NEGRITO, ARIAL, 14


Paulo Castro, excelente compositor Paulinho do Cavaco


Queria encerrar o conto, mas não encontrava uma palavra que desse um fecho a ele. Na verdade, não procurava uma palavra, mas, sim, "a" palavra. Era cuidadoso com os seus textos, pois eles iriam se incorporar, através da leitura, ao universo literário dos leitores.


Foi ao seu repertório de professor de Língua Portuguesa, mas não descobriu uma que se aplicasse ao fechamento da estória, onde havia amor intenso e descoberta da felicidade vividos por um idoso no bairro dos idosos, a sua Copacabana. As palavras estavam impregnadas de sujeitos, objetos diretos, indiretos, servindo muito mais à análise sintática do que à literatura.


No dicionário, só achou palavras frias, que não se adaptavam ao clima do conto, cujos personagens eram movidos essencialmente pela emoção. Serviam para classificação do número de sílabas, do gênero, número, sinônimo, antônimo... Sentiu que deveria andar por outros caminhos.


Procurou nas letras dos sambas de Paulinho da Viola, Cartola, Nélson Cavaquinho. Escolheu esses três porque conhecia grande parte da obra deles, o que tornaria a busca mais agradável. Ia cantarolando enquanto lia. Descobriu, entre belas imagens, palavras maravilhosas, saborosas, mas que não se adaptavam ao fecho da narrativa. Em Cartola: " Queixo-me às rosas/Mas que bobagem/As rosas não falam/Simplesmente as rosas exalam/O perfume que roubam de ti, ai"



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