DESPEDIDA



Velório e sempre coisa muito parecida. Só vira música ou literatura quando coisas muito diferentes acontecem. Mas coisa forte mesmo, tipo família desconhecida, mais de uma amante, cobrança de dívida muito alta do falecido. Bebedeira e falatório, de tão comuns, já nem incomodam. E não incomodaram a despedida do Betinho.


Betinho era mais querido que notícia boa, mais simpático que casaquinho no inverno. Amigo de todo mundo, mobilizou o bairro e mais dois ou três bairros vizinhos quando o infarto fulminante o fez abandonar a vida. Vida que ele, aliás, adorava.


A capela ficou pequena pra multidão de amigos. Sua religião era o quadrinômio samba-botequim-sindicato-partido, em ordem aleatória, variável de acordo com a demanda. Tinha gente de todo lugar, como no Pagode do Vavá, imortalizado pelo Paulinho da Viola. A Jô, esposa querida do Beto, igrejeira militante, reuniu as irmãs de oração, que também adoravam o casal, para colaborar na despedida. Assim, não havia espaço que não estivesse ocupado nas proximidades do evento, fosse com reza, samba, cachaça ou contação de histórias. Os companheiros menos festivos de partido e sindicato, num canto, lamentavam sinceramente a perda sem maiores manifestações, ma