.


Quando observei a movimentação caminhei para perto deles. Admiro todas as formas de manifestação artística, também pinto e sou viciado em uma conversa de boteco. Como quem não quer nada, me encostei em uma das pilastras da entrada do bar – composto apenas por uma mesa de sinuca, uma geladeira da Brahma, um freezer horizontal branco, um balcão – onde o seu Pedro atende – e quatro máquinas de caça-níquel, que ficam nos fundos. Nem banheiro tem ali – o mijo ferve nas calçadas e nos canteiros de árvore. Em silêncio, observei cada detalhe da cena. O freguês boêmio que bebia Caninha da Roça não conseguia disfarçar o riso frouxo e impressionado. Uma moça bonita, alta e de cabelos loiros se sentava ao seu lado – não sei se era sua namorada, mas a vi com ele dia outro. Alguém que passava também parou para assistir a performance. A verdade é que todos se uniram em uma observação vidrada, enquanto Otoniel manobrava seus artefatos. Algumas semanas depois nos reencontramos no Bar do Pedro. Nesse dia, já pensando nas histórias que ele teria para me contar e com uma abordagem um pouco menos informal, conduzi uma “conversa-entrevista” com o artista, que se banhou em nostalgia e memórias de seus já mais de dez anos de estrada.


Otoniel nasceu em Caçador, um município que pertence a Santa Catarina e fica pertinho de Santa Cecília, na região serrana do estado. O transeunte contou sempre ter sido um menino “levado”, na escola era o primeiro a puxar a algazarra e a fazer arrepiar os professores. A relação com a família é boa, especialmente com sua mãe, a quem disse amar incondicionalmente e prestar uma visita todos os anos no dia de seu aniversário. Em Caçador, município com cerca de 80.000 habitantes, Otoniel é figurinha marcada e fora essa uma de suas principais motivações para sair dali. “Todo mundo me conhecia, eu só fazia merda, pintava o sete. Chegou uma hora, quando eu fiz meus 18 anos, que seu só queria sair dali e me tornar invisível”. Tentei entender melhor essa sua relação com a ideia de “ser invisível”, citada por ele diversas vezes ao longo da conversa. Para Otoniel ser invisível é quase um superpoder, é como o vento que faz balançar o cabelo à beira mar, pôr o dedo em riste frente às viaturas de polícia, correr pelado pelas praias do sul. Sua relação com a invisibilidade – e com a vida de maneira geral – passa quase que exclusivamente pela ideia ou sensação de liberdade, viver dia um após o outro e não olhar para trás.


A rua não é mãe, não trata com beijos, nem abraços, muito menos oferece afagos – e disso Otoniel já sabe. O estilo de vida andarilho e o sustento advindo da arte chega para ele como uma necessidade, forma única possível de se viver; mas cobra preços altos. Momentos de perrengue, desconforto e situações bizarras se acumulam na mochila de Otoniel, que ficou com o olhar perturbado quando indagado sobre esses acontecimentos desgostosos, preferiu não os comentar, mas as lembranças ebulidas por minhas perguntas foram inevitáveis – pedi desculpas e desviei o assunto. Até então o artista se demonstrava um rapaz equilibrado, satisfeito com o lugar em que sua vida se encontrava, de sorrisos muitos e problematizações apenas pontuais, parecia viver em verdadeira lua de mel com o estar vivo. Foi então que constatei aquilo que talvez desde o início fosse óbvio – a vida nas ruas é para poucos, na liberdade se entremeiam traumas e desconfortos, é indispensável nível algum de loucura.


Algum tempo depois, com mais uma ou duas doses na cabeça e sem que eu voltasse no assunto, resolveu me contar uma das situações mais adversas por que passou nesses anos de estrada. O fato ocorreu em Minas Gerais, no município de Carrancas, que conta com pouquíssimos habitantes e é nacionalmente conhecido pela beleza natural de suas cachoeiras. Nessa época Otoniel havia resolvido viajar de bicicleta, a fim de reduzir seus custos com transporte, já que “carona no Brasil não existe mais”. Foi então que acabou se acidentando, o resultado? Duas costelas quebradas e mais de uma semana no hospital, sem nenhum conhecido na região para lhe oferecer qualquer tipo de ajuda ou conforto. Disse que esse foi sem dúvidas um de seus momentos mais difíceis, daqueles que nos fazem repensar nossas escolhas. Existe também uma relação estreita com o dinheiro, que está longe de ser abundante e em momentos muitos se torna um problema. Em um dia bom, numa grande capital, chega a ganhar 200 reais vendendo seus artefatos, mas esse número não pode ser tido como base, pois em uma semana internado não ganha nada.


Essa conversa sobre dinheiro trouxe à tona questões básicas para a sobrevivência humana, como alimentação e estadia. Otoniel, que já muito viu não só do Brasil como também de outros países da América do Sul, disse nunca ter passado fome e se posicionou de maneira enfática sobre o tema. “Fome ninguém passa. Só passa fome quem tem vergonha. Comida não falta nesse Brasilzão, como que vão me negar um prato de comida? Eu chego em qualquer restaurante, umas três, quatro da tarde, pergunto se não sobrou alguma coisa, se tem algo para eu comer e eles me dão o que tiver, nunca passei fome, isso aí não existe”. Em relação a estadia o artista não dispensa sua barraca por nada, apesar de normalmente preferir ficar em hotéis ou motéis de baixo custo. “Têm muitas cidades que eu já conheço, aí eu volto e fico no mesmo lugar, aqui em Niterói mesmo, da última vez que vim fiquei no que estou agora. Acaba que você já conhece as pessoas e tudo fica mais fácil, mas eu não abro mão da minha barraquinha não, já me salvou muito”.


Otoniel é um homem negro, de estatura média e na faixa dos 30 anos. A rua é sua casa. Falar em planos para o futuro seria redundante, já que vive dia um após o outro seu plano principal. Apesar de viver da forma que lhe convém e ter alcançado certo domínio de seu tempo e suas vontades, é preciso termos em mente a sucessão de abdicações necessárias para isso. É claro que Otoniel se incomoda com várias questões de seu dia a dia, de sua não rotina. Inquietações muitas, haja vista o tanto que já viu. Mas é como se a necessidade de se ter livre, independente, conhecer novos lugares e novas pessoas fizessem parecer menores as adversidades, os infinitos ‘poréns’. O transeunte não vive com muita folga ou qualquer tipo de regalia, pelo contrário, lida com rejeições diárias à sua pessoa, ao seu trabalho, ao seu estilo de vida.


Se queixou, em tom de desabafo, que as pessoas não sabem diferenciar um artista de rua de um mendigo, o têm como pedinte, mulambo, ser marginal; quando na verdade é mais um ser humano trabalhando diariamente na manutenção de seus sonhos.


Lucca Rezende Pinho, para o portal CRIATIVOS!



 

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