Artigo / ANTIGO


Tinha problemas, o cara. O fato de haver nascido às vésperas do AI-5, em um ano tão memorável quanto sombrio, não o ajudava. Com pouco que lhe causasse orgulho em seu tempo, preferia a abstração dos tempos idos, saudades de um passado não vivido, mas sentido. Identificava-se com o não visto, com a cidade já soterrada pelo concreto e pelo asfalto mais modernos; com os bondes que, a essa altura, limitavam-se à clausura carmelita de Santa Teresa, sempre na iminência da extinção, que como dizem, é para sempre.


O passado lhe pesava como se fosse, de fato, seu. Pairavam sobre ele culpas de outros tempos, tão presentes que, por vezes, a sensação de réu o comprimia contra os muros das antigas fortalezas do Leme ou da Urca, ameaçado por portugueses, franceses ou índios, sem distinção. Nesses momentos, deixava-se sofrer. E ao sofrer, transportava-se, sem reagir, a seu próprio tempo, tão ausente.


O Rio de Janeiro o acolhera como uma moderna mãe. As modernas mães, ele acreditava, não mais tratavam tão carinhosamente os filhos. Permitiam a eles o gozo de uma liberdade não escolhida, mas compulsória, obrigatória. Procurava relacionar-se assim com a cidade. Conhecia-lhe os defeitos e as virtudes, o passado e o presente, os becos e vielas, as noites e os dias. E cobrava da cidade o carinho negado pelo comportamento típico da metrópole.



 

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