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Jorge Cardozo, mais que um poeta, um ativista da poesia



O poeta Jorge Cardozo, é servidor público e gestor cultural. Estudou jornalismo na ECO/UFRJ, Administração de Empresas na Uniabeu e pós-graduação em Produção Cultural pelo IFRJ. Participou ativamente de várias movimentações culturais na Baixada Fluminense. Foi subsecretário de cultura de Nova Iguaçu, onde também dirigiu a Casa de Cultura e presidiu o Conselho Municipal de Cultura.


Na cena literária coordenou a Oficina Poética Palavra Viva. Publicou o livro de poemas De dentro do Tempo Blindado e atuou em espetáculos de leituras poéticas. Desde 2016 coordena o sarau Encontro de Avohais e Outros Seres Poéticos. Publicou pela Editora Patuá os livros: Peixe na Rede e Ave da Periferia. Ambos lançados na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) e em cidades da Baixada Fluminense. Atualmente prepara novos lançamentos do Ave da Periferia, no Rio e em outras cidades.

 

 

CRIATIVOS - Como a poesia entrou na sua vida?

 

JORGE CARDOZO - Eu morava num bairro de Nova Iguaçu chamado Boa Esperança. Na idade escolar minha mãe conseguiu me matricular numa escola pública, o Grupo Escolar Dona Vicentina Goulart. Naquela época, as professoras davam brindes para os alunos que se destacassem nas notas. Alguns eram livros infantis multicoloridos com historinhas contadas em versos. Acho que associei a alegria de receber esses brindes com o prazer de ler as tais narrativas rimadas. Depois fui fazer o ginásio no Monteiro Lobato um colégio enorme. Logo troquei as brincadeiras de pique pelo silêncio da pequena biblioteca. Ali soube da biblioteca do SESC. Fui lá e me associei. Um mundo maravilhoso de livros e leituras se abriu. Na época as professoras de literatura não falavam de Modernismo. Estudávamos Arcadismo, Parnasianismo, Romantismo e Simbolismo. Meus autores favoritos eram Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Basílio da Gama, Olavo Bilac, Raimundo Correia, Álvares de Azevedo, Alphonsus de Guimarães e, acima de todos, Castro Alves. Comecei a escrever versos tentando imitar esses poetas. No Ensino Médio, já no Colégio das Irmãs, na primeira turma a aceitar meninos no tradicional colégio católico de Nova Iguaçu, tudo mudaria. Um intervalo de aula a conversa era sobre literatura. Eu, achando que sabia muito, falei dos meus poetas, e até declamei alguns versos. Na volta às salas de aula, uma garota segurou meu braço e disse: “você precisa conhecer o Modernismo”. Foi um choque e tanto: a liberdade de usar ou não a rima, a linguagem muitas vezes coloquial, o ritmo vertiginoso e quebrado... Manuel Bandeira, Vinícius de Moraes, Carlos Drummond e finalmente João Cabral de Mello Neto, que seria forte influência e fonte de inspiração durante anos. Na sequência frequentei reuniões de jovens interessados em arte. Escolhemos o nome de Grupo Calabouço. Planejamos e realizamos o I Encontro das Artes de Nova Iguaçu. Foi nessa movimentação que conheci os poetas Moduan Matus, Lais Amaral Jr., Luiz Coelho Medina, o editor Adalberto Cantalice, dentre tantos outros. Havia encontrado a minha turma. Depois viriam outras.

 

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CRIATIVOS – O que é a Poesia pbra você?

 

JORGE CARDOZO - A Poesia é a própria essência de todas as formas de arte. Se a capacidade de representar por símbolos, de simbolizar (não apenas coisas concretas e objetos, mas também sentimentos, estados emocionais, ideias, crenças) é o que nos faz humanos, então podemos afirmar que a arte está na raiz da humanidade. No entanto, e não por acaso, podemos também afirmar que a arte é inútil. No sentido de que não tem utilidade prática. Num mundo cada vez mais utilitarista e movido pelo individualismo, a arte perde seu lugar. Acaba sendo substituída pelo mero espetáculo, pelo ilusionismo das formas e fórmulas repetidas à exaustão, pelo entretenimento vazio de conteúdos questionadores. Em tal mundo não há lugar para a Poesia. A obra de arte torna-se mercadoria. Mas contraditoriamente é justo neste mundo que há mais necessidade da arte. Quão assombrosa é a relação da sociedade com a poesia e como isso se correlaciona à chamada loucura (no sentido um pouco desenvolvido por Michel Foucault), ou seja, uma relação ao mesmo tempo de admiração e repulsa. Como se a poesia, por louca, não coubesse no cotidiano. Mas por isso mesmo, por seu caráter libertador, fosse extremamente atraente. Um exemplo dessa dicotomia é o fenômeno dos saraus. Praticamente todo mundo gosta, pelo menos quem tem a chance de conhecer. Os saraus se multiplicam nos centros e nas periferias das cidades das regiões Sudeste, Sul e Nordeste, invadiram as redes sociais e se propagam em praças, bares e escolas, em espaços públicos e privados. No entanto, ninguém admite remunerar os poetas, nem mesmo comprando-lhes os livros. Num país que quase não lê como é o nosso Brasil, o gênero Poesia, vende ainda menos que contos, romances e histórias em quadrinhos. Assim é que poetas são obrigados a sobreviver a partir de outras atividades, talvez mais normais e ainda que menos nobres, possam lhes render alguma remuneração. E se tornam diplomatas, bancários, servidores públicos, jornalistas e professores (o que, nos tempos atuais, não deveria ser nenhum índice de normalidade). Na poesia o significante e o significado não têm uma relação estática, rígida, perene. Ao contrário, deslizam em mil e uma possíveis posições, numa dinâmica similar à questão quântica, onde a partícula pode estar ou não estar. Nada é seguro. Tudo assusta ao senso comum. Tal qual a linguagem da loucura, com sua erupção de símbolos, seus lapsos de lucidez e o seu espelhamento sarcástico.

 

“É uma afronta a poesia / Num mundo que se desmorona.

Já pensou a poesia / na linha de frente na Síria? 

Nos escombros da Palestina, / na favela do Jacarezinho

ou em outra Periferia? (Afronta in Ave da Periferia – Jorge Cardozo, Ed. Patuá,2023/2024).

 

CRIATIVOS – Quais foram suas influências?

 

JORGE CARDOZO - Além dos já citados, há outros autores que influenciaram a minha escrita. Na verdade, a poesia, enquanto gênero literário, envolve troca, seja por leitura, conversa ou crítica. E atualmente também pelas redes sociais. Nelas tenho lido muitas poetas brasileiras. Elas têm um jeito muito especial de tratar as emoções.  Intenso, denso e fluído ao mesmo tempo. Cito de cabeça Elisa Lucinda, Isabela Penov e Patrícia Porto. Mas há muito mais. Destaco que o poeta Marlos Degani teve uma influência muito grande em minha forma de escrever. Até porque houve um tempo em que quase diariamente trocávamos poemas, líamos e criticávamos os escritos um do outro. Além dos mestres, como o já citado João Cabral, Fernando Pessoa, Borges (que constrói toda uma poética em forma de prosa) e Florbela Espanca. Não tenho dúvida que a minha escrita foi influenciada pelos grande letristas da MPB em geral e da Tropicália em particular. Nomes como Caetano, Gil, Torquato e Capinam. Já entre os poetas de perto, aqueles que conheço, convivo de alguma forma e troco, os que mais me identifico são o já citado Marlos Degani, a sensível Sil, o artífice Victor Loureiro, a potente Elizabeth Gomes, a visual Camila Senna (às vezes o poema é uma foto) e o contundente HB. Marcelo Mourão, cientista da palavra, Euclides a Amaral (também letrista) e Aderaldo Luciano (cordelista) são outros três em destaque. E o Cezar Ray que peca em não ter ainda publicado um livro solo.

 

 

CRIATIVOS - Fale dos seus livros e movimentos que participa.

 

JORGE CARDOZO - Dos livros publicados, são três como autor e uma coletânea como organizador. Lancei o De Dentro do Tempo Blindado em 2000 pelo selo Água Grande, com o apoio inestimável do produtor Nelson Freitas. Trata-se de um livro quase profético – mais atual hoje do que quando nasceu. O segundo, Peixe na Rede, foi publicado pela editora Patuá e lançado na FLIP em 2022. Tem a linguagem mais ágil e uma certa pegada das redes sociais sem perder a profundidade. Os poemas e capítulos conversam com algumas fotos PB do Jorge Ferreira, fotógrafo que foi super parceiro neste trabalho. O terceiro é o Ave da Periferia, também editado pela Patuá e que teve pré-lançamento na FLIP no ano passado. É subdividido em plataformas como uma estação de trem onde ecoassem as muitas vozes da periferia. Tem uma capa lindamente trabalhada pela designer Carla Eloisa. A minha foto é uma self na qual a lente dos óculos reflete uma comunidade carioca. Lançamentos previstos para março a maio deste ano. Citando ainda que em 2002 com a parceria do Moduan e da Sil, organizei a coletânea XXI Poetas de Iguassu, que gostaria de reeditar porque está esgotada. Participei do grupo Lúcio Agra e o Buraco Elétrico, no Alojamento da UFRJ. Participei do Coletivo Palavra Viva com Andressa Menezes, André Alasf e Márcio Rufino, na Baixada. Com o poeta Marlos Degani fizemos o Poema de Mesa, no qual mostrávamos diálogos poéticos feitos na base de provocação/réplica e, às vezes, tréplica. Trabalho apresentado no Teatro Sylvio Monteiro em Nova Iguaçu, no Teatro Raul Cortez em Duque de Caxias, no Encontro de Poetas e Afins e no Sarau Um Dedo de Prosa e Uma Pitada de Poesia. O Poema de Mesa está numa fase de hibernação, esperando o momento certo para retornar à cena. 


 

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Ao fornecer um ambiente propício para a produção e disseminação de conteúdo criativo, esse tipo de hub pode atrair investimentos, gerar empregos locais e promover a diversidade cultural.

Exemplos ao redor do mundo incluem o Silicon Valley nos Estados Unidos, conhecido por sua concentração de empresas de tecnologia e inovação, e o Distrito das Artes de Londres, que abriga uma variedade de galerias, estúdios e empresas criativas.



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