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LETRAS



Jamais teria o atrevimento de levantar qualquer debate sobre a diferença que existe entre letra de música e poema. Muitos acham que não há esse hiato, mas a discussão é bem complexa. Bem, mesmo. Resumidamente, de tudo o que busquei sobre a questão, desde sempre, fico com o fragmento de um excelente artigo de Francisco Bosco para a Revista Cult, em 2010, sobre o assunto: “Essa diferença, em uma palavra, é a seguinte: o poema é autotélico, dirige-se a si mesmo, sua estrutura é “simples” (discurso verbal, apenas), sua tarefa, como a de toda obra de arte, segundo a estética deleuziana, é pôr-se de pé, mas pôr-se de pé sozinho, através de seus próprios recursos; já a letra de música é heterotélica, dirige-se à totalidade estrutural a que pertence – a canção –, e por isso não deve pôr-se de pé, mas antes pôr de pé a canção, o que só será feito no jogo das reciprocidades e sobredeterminações de sentido que se dá no interior da estrutura “complexa” da canção (discurso verbal, linguagem musical)”.


Tenho um jeito exagerado, não por sua bondade ou probidades, longe disso ̶ mas sim, no sentido literal do verbo exagerar. A emoção, quando aparece no meu caminho, é para transbordar as margens do meu coração, que é “um pote até aqui de mágoa”. Na superfície do meu empirismo intelectual, pobre, pobre, pobre de marré deci, emoção que vem, veio e pronto. Nem tudo nessa vida precisa de explicação.


Quem sou eu para questionar o meu próprio arrebatamento diante de algo subjetivo, seja ele qual for e de onde for? Em relação às emoções advindas da música, quantos e quantos discos, por exemplo, já comprei, não somente por uma canção dele, apenas, mas por um único fragmento da letra de uma única canção dele? Escrevi um poema, certa ocasião, que dizia que eu me considerava um poeta de ouvido. Isso porque toda a minha formação cultural, até começar a escrever poesia em 1992, foi basicamente musical, com a assessoria luxuosa dos gibis de toda a turma do Maurício e do Walt Disney, discos de histórias infantojuvenis (aqueles bolachões coloridos que os cinquentões irão se lembrar), do jornal impresso diário, do rádio e da TV. Naqueles longínquos anos 1970, meu pai comprava, também, discos em bancas de jornais, que vinham acompanhados de caprichadas encadernações, com fotos e textos riquíssimos sobre a obra em questão. Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Chico Buarque, Lupicínio Rodrigues, Elis Regina, Jair Rodrigues, Tom Jobim, Gilberto Gil, Maria Betânia, Ataulfo Alves, Juca Chaves, Dilermando Reis, Os Originais do Samba, Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, e muitos outros ̶ eram arroz de festa lá em casa. E papai tocava violão de vez em quando. Foi assim que me tornei um poeta: ouvindo música brasileira.


Tudo isso até agora para dizer a vocês, estimadas leitoras e leitores, que sempre quis fazer um comentário sobre o Ira!, aliás, sobre duas canções da banda. Formada em 1981, em São Paulo, sempre achei o Edgar Scandurra um cara foda, e Girassol e Flores em Você, são dele, sem parceria. Dentre as quase infinitas canções de amor que temos por aí, essas duas têm um lugar de destaque na minha coleção. Versos simples, mas que tocam profundamente a minha existência. E essas letras, são poemas? Não sei, mas têm muita poesia, esse algo etéreo, sem mapa, sem massa e sem lógica. Eu vejo flores em você, é um verso muito poderoso, extremamente imagético e que carrega um simbolismo acachapante. É quando o artista, se encontra com a sua própria dicção artística, mesmo que, eventualmente, não saiba disso, por incrível que possa parecer.


Completo agora em dezembro, 31 anos de carreira como poeta. E nunca consegui, nunca mesmo, colocar uma letra sequer numa melodia. Tenho muitos amigos músicos que já tentaram, mas sou um fracasso total nessa parte.


Sou somente um simples e mero poeta. Nada mais do que isso: um poeta de ouvido.


 

A música exerce um papel fundamental na ativação de neurônios especiais,

impulsionando o desenvolvimento da sensibilidade e inteligência humana.




Da mesma forma, a literatura, as artes visuais e outras formas de expressão artística contribuem significativamente para o progresso da humanidade. Elas estimulam a criatividade, promovem reflexões profundas sobre a condição humana e possibilitam a conexão emocional entre as pessoas.



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Mulheres no Samba, vem escutar!




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