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A Segunda Vinda de Cristo


Eleonora Divivier_foto: Chris Dodds


Aquele ritual de ayahuasca foi o único em que tive a mesma exata visão duas vezes durante a noite. Vi Jesus caminhando sobre as nuvens na minha direção, no tamanho de um pequeno cartão religioso, como se estivesse vindo de uma grande distância. Na minha visão, o brilho de pérola da túnica do Senhor e o contorno dourado do chale sobre seus ombros também evocavam sua imagem nesses cartões. Mas a principio, julguei a visão pequena demais e poderia tê-la esquecido, se ela não tivesse voltado algumas horas depois, como se insistisse que eu a recebesse em si mesma, independentemente de padrões de tamanho. Deveria vê-la na linguagem de ayahuasca, que expressa a verdade da dimensão paradoxal, esse poder que esta além da unilateralidade do julgamento e pode mostrar a imensidão do pequeno.


Com efeito, sentia o Cristo da minha visão bem perto de chegar. Vinha de um passado distante e ao mesmo tempo intrínseco a quem sou, o tempo em que eu era uma criança frequentando o primeiro ano primário de uma rigorosa escola católica para meninas, e admirava o Sagrado Coração que via em estátuas e nos santinhos que minhas colegas inseriam em seus missais. O tamanho reduzido do Senhor e a proximidade que eu o sentia de mim era o renascer da minha ligação com ele tantos anos antes, mas só quando falei do ritual e me ouvi mencionar ter tido a mesma visão de Cristo duas vezes, algo mais se revelou: Eu o tinha visto se aproximar duas vezes; tinha visto a Segunda Vinda. Lembrei-me então de que andava identificando ayahuasca a essa segunda vinda, algum tempo antes daquele ritual.


Para mim, ayahuasca é a Segunda Vinda, mas não como um fato causado cronologicamente a partir da promessa que Jesus fez de voltar há 21 séculos atras. A segunda vinda com que identifico ayahuasca sempre existiu na eternidade de onde fala ayahuasca, e não pretende rejeitar nem o que os indígenas vêm nessa medicina nem o espírito com que o Santo Daime a identifica, pois essa identificação não se pretende exclusiva e não nasce de uma necessidade de doutrinar. Ayahuasca é a segunda vinda para aqueles que compreendem seu chamado, assim como é a voz da floresta e do cosmos. Traz a profundidade da jiboia e a altura do beija-flor, o elemento visceral e o angelical, a morte de quem éramos e nossa ressurreição.


A igreja editou a mensagem de Cristo de acordo com sua conveniência, mas o deboche e decadência do império romano foi a razão principal para a transformação do cristianismo em repressão sexual. Entretanto, o amor desapegado que Cristo pregou tem suas raízes no amor incondicional, na capacidade de auto sacrifício para a invisível divindade, extremo que não deixa lugar para a regulação da sexualidade. Como uma exuberância de amor, dor, e libertação, o poderoso sacrifício de Cristo a Deus é exclusivo. Enquanto cerne da devoção cristã, significa uma conquista de absoluto amor que pode descartar toda a censura convencional e mesquinha das paixões humanas.


Outro ponto que nega não só a regulação como a consequente censura da sexualidade e muitas outras censuras da parte de Jesus é a facilidade de detectar, nos quatro evangelhos tradicionais, a incoerência de apresentar, por um lado, um Cristo extremamente julgador, e por outro, um espírito livre e rebelde, que era tão humano e pronto a perdoar quanto era santo. Tão humano que nos disse para nunca tomar votos, destruindo assim o pensamento conservador que promove o matrimônio como um voto inquebrável. Foi esse Cristo rebelde que infringiu a lei de inatividade no Sabat, e foi além do quarto mandamento ao dizer que não veio para trazer paz mas sim a espada, para causar discórdia entre um homem e seu pai, uma filha e sua mãe.


Quando ele pediu ao Pai, no ápice de sua agonia na cruz, que perdoasse os soldados romanos porque “eles não sabem o que fazem”, Jesus expressou a autoridade última, a conquista da corruptibilidade da carne, vitória sobre a distorção e ascendência da dor final sobre a mente. A significância de seu perdão era, portanto, infinita e além dos dez mandamentos. Não é de se admirar que CS Lewis afirmou ser Jesus alguém cuja presença suspendia todas as regras. Penso que enquanto líder espiritual que pregava contra o julgamento, ele não podia ser o mesmo que invocava a torto e a direita a eterna danação do inferno, como um fundamentalista. Na verdade, a palavra aramaica que foi traduzida para inferno se referia ao desperdício e designava um depósito de lixo fora de Jerusalém. Em seu livro In the Beauty of the Lillies, John Updike interpretou a ameaça de inferno feita por Cristo como a ameaça existencial de jogar a vida no lixo por não se ser autêntico. A falta de verdade interna foi, com efeito, o que indignou Cristo ao acusar hipocrisia na autoridade religiosa mais alta na época, os padres do templo, “brancos por fora, mas como túmulos, cheios de corrupção por dentro”, em suas palavras. Jesus sendo a verdade, a vida e o caminho, significa Jesus enquanto autenticidade, Jesus sendo genuinamente ele mesmo, único, escolhido.


A autenticidade é condição básica e extrema para a verdade, pois não pode haver verdades completas que não comecem de dentro pra fora. A mente objetiva, enquanto busca de verdades puramente externas e desencarnadas, cede lugar `a subjetiva, a racionalidade `a genuinidade, o universal ao individual, e o reino científico ao espiritual. Por ser autêntico, Cristo era a autoridade da liberdade e a novidade eterna do que esta além do julgamento.


O pensamento de CS Lewis a respeito da graça, o amor que de acordo com o cristianismo Deus tem por nós sem nada exigir, justifica o fato de que o amor pregado por Cristo era um amor incondicional. Ayahuasca nos permite um vislumbre do poder reconciliador desse amor ao recuperar a indisponibilidade ao julgamento: O sagrado. O não julgável é o que está sempre nascendo, a revelação eterna. Reflete o mais livre e mais comprometido espírito: aquele que descobriu a vontade de Deus na sua própria vontade, a ascendência da autenticidade sobre a morte e do coração sobre a carne. Tal comunhão com nossa alma se realiza como liberdade pura, que é ao mesmo tempo observância da vontade de Deus em cada um, objetivo de ayahuasca para todos nós.


O coração anti julgador de ayahuasca é metafisico ao mesmo tempo que essencialmente cristão. A exortação de Jesus “Não julgueis para não ser jugado” pode ser interpretada como uma forma de comportamento a ser recompensada no julgamento final. Mas ayahuasca mostra a conexão entre não julgar e não ser julgado como uma sincronia ao invés de uma sequência, e essa sincronia acontece no aspecto metafisico e no pessoal. O primeiro diz respeito `a natureza do julgamento enquanto categorização ou semente do conhecimento, quando o simples ato de definir ou limitar é julgar. Em outras palavras, refere-se `a radicalidade e cristalização das definições do que é percebido. Quando reagimos contra alguma visão assustadora trazida pela medicina, encaixando-a numa definição ou conceito de qualidade rejeitador, tipo “isso é horrível”, oficializamos nosso medo e iniciamos um círculo vicioso de mais imagens escuras e mais medo, um ricochetear do nosso julgamento em nos mesmos, indo contra o fluir de reconciliação do bem e mal no amor redentor de ayahuasca, que mostra beleza no feio, bondade no ruim, e a graça acima de todas as oposições. Na minha experiência as visões escuras quando encaradas sem rejeição, se tornam iluminadas.


A mensagem de ayahuasca é a oferta do lado esquerdo do rosto.

No aspecto pessoal do julgamento, a medicina mostra a conexão imediata entre julgar e ser julgado ao tornar claro estarmos projetando nossa restrição a nós mesmos em quem julgamos. Com ayahuasca, respondemos ao comando cristão de não julgar quando deixamos a medicina nos redimir tanto na luz quanto na sombra.


O olho amante de ayahuasca substitui os dois gumes da espada do julgamento pela unidade redentora da espada da verdade.



A repetição da minha visão do Cristo identifica ayahuasca à Segunda Vinda porque, ajudando-nos a encarar e superar o sofrimento de que tínhamos medo ou ignorávamos, como quando me trouxe de volta a minha primeira infância e o verdadeiro significado de papai para mim, iluminou a dor com o qual me debatia por não saber quem realmente eu perdera quando ele se foi.


Liberando nossa criatividade e jogando luz na nossa escuridão, ayahuasca é Absolvição.

Superando a oposição entre extremos, como quando tornou eternamente presente para mim o passado remoto de quando eu tinha um laço irracional e orgânico com o mundo à minha volta, ayahuasca é Reconciliação.


Exercendo uma generosidade que transcende a razão e revelando o grotesco e o sublime lado a lado, ou estabelecendo no círculo de participantes, a coexistência do elemento visceral na purgação a que dá origem com a transcendência da beleza de suas visões, ayahuasca é Anti discriminação.


Eliminando a cronologia do tempo e o limite entre o possível e o impossível, como quando me mostrou a mim mesma como uma fotografia animada do meu próprio rosto no chão de um recinto religioso em que eu nunca fora em minha vida, mas descobri com detalhes se tratar da cripta da catedral de San Matteo, numa visão que validou um fato crucial de minha vida, ayahuasca é a Verdade.


Recuperando a conectividade entre os seres e tornando a distância física entre eles, ou mesmo a distância das estrelas que podem ver no céu em um prolongamento de sua alma, ayahuasca é Amor.


Recuperando o absoluto de cada ser, que nossa percepção relativizou ao congelar cada um sob conceitos separados e comparáveis que se querem definitivos, ayahuasca é Perdão.

Desvendando para cada um o caminho de seu coração, ayahuasca revela a vontade de Deus.

Recuperando de uma só vez a alma da unidade e a da pluralidade no coração da criação, quando cada participante do ritual encontra seu próprio cerne ao mesmo tempo que identificado `a anulação espiritual de toda separação, ayahuasca é Comunhão.


Provendo renascer na humildade, ayahuasca é Ressurreição.


Sendo um amor que tudo identifica ao mesmo tempo que individualiza, ayahuasca é Devoção.

Como revelação de Perdão e Beleza, ayahuasca é o mais difícil acordar, substituindo controle por entrega, medo por temor, e cegueira por maravilhamento.


 

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