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INFERNO


Leo Viana

- O chefe mandou dar potência máxima nas caldeiras!


O burburinho corria solto pelos corredores enquanto a temperatura aumentava. No ambiente fechado e mal iluminado de sempre, o ar irrespirável e o inconfundível cheiro de enxofre pareciam ainda mais acentuados.


Já havia muitas horas que o alto comando se recolhera a uma reunião na sala de crise. As notícias que vinham do exterior - e do interior também - não eram claras, o que aumentava e ansiedade. Com a pandemia, e a consequente morte de muita gente inocente, o movimento andava fraco. Eventualmente algum partidário da necropolítica chegava, mas nenhum personagem muito importante, capaz de alterar qualquer correlação de forças em algum dos núcleos do inferno.


Belzebu então convocara Calígula, Nero, Átila, Hitler, Cabeza de Vaca, Genghis Khan, Stalin e o caçula do grupo, Ratko Mladic, o carniceiro dos Balcãs, pra uma conversa mais séria.

Iniciou lembrando a época da fundação da organização, quando ele, vindo do nada, iniciou um negócio voltado para a maldade absoluta, atendendo a uma demanda da humanidade, que até então se limitava a guerras sem propósito, por conquistas de território ou medo da diferença, do desconhecido.


- Tenho umas coisas pra dizer. Quem me interromper vai passar 100 anos conversando com o Rei Leopoldo da Bélgica, que adora repetir aquelas histórias do Congo. Nem eu aguento aquela mala! Quando chegou queria que o inferno virasse parte das suas colônias...


- Mas o assunto é sério. Vamos lá. Foi preciso muita campanha para espalhar o ódio entre as pessoas, criar manifestações de mal puro, sem ignorância. Para isso contei com a providencial ajuda de muitos religiosos. Eles tinham os dogmas, que são fundamentais nesse negócio. É o mal consciente que me interessa. Reuni vocês aqui pra refletir sobre isso.


- Vocês devem notar que deixei muita gente de fora deste grupinho. Os auxiliares do Adolf, por exemplo. Não valem nada, são maus, mas não os quero pra esse nível de decisão. Franco, Tito e Salazar até pediram pra entrar, mas eu também não os escolhi. E não pensem que há dois romanos aqui por razões morais. Não me interessam as orgias do Calígula, isso aqui é o inferno, não um bordel. As merdas que vocês fizeram entre quatro paredes, por maiores que fossem os aposentos, não me interessam. Tenho pavor desses moralistas. São falsos, estão quase todos aqui, claro, mas não me interessam. Os que me chamam a atenção mesmo são os assassinos frios, genocidas, racistas, negacionistas. Não me venham com artistas, cientistas, esse pessoal sensível! Nunca trouxe nenhum deles pra cá, pra não correr o risco de um contágio. O Joe Stalin, que escreveu poesia e estudou em seminário, só veio porque foi mau pra cacete com seu povo, apesar de provar que era um líder inquestionável. E aqueles médicos alemães que fingiam ciência pra exterminar pessoas têm assento fixo aqui, claro. O departamento de saúde é deles. O Adolf pintava, mas era ruim pra cacete, que eu sei. Nunca seria um artista!


- Eu quis muito trazer aquele italianinho que descreveu o inferno com uma precisão quase cirúrgica. Cheguei a botar um pessoal pra ver se ele não tinha conseguido entrar pra espionar. Dante, o nome dele. Naquela época, alta idade média, a descrição era perfeita. Ainda tínhamos sim uma forte influência externa, preocupações periféricas daquele tipo moral, ala da luxúria, da gula. Isso foi perdendo importância. Verdade que em alguns casos, quando há superposição com grandes males, a gente traz pra cá sim. Mas o desgraçado não entra só por comer demais ou por pensar em sexo o tempo todo. A não ser que seja um abusador cruel ou contribua, com isso, para a ruína de outrem. Eu sou antigo. Ainda falo outrem. Tô nesse negócio há muitos anos. E essa panacéia de modernização ostensiva começou aqui. A ideia é sempre mudar muito pra manter mais ou menos como está. A pré-história do que chamam hoje de obsolescência programada. Vale pra coisas, funções, atividades, departamentos e principalmente pra gente! Mas não consegui trazer o Dante. E eu gostava muito dele. Mas, poeta... É difícil.


- Esse telefone que não pára! Isso! Aumentem a temperatura das caldeiras! Abram o esgoto e redirecionem pro setor dos religiosos. Eu soube de uma insurreição lá. O Jim Jones já vinha outra vez com aquela história de levar um pessoal pra floresta. Na época áurea dele, na Guiana, eu até achei que viria mais gente, mas o desgraçado chegou aqui sozinho. Eu não ia trazer inocentes! Não! Não! Pera aí! O quê?? Na Ala da América Latina? Outra vez o Pinochet? Velho miserável... Bota esse puto de cara pra parede junto com o Pol Pot, que é de esquerda e não tem piedade!! Sinto falta de mais caras de esquerda aqui, mas essa mania de igualdade deles... São uns românticos! Na hora H, eu vou pra disputa e não consigo trazer ninguém. O Stalin e o Pol Pot acabam sendo pau pra toda obra pra dar um corretivo nos piores. O Pinochet já queria dar um golpe na parte que ficou sob o controle provisório dele. Eu não posso virar as costas, Cacete!!! E o amaldiçoado do Ustra, que eu deixei perto, não faz nada. Já tentou torturar o Tito, levou uma porrada na cara e voltou pro seu canto com o rabo entre as pernas. São uns covardes.


- Mas vamos voltar aqui pro assunto da reunião. Como sempre, é hora de mudança aqui no inferno. Eu trouxe vocês pra sala de crise porque me preocupei. Como vocês sabem, eu tô nessa há muito tempo e há momentos em que penso seriamente em passar a chefia pra outro, pra poder aproveitar um pouco mais, acompanhar mais as coisas lá em cima. Desde o início eu tenho gente infiltrada lá nas hostes do outro lado, aprontando o tempo todo, me ajudando a formar quadros. Na verdade nem ajudam muito, porque apostam na inocência de grande parte do povo. E inocentes eu não aceito aqui. Acabo trazendo poucos. Só vem mesmo os que eles formam pra fazer a sua própria sucessão, os que aprendem os macetes todos e apostam na ignorância da turba. Tem uma meia dúzia numas igrejas do Brasil que eu venho acompanhando há tempos, mas eles vão querer me sacanear quando chegarem aqui e eu acabo protelando pra mandar buscar. Estão se espalhando pelo mundo, e eu vou acompanhando. Como são radicalmente de direita, separei um canto pra eles com o pessoal da Klan, que é mau mesmo. Sei que eles vão receber o tratamento merecido. E como não tem dinheiro aqui, ainda vão sofrer mais. Gostam demais de boa vida às custas dos outros.


- Eu sempre caio em divagações... Pois bem. Eu quero discutir a sucessão com vocês. Vejam que não chamei o Mao, apesar de achar que ele é o mais qualificado. É outro de esquerda que entrou, o Grande Timoneiro! Organizou aquela confusão lá na China e eles hoje estão bombando lá em cima. Só veio parar aqui porque era mau pacas, além de Mao. Adoro uma piada ruim. Sei que vocês faziam isso também. O Stalin deixou tudo confuso e agora o Putin quer ser o “melhor sucessor”, só que é capitalista e mafioso. Quando chegar aqui pode ser que eu consiga um canto pra ele. Pequeno e quente, pra contrastar com a Rússia enorme e gelada que ele não cansa de governar. E com uns bichos peçonhentos, uns escorpiões, umas mambas negras, jararacas, cascavéis, najas. Isso porque ele gosta muito de veneno, tá sempre envenenando algum opositor. Joga sujo. Não tem a estatura de um Stalin que, via de regra, jogava o exército em cima. Veio da KGB, gosta de coisa secreta. Fraco.


- Mas, voltando. Há uns anos atrás eu pensei em mudar o perfil aqui embaixo. Estabelecer um critério de sucessão que possibilitasse a alternância de poder. O método está definido. Eu vou copiar aquele sistema eleitoral norte americano, que foi o troço mais diabólico que vi funcionar na superfície. Um troço cheio de folhas com milhares de opções pra complicar a vida de quem vota e possibilitar fraudes. Aqui é o inferno, afinal! Seria ideal. A coordenação vai ficar com os dirigentes do futebol. O setor deles está sem atividade faz tempo, porque não tem dinheiro e nem esporte aqui nas profundezas. Definido o método e a equipe, comecei a pensar em nomes pra uma transição, uma distensão lenta e gradual. Pensei no Mussolini, que tinha carisma, mas é personalista demais. Nem chamei pra essa reunião hoje, porque é chegado numa presepada. O inferno é um lugar sério. Negócio de passeio de lambreta, aqui, desqualifica a liderança. Entre vocês que estão na nossa conversa, o meu preferido era o Genghis Khan. A cavalo, andou mais que o Adolph com seus tanques todos, matou gente à beça e ainda deixou uma descendência danada. Em 2003, na China, de acordo com uma pesquisa, 16 milhões de homens descendiam de você, rapaz!! Parabéns, Khan! O inferno estaria em boas mãos, mas repensei. Essa história da descendência pode criar problemas. Me preocupei com a tua disponibilidade.


- O Cabeza de Vaca gostava de matar índio. Bom currículo. Mas não contribuiu em nada aqui pro estabelecimento. Eu já disse que inocente não entra!! Não considerei na sucessão. Pode ser um bom assistente. Nero e Calígula são parentes e trazem do Império Romano essas rivalidades familiares. Não podemos ter aqui instabilidade. O apreço do Nero por fogo e o fato de ter mandado matar a mãe são pontos muito bons no portfólio dele, enquanto Calígula, apesar de gostar também de uma decapitação, matar por diversão e tal, perde muito tempo com perversão sexual, o que tira a atenção da coisa. Átila só fala húngaro. E é magiar arcaico!! Não dá! Naquele tempo a gente até podia pensar numa coisa assim. Chegaram a me acusar de ter inventado essa língua, mas não tive esse mérito. Aqui no inferno a comunicação é fundamental. Tô com um setor cheio de jornalistas mentirosos, publicitários e outros tipos dedicados ao tema. Átila matou muito, foi um mau garoto, mas falando só húngaro complica demais. Professor aqui quase não tem, pra te ensinar ao menos um inglês. E é o mesmo problema do Mladic. Língua complicada e falada por pouca gente. Foi um trabalho primoroso, o teu. No final do século XX, com a tv à toda, já com a internet dando passos importantes, e promover um massacre daqueles. Me impressionou muito. Mas você só fala sérvio! Aí pega pra mim! Os romanos aí falam latim, o que simplifica a comunicação deles com quase todo mundo. Pro Genghis também não ia ser fácil, mas a China é uma potência, tem falantes de mandarim no mundo todo e ele aprendeu o arcaico. Pra falar o moderno é um pulo.


- Só um pouco... Chegou uma mensagem aqui. Agora é pelo Zap. Sim, sou eu, o tinhoso, o cramulhão. Isso! O Diabo, porra!! O que houve? A negociação avançou?


- Senhores, vamos nos encaminhar pro fim dessa reunião. Mais à frente marcamos uma outra. Já dei o pontapé inicial e agora vocês já sabem que o nosso tema é a sucessão. É importante que o cara seja reaça. Negócio de esquerda aqui não dá pé. E tem que ser minimamente capaz pra lidar com essa turma que quer tomar o poder o tempo todo, mas isso eu ensino. Agora eu preciso subir porque tem um cara que eu tô monitorando há alguns anos. É uma besta quadrada, mas tem dado muito bons resultados e praticamente montou uma sucursal lá em cima, com uma equipe nos moldes da do Adolf, ainda que mais limitada. E mesmo sem guerra, tá matando bem, é um genocida nato!! Antes eu pensei num americano, amigo dele, que apareceu com um discurso que me interessou, a cara muito vermelha, cortando benefícios sociais e tal, mas perdeu pra um velhinho com cara de bonzinho e sumiu do mapa. Qualquer hora aparece aqui. Só percebi que ele era fraco porque não sabia articular. Esse que eu tô olhando, eu até pensei em trazer antes, cheguei a dar a ideia de uma facada, mas desisti. Queria vê-lo em ação num cargo executivo. Agora estou gostando muito. E parece que ele traz bastante gente junto!! Colou com o centrão atual, chamou uns generais... Mantenham as caldeiras na pressão máxima. Se explodir também não tem problema. Ninguém vai morrer de novo. Hehe. Vou ao Brasil checar umas informações que me mandaram, ver uma coisa de milícia que parece bem consistente, defesa de armas, associação com igrejas (algumas ligadas a mim...), negação da ciência, disseminação de doença. Acho que temos um sucessor. E ponham esse pessoal do antigo centrão lá junto com a turma da Coréia do Norte. Bota pra marchar que eles param de conspirar.


- Continuamos a reunião amanhã. De repente já desço com ele!

-Já volto!


Rio, Junho de 2021.


 

Por Dentro da Cedro Rosa / Reunião de Pauta



Esquentando os Tamborins! Vamos escutar e compartilhar.



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