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MUITOS



Éramos dez ou mais. Diferentes no grau máximo, pretos, brancos, pobres, remediados da classe média, ricos até. Gente de todo tipo, origem e fé, unidos por subjetividades não exatamente subjetivas, mas não suficientemente objetivas a ponto de justificar uma alteração na classificação.


Viés político, como dizem sempre agora, achando que nos ofendem. Haha! Jovens universitários tendiam, nos anos oitenta e a depender de certas experiências anteriores, a uma perspectiva de esquerda. Nas universidades públicas em particular. Uns vinham da militância estudantil secundarista, outros da igreja, importante centro de formação, numa época em que pontificaram Dom Helder, Dom Mauro, Dom Pedro Casaldaliga, Dom Tomaz! Balduíno, Dom Paulo Evaristo Arns. Outros ainda vinham de famílias direta ou indiretamente atingidas pelos horrores da ditadura, fosse com censura, cassações, perseguições e exilios ou, pior, com torturas e assassinatos. Tinha a turma da arte, naturalmente contestadora. Os filhos de servidores públicos e os filhos de sindicalistas ou entidades corporativas de diferentes áreas. Fora os operários. No nosso grupo havia representantes de todos os grupos, ainda que fosse um de cada.


E o ambiente atraía a todos, mesmo aos que não tivessem qualquer vínculo natural com a militância. O desejo de fazer do mundo um lugar melhor era um sonho comum na juventude toda. Certamente havia, no conjunto maior dos estudantes, gente que cultivava outra orientação.

O mundo dos anos oitenta vivia a consolidação do neoliberalismo.. Thatcher e Reagan davam forma final a uma humanidade que abandonaria valores construídos ao longo de sua história e transformaria direitos em simples quantitativos monetários. A moradia deixava de ser um direito. E assim a alimentação, o transporte. Entendidos como patrimônio, desobrigavam o Estado e transferiam a responsabilidade em definitivo para o cidadão. E havia, na juventude brasileira, quem pensasse desse jeito. Mas o ambiente era desfavorável na universidade pública pra esse tipo de orientação. Em todas as direções, a construção do conhecimento orientava para uma formação mais humanista e comprometida com direitos e cidadania. E nós estávamos lá! E éramos dez ou mais. Amigos de todas as horas, de todas as aulas, de todas as festas, de todas as lutas e botecos.


O tempo passou. A sociedade mudou, a guerra fria acabou, o muro caiu, cristalizou-se o neoliberalismo como modelo. Os padrões de consumo mudaram, a desigualdade se modificou num mundo menos pobre, mas ainda mais concentrador de renda. A China emergiu potência gigante, produzindo tudo e demandando tudo o que se produz fora. Guerras inúteis e sangrentas pipocaram sempre por motivos comerciais.


Éramos dez ou mais. Nos graduamos, construimos carreiras mais ou menos bem sucedidas nos critérios do neoliberalismo dominante, mas sem sustos. Somos bem mais que dez hoje em dia. Reproduzimo-nos vertical e lateralmente, pra usar medidas compreensíveis. Agregamos gente. Talvez tenhamos perdido um ou outro. Talvez. O afastamento pode ter outras justificativas e a construção de valores primários de humanidade e cidadania normalmente não se perde com o tempo. Mas formamos ao menos uma geração posterior com valores semelhantes.


O mundo mudou demais. Nós mudamos demais. Ostentamos algumas barrigas impensáveis para os nossos remotos anos 80, mas nem todos. E isso, convenhamos, não é um problema! Estamos mais inteligentes, mais cultos, mais bem formados, donos de nossos narizes. O mundo é nosso e de nossos filhos e filhas. Cheio de disparates conceituais, cheio de erros, cheios de injustiças e coalhado de gente ruim. Mas é o mundo que temos, a despeito dos esforços da NASA e da ficção científica toda. O mundo que ameaça afundar com a subida dos mares provocada pelos nossos excessos. O mundo que em breve pode não ter mais muitas espécies com as quais nos habituamos a conviver, ainda que à distância segura. O mundo da manipulação genética que é mais uma cartada da indústria pra tornar a agricultura completamente previsível e cada vez mais excludente. Ah, o mundo.


Mas somos muitos, bem mais que dez. E ainda dispostos a fazer do mundo um lugar melhor, nem que seja num cantinho. Nem que seja só quando nos juntamos no fim do ano. Nem que seja só nos aniversários. Nem que seja só durante o ano todo trabalhando naquilo que nos foi determinado que faríamos por profissão ou deleite.


O tempo passou. Ainda bem. Nos oitenta, não sabíamos que isso tudo ia acontecer. Não sabíamos que sobreviveríamos a uma pandemia mortal. Não sabíamos que o mundo, tão tardiamente e tão já ameaçado, faria ainda guinadas à direita, como a reviver tempos amaldiçoados de racismo, extermínio e ódio. Não sabíamos que sobre o Brasil lindo e trigueiro cairia a peste do bolsonarismo miliciano. Nem Disney ou Hanna-Barbera inventariam um Milei.

Mas somos mais que dez. Bem mais.


E ainda estamos aí, assistindo de camarote, mas ainda com a mão na massa, ao caos nosso de cada dia e desejando que no Natal, nem que seja por obrigação moral, a gente continue pensando em como melhorar o mundo.

Somos muitos.

Abraços e boas festas.

 

Porto Alegre, dezembro de 2023.

 

PS.: Não precisa ser entendido com uma história real. Mas tem muito de verdade aí. É uma homenagem a quem, como eu, fez amigos queridos nos anos oitenta.

 



 

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