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A alegria pode nocautear a tristeza

Lais Amaral Jr.

Assisti aos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro pela televisão. Me emocionei algumas vezes. Na verdade, muitas vezes. Unidos da Ponte, Unidos de Padre Miguel, nossa! E o Grupo Especial!? Sai debaixo! Se não fosse Morfeu insistir em me tombar em torno das quatro da manhã, juro que assistiria a todas. Perdi a querida Império Serrano, a Beija Flor e a Vila entre as grandes. Quase lamento a cerveja diurna nesses dias de ócio e aniversário de gente próxima. Eu disse, quase. Nada de heresias. Mas as danadas, que desceram bem, ajudaram o Deus do sono na fácil tarefa de me derrubar.


Antes que alguém pense que o efeito das tais geladas, ainda influencia o escriba, um breve aviso aos navegantes: as presentes linhas foram enviadas à Revista Digital Criativos na terça-feira pela manhã. A apuração do desfile estava prevista para o período da tarde desse dia. Portanto, ao escrever eu não sabia qual agremiação levantara o caneco. Foi um desfile épico. As Escolas passaram com seus componentes emocionados, cantando de verdade os sambas, felizes, muitos em lágrimas. Uma emoção contagiante. Se dependesse de mim, haveria um grande e estrondoso empate. Sou portelense, deixo isso bem claro, mas gosto de todas. Algumas com um carinho especial. Apenas com umas poucas, sou indiferente.


Chora Cavaco, a playlist de samba da Spotify.


Voltemos aos sambas enredo deste ano que são maravilhosos. Há muito tempo não me encantava com tantos hinos num mesmo ano. Salgueiro arrepiante, Mangueira louvando ícones sagrados da Escola. A Sapucaí foi lavada por uma enxurrada maravilhosa de enredos falando da gente preta, suas origens, sua saga e de suas crenças de matriz africana. Foi como uma resposta ao prefeito anterior da cidade, aquele fundamentalista que obstruiu incentivos à cultura popular e se mostrou claramente contra os “ímpios”. Se dependesse dele não haveria a maior festa popular do país na sua cidade mais emblemática. Foi também uma resposta ao atual inquilino do Planalto que em 2019 postou o tal golden shower com o objetivo de desqualificar a festa e agradar um segmento da sociedade que o segue, cegamente. Na ocasião, levou uma poderosa invertida do Leandro Vieira, o carnavalesco da Mangueira.


Creio que foi um dia antes dos desfiles, que assisti na TV Brasil247, via YouTube, o programa Estação Sabiá, tocado pela Regina Zappa. Com ela estavam Rita Fernandes, presidente da Sebastiana - a associação independe dos blocos carnavalescos e, Ricardo Costa fundador do Escravos da Mauá, que completa 30 anos em 2023. Programa muito bom. Ali entendi que não haveria o Carnaval em todo o seu esplendor de animação nas ruas da cidade. Um carnaval depois da Quaresma, apontava uma lógica inversa. E acredito que os foliões, mesmo com toda ânsia de brincar impedida por dois anos, não se sentiam totalmente à vontade num Carnaval fora de época. Tiro isso por mim. Sou alucinado pelo Carnaval e até me sinto lesado por dois anos sem a festa. Inimaginável.


Chora Cavaco, a playlist de samba, Playlist do Youtube.


Voltando ao Estação Sabiá, alguém postou uma pergunta sobre se não seria injusto brincar enquanto tanta gente sofre. Há famílias vitimadas pela Covid, pelo desemprego, pela violência, pela fome. Não. O carnaval sempre foi a válvula de escape do povo mais sofrido. E isso desde sempre. São aqueles dias em que a sensação de liberdade nos encharca. Você pode ser um pirata, um palhaço, uma jardineira. É a fantasia da vida perfeita concentrada naqueles três dias. O sofrimento e a injustiça sempre existiram numa sociedade como a nossa, que tem a injustiça no seu DNA. O Carnaval não tem culpa e serve para dar algum sentido à própria vida. Para as pessoas perceberem que felicidade e liberdade podem ser reais, que a vida pode melhor, sim.


Ainda sobre os sambas enredo deste ano, que são fortes, representativos, sensacionais, todos praticamente me emocionaram. Mas um mexeu mais com minha alma lírica, que foi o samba da Viradouro. A letra do samba, original, uma carta do Pierrô Apaixonado para o Carnaval. Datada de 5 de março 1919, considerado o maior Carnaval de todos os tempos no Rio. As emoções também vinham de um represamento por um mal que devastou física e espiritualmente a população, a tal Gripe Espanhola. Que bela sacada desse enredo. Num momento em que as comportas se abrem após dois anos de pandemia, menos devastadora que a ‘Espanhola’, mas tão incômoda e apavorante quanto, foi demais.

Qualquer agremiação pode ou deveria ganhar o Carnaval deste ano. Estamos em paz e de alma lavada. Todos ganhamos.

PS: Carnaval, te amo. Na vida és tudo pra mim. Assinado, Pierrô Apaixonado



“Amor, escrevi esta carta sincera

Virei noites à sua espera

Por te querer, quase enlouqueci

Pintei o rosto de saudade e andei por aí” (Não há tristeza que possa suportar tanta alegria - Ademir Ribeiro / Devid Gonçalves / Fábio Borges / Felipe Filosofo / Lucas Marques / Porkinho)


Nota da Redação:

A Grande Rio ganhou seu primeiro carnaval carioca.

 

Carnaval 2022, a playlist do Youtube.



Carnaval 2022, a playlist do Spotify.


 

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