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Banal




O horror da segunda guerra sempre me assombrou. Sempre que tive oportunidade, fui a locais históricos relacionados, li livros que descreviam ou tentavam explicar o conflito sem precedentes e até aqui - oxalá continuemos assim - sem sucedâneos. Mais de uma vez o mundo esteve às vésperas de uma nova grande encrenca, quase sempre justificada pela irracionalidade da polarização leste-oeste, essa forma de barbárie ressuscitada recentemente no Brasil pelas bestas que ascenderam ao poder em 2018. Por óbvio, provavelmente não vai sair daqui uma guerra de grandes proporções, mas as consequências da confusão podem ser contadas em números elevados de mortos, feridos, desempregados, sem futuro e outras vítimas. A comparação pode ser com a bomba atômica, com a destruição causada pelos nazistas no leste, com os horrores do Pacífico ou até com o terrível prelúdio que foi a Guerra Civil Espanhola.



Música de bar, veja nesta playlist.



Nessas horas, quando reflito sobre o que vem acontecendo, me vem de novo o conceito de banalização do mal, aquele descrito minuciosamente pela Hannah Arendt no livro que escreveu após ter feito a cobertura, pro NY Times, do julgamento do nazista Adolf Eichmann, em 1961, em Jerusalém. Eichmann foi um carrasco nazista, mas Arendt entendia que ele não era necessariamente mal e nem antissemita. Ele apenas cumpria ordens, como quem pega o café ou tira uma cópia a pedido do chefe, pensando no salário no fim do mês e em eventuais promoções.

A definição acabou suscitando muita discussão mundo afora, principalmente da parte de quem achava, não sem lógica, que só isso talvez não justificasse a ascensão de Eichmann ao núcleo do poder nazista. Ele foi o principal responsável pela logística da deportação de judeus para os campos de concentração, um monstro de proporções historicamente imensuráveis. Não se chega a uma posição dessas sem alguma ação deliberada, somente atendendo a solicitações. Ou se chega, sei lá.


O mais triste talvez seja perceber a assertividade do conceito e sua total aplicabilidade no Brasil de hoje.

Não posso afirmar que tenhamos, por exemplo, uma maioria de servidores públicos comprometidos com o atual governo. É verdade que numa primeira observação, me parece que o caso seja exatamente o contrário. Entretanto, muitos são responsáveis, quer queiram quer não queiram, pela aplicação das medidas muitas vezes absurdas implementadas pelo establishment da hora. Se é fato que há diversos deles – eu acho que uma maioria, mas não posso afirmar, já disse – contrários ao que ocorre, muitos já banalizaram o mal que fazem, aplicando, em nome da eficiência, quaisquer ordens superiores, por mais malditas, infelizes, ineficazes e contraproducentes que sejam.



Música para ouvir na praia, na plalist da Spotify.



Verdade que, além de gente do interior da máquina, há uma legião de operadores da máquina de ódio, essa que funciona a todo vapor agora, trazidos das mesmas hostes demoníacas de onde saíram seus mandatários, que se prestam a quaisquer definições da banalização do mal, seja como seguidores convictos dos métodos adotados (ou de quaisquer outros, como bons vassalos), seja como formuladores desses mesmos métodos, num mundo hiperconectado em que quase todo mundo pode, se tiver tempo e verve, arregimentar uns seguidores.


Mas a banalidade tupiniquim vai ainda mais fundo nas nuances.


Talvez mesmo como consequência da hiperconexão, associada à deficiente formação teórica, derivada daquilo que Darcy Ribeiro chama de “um projeto” (a deficiente educação brasileira), aos anos e anos de ditaduras desenvolvimentistas, associadas às mídias pouco formadoras (apesar da razoável qualidade técnica), a diferentes formas de religiosidade dominante e quase sempre aliadas ao regime de plantão, às gritantes diferenças sociais e a mais um monte de problemas que não resolvemos nos últimos quinhentos e poucos anos, o mal se banalizou entre nós não somente a partir dos cumpridores de ordens. O nosso povo passou a sentir essa banalização na pele. E mais, a vivenciá-la e reproduzi-la como regra.


Passamos a ser o povo que não se choca, e acha o mal banal. Achamos banal que se viva dependurado nas encostas sempre prontas a desabar das favelas cariocas ou soteropolitanas ou belorizontinas. Talvez na cabeça da classe média e dos ricos passe de tempos em tempos uma ideia de que dali surgirão vilarejos mediterrâneos no futuro. Não sei. Sei que naquelas vielas, onde o povo aprendeu a se virar, a vida é dura e a morte, o mal, é banal. É banal o tiroteio promovido pelo Estado através de seus servidores que encarnam a banalização do mal de Arendt e através dos meninos e chefes do tráfico que também não veem mal nenhum em portar armas de guerra em bailes e festas da comunidade.


Achamos banal que se viva em palafitas à margem de grandes cidades como Recife, São Luis e Belém, sem esgotos, sem água limpa, com ratos e outros bichos dividindo a casa com a nossa gente.


Achamos banal que o Rio de Janeiro, por exemplo, nossa segunda cidade em população, tenha uma única fonte de água. E cheia dos esgotos que achamos banal não tratar.

"Banalizamos a destruição da Amazônia, dos indígenas, da biodiversidade."


Banalizamos a concentração de renda. Passamos a achar bonito o carro de um milhão passando entre os moradores de rua na Zona Sul do Rio ou entrando nos condomínios de luxo do Morumbi, ao lado do favelão de Paraisópolis. Miseráveis vendo – e por vezes aplaudindo - o que se convencionou chamar de meritocracia.


Achamos banal a morte, seja ela derivada da ação nefasta de polícia ou bandidos, cada vez mais indistintos entre si, ou derivada da inépcia do sistema de saúde.


Banalizamos o analfabetismo, funcional ou efetivo, e o fato de não conhecermos, ao final do ciclo básico de educação regular, um monte de coisas que as crianças da maior parte do mundo conhecem.


Banalizamos a política, instrumento consagrado por quase todo o mundo para a resolução dos problemas de agrupamentos humanos.

Banalizamos o absurdo.


Banalizamo-nos.

Rio de Janeiro, maio de 2022


 

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