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A Caminho dos Blocos



Era carnaval outra vez e ela nem tinha se dado conta. Com a pandemia, o trabalho louco em duas UPA’s e um hospital, além do consultório rachado com uma amiga, tudo se multiplicou por mil. Não sabia se o pior tinha sido o vírus, inclemente, que levou diversos pacientes, por melhor que fossem tratados, ou o negacionismo que a obrigou a atender dezenas de cloroquinados convictos e que nem sempre resistiram para contar.


Mas chegara novamente o carnaval. Ela não era a mais empolgada das foliãs, mas nunca deixava de acompanhar alguns blocos, passar pelo menos uma noite assistindo aos desfiles na Sapucaí e claro, ninguém é de ferro, dar uma paquerada num bloco grande, seja o Simpatia, o Bola Preta, o Boitatá ou o Kizomba, ao menos enquanto o celular não chamasse pra alguma emergência no hospital. Era o que fazia todos os anos desde que concluíra o curso de medicina numa prestigiada universidade paulista e voltara pro Rio. Lá já se iam quinze longos anos. O intervalo da pandemia foi tão intenso profissionalmente que quase passou despercebido o tempo sem carnaval, sem lazer, sem namoro, sem cinema, dormindo mal, de máscara e de branco quase o tempo todo.


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Era carnaval outra vez, depois de tudo. Era a hora de exorcizar os demônios da pandemia, hora de pegar uma praia, encontrar alguém pra falar de amenidades, que tinham praticamente parado de existir nesses dois anos. No desfile das campeãs de 2020, o último suspiro carnavalesco de que se lembrava, caiu uma chuva como nunca tinha tomado na cabeça antes. Viu muitas chuvas fortes na vida, sempre pela janela. Tinha nascido em Petrópolis, frequentava Angra, Parati, morara na Tijuca. Mas nunca tinha sentido, no corpo, a força de um temporal como aquele. Saíra da avenida às cinco da manhã se sentindo como um biscoito Maizena chuchado no café com leite, mole e encharcada.


Ela gostava de carnaval, mas não o suficiente para se submeter a grandes sacrifícios. Aquele último deixara uma impressão meio triste, como se o temporal marcasse o início da pandemia e de um tempo de tristeza. Sentia como uma obrigação de recuperar a alegria perdida. Claro que a responsabilidade profissional ocupava um espaço importante na sua vida, não desgrudava dos dois celulares exclusivos para o trabalho, entretanto aproveitaria este carnaval como não havia feito nas vezes anteriores. A proximidade dos 40 anos, a maturidade profissional e a autonomia pessoal e econômica davam ao mesmo tempo uma grande segurança e um certo sentido de urgência. Não desejava ter filhos, isso nunca lhe passou pela cabeça, mas ter lidado com tantos doentes durante a pandemia aguçou em Mariana o sentido de finitude da vida, a sensação de que a existência era demasiadamente volátil para que vivesse economizando sentimentos.


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Talvez desejasse uma paixão radical, infinita enquanto durasse. Não tinha claro qual seria a melhor possibilidade, mas era jovem e bonita o suficiente para despertar paixões e isso funcionava como bônus e ônus. Adorava ser atraente, jantar sozinha e ser cortejada por olhares indiscretos em restaurantes ou tomando uma cerveja com o cotovelo no balcão de algum botequim. Certas vezes, no entanto, sentia a falta de alguém com quem dividisse uma ou outra angústia. Tinha diferenças grandes com parte das colegas de profissão, mais preocupadas com o glamour do que com os pacientes e suas fragilidades. Muitas daquelas com as quais tinha afinidades viviam os mesmos dilemas. Tinha também bons amigos médicos, homens. Mas sofria com o fato de muitos deles, casados, acabarem em algum momento se insinuando a ela, querendo mais que a amizade sincera e desinteressada.


Entendia, mas era geralmente obrigada a se afastar, ao menos temporariamente, para não macular a amizade. Tinha aprendido a acreditar nas amizades. Vivera muito tempo na universidade dividindo livros, quartos, ideias, material de laboratório e estágios com gente de diversos lugares, origens sociais, crenças. Era muito grata à universidade pública por isso e sabia que se não fosse assim não teria alcançado o que considerava, sem falsa modéstia, o seu lugar no mundo. E foi em meio a essas divagações que entrou no metrô, rumo ao Centro da Cidade e à região da Praça Mauá, onde haveria concentração de blocos. Os blocos nem tinham sido autorizados, mas alguns romperam com o protocolo e se juntaram pra dar corpo a uma manifestação político-cultural. A saia vermelha, curta, com uma estrela bordada em branco na frente, combinava bem com a camiseta branca, justa, que cobria, mostrando, o corpo bem cuidado, mas sem exageros.


Foi também no metrô que o olhar dela encontrou um outro olhar que, entre interessado e sedutor, se fixara em sua figura. Ela era relativamente acostumada com isso. Mas por alguma razão, vira desta vez qualquer coisa diferente. Alguma familiaridade, algum detalhe que nunca percebera nos diversos amores de carnaval que vivera. O olhar triste do pierrô, o bandolim cênico e a roupa completavam a figura interessante e interessada. Só não conseguia trazer à memória a origem da familiaridade que via no folião. Percebeu depois que formava com outros uma pequena ala de pierrôs, todos fortes e aparentemente animados para os blocos, já sob o efeito de algum álcool, possivelmente.


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Ela embarcara na Estação Cantagalo, na Miguel Lemos, finalzinho de Copacabana. O pierrô aparecera em Botafogo. Não que tivesse embarcado ali, mas foi onde ela o havia percebido pela primeira vez. Não trocaram palavra. Os olhares continuavam se cruzando a intervalos regulares, uma sensação boa ia aos poucos se instalando. O carnaval tinha grandes chances de começar bem. Seu restrito círculo de amigos viajara quase integralmente no carnaval fora de época. Ela vivia a iminência do chamado de emergência e não podia se dar a esse luxo. Aproveitava o carnaval com um olho no gato e outro no peixe, como se diz. Checava os telefones o tempo todo e nunca abstraía completamente, apesar do desejo de relaxar. Acabou optando por ir sozinha e seguir um ou outro bloco. Mas isso parecia temporário. Agora mais que nunca. Talvez tivesse companhia.

Quando desembarcaram na Cinelândia, para tomar o VLT rumo à Praça Mauá, um estalo veio à sua mente. Num átimo, lembrou de onde conhecia o pierrô.

Mariana participara de um grupo, na universidade, de defesa dos direitos de estudantes carentes, principalmente cotistas, majoritariamente negros e indígenas ou egressos das escolas da rede pública. Ela vinha de uma família de classe média, que conseguia com alguma dificuldade manter os boletos em dia, mas sem extravagâncias. Nunca fizera grandes viagens em família, o pai era muito ocupado com o mercadinho que manteve por grande parte da vida. Quando ele se desfez do negócio, ela entrou para a universidade e saiu de casa, com a dedicação que lhe era característica. Não passava grandes apertos, mas não esbanjava e levara a vida na universidade de modo tão simples quanto possível, quase franciscano.


Seu grupo tinha ao menos uma oposição ferrenha, de estudantes liberais – e ricos, claro - que achavam que a universidade deveria ser para poucos e não para aqueles miseráveis que não teriam condições de acompanhar o curso. Nunca mais tinha tido notícias do líder deles, Orlando, menino bonito por quem ela, em algum momento, chegou a sentir atração, antes de identificar o fascista que se escondia naquela alma. Quando da eleição do governo de extrema direita, chegou mesmo a procurar o nome da figura entre os colaboradores do governo, mas não encontrou.


Não crê que ele a tenha reconhecido, ela mudou muito. O cabelo, antes liso, tinha belos cachos naturais agora. O rosto estava agora mais corado e cheio, reflexo da volta ao Rio depois de tantos anos em São Paulo estudando.


O fato de ele estar fantasiado a caminho de um bloco de carnaval no Rio poderia significar uma mudança de posicionamento? Talvez sim, mas muito provavelmente não. Ele era do tipo capaz de pensar obscenidades vendo refugiadas de guerra louras.

A verdade é que ela não queria pagar pra ver. A experiência da pandemia ainda era muito presente. A vida é um sopro. Antes arriscar e sentir ares desconhecidos do que respirar maus odores passados.


Tinha todo um carnaval pela frente.

Ou, quem sabe, o telefone a convocaria para alguma emergência.

E os demônios, afinal, deveriam ser exorcizados. Todos eles.


Rio de Janeiro, abril de 2022.


 

Samba! Carnaval!


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