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Ao Volante



Ainda há quem se surpreenda quando digo que não dirijo carros. É simples assim. Eu nunca quis aprender a dirigir apesar de, como todo moleque do meu tempo, ter passado uma fase bem ligado em carros e motores.


Definitivamente, não foi por falta de capacidade (acho que consigo fazer coisas bem mais complexas que guiar um automóvel...) e nem por algum tipo de dislexia espacial (desafio quase qualquer pessoa a conhecer mais a Cidade do Rio de Janeiro que eu, incluindo aí o sentido das vias, os bairros onde elas passam e até mesmo um ou outro endereço emblemático em grande parte delas. É um orgulho besta que eu tenho. Coisa minha.). Mas o fato é que nunca me interessei. Desde cedo considerei que seria mais um trabalho. E nunca fui um entusiasta do trabalho, confesso. Sempre entendi a necessidade, sabia que precisaria ter um trabalho algum dia, tenho, faço bem (já fiz melhor, mas me respeitam ainda!), levo a sério, mas sigo sem ser um entusiasta. Tivesse tido opção... Considero e respeito os motoristas como profissionais. Eles me levam onde preciso ir na maioria das vezes, num país como o nosso, marcadamente rodoviarista.


Música para ouvir à tarde, na Spotify.


E não foi sem razão que iniciei essa conversa. Não é de hoje que temos um dos piores trânsitos urbanos do mundo. Ruim por ser poluente, sem educação, violento, inimigo do pedestre, do ciclista, dos animais. Com as raras exceções que já vi em Brasília e Goiânia, de gente respeitando as faixas de pedestres onde não havia sinal, no mais das vezes trata-se de uma selva, no pior sentido que já se deu à palavra selva, que aliás, mostra-se em geral muito mais organizada e lógica, a selva, em suas interações, do que a civilização dos motoristas.


Também é óbvio que a maioria dos motoristas talvez não corresponda a esta descrição radical, a esta barbárie sobre rodas que domina nosso tráfego. Uns poucos, estrategicamente distribuídos, já causam um problema de proporções bíblicas. E o fato é que não são poucos.


Falo com relativa propriedade sobre o Rio de Janeiro, metrópole que tem um dos piores sistemas de transporte do mundo para cidades do seu tamanho. Não conheço as grandes cidades da África e da Índia, onde pode ser que haja coisa pior. Talvez haja mesmo, certamente, mas aqui, só no século 21 se chegou a um sistema de transportes coletivos um pouco mais rápido pra Jacarepaguá e Barra e de lá para a Zona Oeste menos glamourosa, de Santa Cruz, Campo Grande e etc., onde moram e trabalham multidões. E o sistema – rodoviário, claro – já explodiu e não funciona mais. Não sem antes implodir o sistema de ônibus anterior. Ou seja, nem um nem outro.



Ouça a música A DANÇA DA PORTA BANDEIRA, de Evandro Lima e Lais Amaral.

E a esta altura do campeonato ainda vivemos impasses envolvendo o transporte de massas por ônibus e por um sistema de trens que vem sendo propositalmente desacreditado desde sempre, tendo chegado agora a seu momento mais triste, quando não se pode sequer contar com ele. O mesmo sistema que já foi uma referência de baixo preço e pontualidade, apesar do renitente mau estado de composições, linhas e estações. Mau estado que é atualmente agravado pelo conjunto violência – miséria – crack – ferros velhos clandestinos, que leva aos sequenciais roubos de cabos aéreos, numa das atividades criminosas mais arriscadas do mundo e adotada como mantra pela concessionária para justificar a lamentável qualidade dos serviços prestados.

De qualquer forma, sigo sem acreditar que me postar atrás de um volante seria solução pra alguma dessas mazelas. Conheci praticamente o Brasil todo e uma boa parte do mundo sem jamais ter que pisar em um acelerador ou trocar uma marcha. E ainda aprendi muito bem os caminhos de maneira geral.


Ultimamente, no entanto, o que vem me inquietando é uma outra idiossincrasia que envolve motoristas, pedestres e veículos. Falei ainda agora sobre a relação dos motoristas da maioria das grandes cidades brasileiras com as faixas de pedestres. Há quase um fetiche de passar antes que o pedestre ponha o pé na faixa. Em alguns casos, mesmo quando há um sinal-farol-semáforo em cima da faixa listrada.


Foi assim que entrei numa viagem alucinógena, que pode ter sido causada pelo café que tomei há pouco, por algum medicamento pra resfriado que não desceu como deveria ou é simplesmente a manifestação de um efeito colateral da vacina da gripe, que ontem adentrou triunfalmente o meu braço direito. Não usei nenhuma droga ilegal. Mas pensei o seguinte:


Nossos carros vêm, praticamente todos, de montadoras baseadas no primeiro mundo ou na China. A experiência de montadoras brasileiras deu água quando a Gurgel sucumbiu, né? Pois bem. Assim, mesmo sendo verdade que há loucos dirigindo no mundo todo e que o trânsito ruim, especialmente pelo excesso de veículos, é um sucesso em cartaz em toda parte, também é verdade que a quase totalidade desses mesmos carros – quando circula em seus países de origem - pára nas faixas de pedestres, anda normalmente dentro dos limites de velocidade impostos para áreas urbanas, respeitas as suas faixas, etc.


Samba de primeira, nesta playlist do Youtube.


Desse modo, pouca coisa se compara ao que se vê aqui, onde sou ameaçado de atropelamento pelo menos duas vezes por dia, mesmo atravessando na faixa com todo o cuidado, por carros semelhantes aos que respeitam pedestres na Itália, na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Coréia do Sul, na China. Partindo dessa loucura é que concluí, alucinadamente, que os carros que rodam no Brasil são muito mais educados, na média, que os brasileiros que os guiam. Na minha viagem psicodélica, eu tirei fora os motoristas, como naquelas equações da escola, onde a gente isolava uma variável. Coisa de louco mesmo. Ou, sei lá, vai ver que pelo fato de muitos dos carros serem montados aqui, alguns já saiam da fábrica com esse mesmo defeito que uns 30% dos brasileiros têm, anomalia tão notável de uns poucos anos pra cá. E cada vez mais.


O que sei é que chega a dar um alívio saber que carro não vota...

Rio de Janeiro, maio de 2022.


 

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