A Caminho dos Blocos



Era carnaval outra vez e ela nem tinha se dado conta. Com a pandemia, o trabalho louco em duas UPA’s e um hospital, além do consultório rachado com uma amiga, tudo se multiplicou por mil. Não sabia se o pior tinha sido o vírus, inclemente, que levou diversos pacientes, por melhor que fossem tratados, ou o negacionismo que a obrigou a atender dezenas de cloroquinados convictos e que nem sempre resistiram para contar.


Mas chegara novamente o carnaval. Ela não era a mais empolgada das foliãs, mas nunca deixava de acompanhar alguns blocos, passar pelo menos uma noite assistindo aos desfiles na Sapucaí e claro, ninguém é de ferro, dar uma paquerada num bloco grande, seja o Simpatia, o Bola Preta, o Boitatá ou o Kizomba, ao menos enquanto o celular não chamasse pra alguma emergência no hospital. Era o que fazia todos os anos desde que concluíra o curso de medicina numa prestigiada universidade paulista e voltara pro Rio. Lá já se iam quinze longos anos. O intervalo da pandemia foi tão intenso profissionalmente que quase passou despercebido o tempo sem carnaval, sem lazer, sem namoro, sem cinema, dormindo mal, de máscara e de branco quase o tempo todo.