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DESPEDIDA



Velório e sempre coisa muito parecida. Só vira música ou literatura quando coisas muito diferentes acontecem. Mas coisa forte mesmo, tipo família desconhecida, mais de uma amante, cobrança de dívida muito alta do falecido. Bebedeira e falatório, de tão comuns, já nem incomodam. E não incomodaram a despedida do Betinho.


Betinho era mais querido que notícia boa, mais simpático que casaquinho no inverno. Amigo de todo mundo, mobilizou o bairro e mais dois ou três bairros vizinhos quando o infarto fulminante o fez abandonar a vida. Vida que ele, aliás, adorava.


A capela ficou pequena pra multidão de amigos. Sua religião era o quadrinômio samba-botequim-sindicato-partido, em ordem aleatória, variável de acordo com a demanda. Tinha gente de todo lugar, como no Pagode do Vavá, imortalizado pelo Paulinho da Viola. A Jô, esposa querida do Beto, igrejeira militante, reuniu as irmãs de oração, que também adoravam o casal, para colaborar na despedida. Assim, não havia espaço que não estivesse ocupado nas proximidades do evento, fosse com reza, samba, cachaça ou contação de histórias. Os companheiros menos festivos de partido e sindicato, num canto, lamentavam sinceramente a perda sem maiores manifestações, mas entendendo perfeitamente o que se passava, enquanto os do botequim e do samba, que nem eram necessariamente os mesmos, estranhavam aquele pessoal meio carrancudo no outro lado. Mas todo mundo estava triste. Perder o Betinho era perder parte da alegria e da sinceridade necessárias a um mundo menos opressor.


No sindicato tinha feito de tudo nos quase 25 anos em que andou por lá. E sem nunca se afastar do trabalho, o que ele impunha como condição. Não criticava quem dedicava tempo integral ao movimento sindical, mas tinha muita dificuldade em ficar longe dos colegas de trabalho na estiva. Com o porto já muito mecanizado e quase sem receber material a granel, o trabalho braçal tinha sido praticamente extinto. Nada é mais como antes, com aqueles homens fortes cobertos de farinha de trigo ou mesmo poeiras tóxicas de origem desconhecida. Mas restavam o companheirismo e as atividades que pouco se alteraram com o tempo, como a conferência de cargas e a expedição de produtos que chegam e saem.


Os poucos recursos humanos restantes, no entanto, mais preparados, bem formados e organizados que os antigos, também não tinham suas condições de trabalho respeitadas pelos empregadores e nem seu trabalho devidamente valorizado. A forma pode mudar, mas a essência do capitalismo é a mesma, dizia o Betinho sempre que perguntado.


Alguém, no velório, após um engajado discurso de despedida em que louvava as lutas nas quais Betinho se envolvera em defesa dos trabalhadores, e aproveitando um violonista que chorava num canto, cantou comovido dois sambas de muito sucesso e que tangenciam o tema do trabalho: O trem Atrasou (Paquito / Estanislau Silva Pinto / Arthur Villarinho) e O Bonde São Januário (Ataulfo Alves/Wilson Batista). Os mais novos não gostaram muito, estranharam o bonde, a Central que emitia memorandos pra justificar seus atrasos. Estranharam até São Januário, com o Vasco passando pelas dificuldades que anda enfrentando repetidamente. Estimulados pela manifestação, os mais garotos, descontentes, atacaram de Rap da Felicidade, aquele que diz “Eu só quero é ser feliz/andar tranquilamente na favela onde eu nasci...” Não foi unânime.


O Rio de Janeiro é uma cidade dividida, mas o círculo do Betinho abrangia principalmente gente que, como consequência do trabalho um pouco melhor remunerado que a média, em virtude principalmente das lutas nas quais se envolveram por melhoria de condições – e das políticas de emprego e renda, claro - havia abandonado as ocupações subnormais, que é como a prefeitura denomina as favelas. Não por falta de vínculos culturais e afetivos, mas sobretudo pela explosão de violência que ameaça a todos e que é, em grande parte, patrocinada pelas forças de segurança pública, seja pela ação direta ou pelo fornecimento ilegal de armas aos traficantes ou ainda pela organização de milícias destinadas aos mesmos fins que os traficantes. A maioria dos de meia idade não conseguia associar “andar tranquilamente” com “favela” no mesmo verso.


Não foi longe a música, claro. Uma terceira tentativa, na busca por algo próximo da unanimidade, foi tentada. Um irmão do Betinho, ligado às escolas de samba, sensível à cultura das massas, sugeriu o repertório do Zeca Pagodinho. Tudo correu bem até o Vai Vadiar, super sucesso de Monarco e Ratinho, rejeitado pelas irmãs de oração da Jô, que escondiam em si, apesar da sociabilidade, muito do conservadorismo religioso tradicional. Vadiar era um pouco demais pra elas. “Você gosta da orgia”, diz um dos versos. Teve gente ficando ruborizada de vergonha, enquanto a maioria se esbaldava no samba, em homenagem ao morto alegre.


A falta de consenso com a trilha sonora do velório acabou levando grande parte do público para o botequim ao lado, onde sambistas e rappers se embriagaram e choraram juntos, enquanto as irmãs de oração elevavam suas preces ao céu e nem arriscavam cantar canções religiosas, frente à horda de festeiros de outra natureza, todos muito queridos do falecido.


Bolinhos, salgadinhos e conversa rolavam soltos entre os remanescentes na câmara ardente, sempre com loas ao Betinho, alma boa demais, indutor de amizades improváveis, de amores imprevistos, como o do Celso da expedição com a Sabrina da enfermaria, no porto. Ela nunca precisou dos serviços dele e nem ele ficou doente em momento algum, mas o Betinho deu um jeito pra que se encontrassem e ainda foi o padrinho da união, tempos depois.


Quem mais, além dele, conseguiria fazer umbandistas e evangélicos, ambos grupos abundantes na estiva, declararem apoio conjunto à chapa do sindicato, após anos de brigas por uma sala para seus rituais? Os evangélicos, pentecostais que eram, insistiam em não utilizar a mesma sala...


Já se passara a metade do dia. Não havia sinal de que a frequência pudesse diminuir. A despeito de se tratar de um dia útil, ninguém queria deixar a companhia do melhor amigo ali.

Os homens da funerária chegaram por volta das três da tarde. A previsão é que a cremação ocorresse por volta das quatro e meia, já com o lusco-fusco do fim do dia, naquele inverno cinzento e até meio frio pros padrões quase siderúrgicos das temperaturas cariocas. Quem era de chorar, chorava; quem era de rir, ria; quem era de contar histórias, o fazia com riqueza de detalhes e minúcias. Mas havia quem era de fazer escândalo.


Sempre há. E a Gina, cunhada, irmã da Jô, era dessas. Nutriu a vida toda uma paixão escondida pelo Betinho, que nunca deu a ela a menor pelota. Não se sabia se ele aprontava por fora. Se o fazia, fazia da melhor maneira, de modo que não havia quem dele pudesse dizer nada. Nem os amigos próximos, nem nenhum parente, nenhum vizinho, nenhum colega de trabalho ou de farra. Mas o que enfurecia a Gina, mulher bonita e independente, tida como difícil por tantos quantos tentaram conquistá-la, era exatamente a indiferença do cunhado a seus atributos, tantos e tão fartos. Um pouco de conhaque por cima da cerveja que rolou solta no boteco e a Gina veio tirar satisfação com o Betinho, a essa altura já gelado, coberto de flores e exibindo uma coloração levemente esverdeada, típica daqueles que se encontram na mesma condição que ele, embalados pra derradeira viagem.


Pois a Gina já entrou gritando que tinha feito de um tudo pra ser notada pelo “canalha certinho” do cunhado, que preferiu se casar com a irmã insossa!! Ao bradar isso, escancarou ainda a diferença que tinha com a irmã mais velha, também bonita, inteligente e independente, mas menos baladeira e agressiva que a mais nova.



Ouça a música LOUCURA DE AMOR, de Tuninho Galante e Marceu Vieira.



Pegos de surpresa, os presentes se agitaram e logo apareceu uma “turma do deixa disso” para evitar que a viúva e a irmã resolvessem as diferenças ali diante do morto. A Jô fez que nem notou o escândalo feito pela caçula rejeitada e ainda ficou mais feliz ao constatar, em alto e bom som, a fidelidade do marido.


A cunhada revoltada foi contida e calada, mas num descuido dos responsáveis por sua contenção, gritou pra quem quisesse ouvir que tinha apoiado o Bolsonaro, “pra acabar de vez com esses sindicatos, destruir a legislação trabalhista, desmoralizar os trabalhadores e garantir a vida dos ricos, que era quem interessava mesmo”. Detestava esses sindicalistas certinhos da esquerda, como o cunhado que não quis fazê-la feliz.


Nessa hora, conta quem estava lá, finalmente deu-se a unanimidade. E Gina apanhou de crentes, católicos, umbandistas, candomblecistas, rappers, sambistas, sindicalistas. Há quem jure que até o defunto deu uns tapas. Num velório sério, vale quase tudo. Mas mesmo falar besteira tem um certo limite.


Só a Jô e um irmão dele, o mesmo que puxou os sambas do Zeca, acompanharam o corpo até a cremação.

Rio de Janeiro, agosto de 2021.



 

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