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ROTINA



A viagem de trem de todos os dias era parte da vida. Acostumado, Wilsinho não ligava muito pra isso.


Despertava sempre antes das cinco da manhã. Fazia isso havia tanto tempo que não imaginava como seria fazer diferente. Um copo d’água, uma passada rápida no banheiro, um café puro, passado às pressas, um beijo em cada um dos dois filhos, um beijo e uma ou outra recomendação à Rosa, mulher da vida do Wilsinho. Depois de dez minutos de caminhada, era entrar na estação e esperar o trem, que o depositaria na Central, em caso de normalidade, quase duas horas depois. Em casos excepcionais, ou nem tanto, a viagem poderia levar muito mais tempo.


O Rio de Janeiro é uma cidade múltipla e desigual. Tem encanto em toda parte, tem uma gente inacreditável, em todos os sentidos possíveis. E tem o desencanto, que é, paradoxalmente, mais amplo e mais concentrado, mais denso. Fica atrás das cortinas da cidade monumento, da cidade que o mundo admira em fotografias, filmes, novelas. É de lá que vem as mãos que constroem, limpam e consertam o cenário. Cosmos, de onde o Wilsinho sai todos os dias, fica bem lá atrás, quase no final do ramal de Santa Cruz, o único que corre o tempo todo dentro dos limites da cidade.



Músicas que contam estórias cariocas... Ouça.



O Wilsinho, do alto de sua experiência, nunca refletiu sobre isso. Trabalhava, desde os 18, na zeladoria de um prédio do Centro. Graças ao tempo de empenho e seriedade no trabalho, os administradores do edifício nunca foram rigorosos com os horários, cotidianamente bagunçados pela imprevisibilidade do sistema de trens.


O emprego regular e longevo fez dele um personagem raro do subúrbio distante. Cada vez menos gente, naquelas bandas, conhecia o emprego fixo, a carteira assinada. Viu com seus próprios olhos a transformação do modelo de emprego. Quando garoto, o trem era principalmente ocupado pelos trabalhadores da construção civil e pelas empregadas domésticas. Um tempo de dificuldades, mas de emprego farto. Hoje, grande parte dos passageiros viaja pra ocupar postos na economia informal. Alguns se acreditam “empreendedores”, mas vendem o almoço para comprar a janta. Não é desprezível a quantidade de pessoas que vende coisas dentro do trem, numa viagem contínua e sem destino objetivo.


Olhando nos olhos dos companheiros de viagem, o Wilsinho vê uma tristeza cada vez maior nos últimos anos. Não pegou os tempos do pai, em que os operários e as empregadas, já majoritários, viajavam jogando baralho em pé, comemorando aniversários e cantando nos vagões. Eventualmente, viajava com os pais até Campo Grande ou Madureira e chupava um picolé do China, mas isso só nos fins de semana, com o trem vazio e sem os festejos, que ele só conhecia de ouvir falar. Quando começou sua própria carreira de trabalhador, o momento já era outro. Aquele início dos anos 2000 trouxe um novo tempo de certa euforia, mas o domínio dos evangélicos acabou com o baralho no trem e a música mudou. Percebeu um certo esvaziamento do transporte. Muita gente comprou carros, montou pequenos negócios, empregou-se perto de casa. Wilsinho, sabemos, não refletia muito, mantinha sua rotina diária. Não era especialmente religioso. Não via vantagem em gastar dinheiro com carro. Também não era de festas, carnaval, essa coisa toda. Morava perto do trem, preferia ter conforto em casa, já que não havia dinheiro suficiente pra escolher muito. Tinha até uma piscininha pras crianças.


Não precisava refletir muito pra notar um entristecimento, um tipo de diminuição naquele clima de euforia que parecia sempre dominante, mesmo sem as festas do passado distante.

As viagens de todos os dias ficaram mais compridas, mesmo durando o mesmo tempo. A vizinhança foi dando sinais de empobrecimento e aumento da violência. Wilsinho manteve o emprego. Ele nunca tinha se importado muito com isso. Ouvia os parentes de longe, que nunca o visitavam, mas ligavam nos aniversários dele, da Rosa e das crianças, recomendarem que saíssem de Cosmos, que fica longe de tudo e sofria com o crescente domínio da milícia, que era o tráfico de drogas piorado, mais cruel e desumano, vindo de fora da localidade. Como eles podiam saber mais do que ele sobre o lugar em que vivia desde sempre? Nascera e crescera por ali, jogando bola nos campinhos e cultivando a timidez que seria sua maior marca pela vida afora. Assim conhecera a Rosa, balconista de um armarinho em frente à estação. Amor rápido e certeiro. Em pouco tempo, logo depois do fim do ensino médio, já estavam felizes para sempre. Vieram o emprego do Wilsinho e a casinha feita em mutirão com os vizinhos, todos amigos dos pais deles, no terreninho ganho de presente. As crianças demoraram a chegar. Viviam ali em sua ilha de tranquilidade, longe da cidade monumento, mas perto das referências primordiais, dos vizinhos de sempre, dos parentes, do trem.


Wilsinho não se importava muito com isso, mas os filhos cresceram. E no final do ensino médio, quiseram ampliar os horizontes. Nunca haviam saído das proximidades. Nunca tinham visto de perto a cidade monumento. Nunca tinham ido além de Madureira, que era até onde o Wilsinho os levava, como seus pais tinham feito com ele no passado. Bons alunos, conheciam o mundo teoricamente pelas aulas de geografia. Viajavam pela internet, até se comunicavam com gente de longe, mas de verdade mesmo, eram circunscritos à Zona Oeste. Nunca tinham ido à praia, sempre desaconselhados por Wilsinho, que não ligava muito pra isso. Rosa não tinha opinião a respeito. Como Wilsinho, ela também não se preocupava muito com isso.


Inscreveram-se no ENEM, os meninos. Tinham um ano de diferença, mas como Wilsinho não se preocupava muito com isso, matriculou os meninos na escola ao mesmo tempo, quando o segundo chegou à idade.



Mantra-samba, ouça no Youtube.



Aprovados, os meninos começaram juntos o curso na UERJ, ao alcance do trem, tão familiar. E descobriram a cidade monumento. Não raro, os dias de aula eram entremeados por tardes na praia, nas bibliotecas do Centro, nos museus, nos parques. Em tudo aquilo que falta no subúrbio distante. Bons alunos e vistos com curiosidade por serem irmãos, estagiaram juntos e, não fosse a pandemia, teriam tido uma monumental festa de formatura.


Engenheiros com escritório conjunto, raramente vão a Cosmos, onde os pais ainda vivem. Visitam sim, mas pouco.

Rosa ainda visitou uma vez o apartamento da Tijuca, alugado ainda no tempo das bolsas de estudo, mas que compraram e onde vivem. Achou tudo muito diferente, muito movimento de carros, prédios altos, muita gente nas ruas. Wilsinho não foi. Nunca ligou muito pra isso.

Eduardo, o mais novo, avisou que vai se casar. Silvio, o mais velho, não tem projeto pessoal pra logo. Foca mais no profissional, gerencia o escritório.


Wilsinho, quase sessentão, planeja se aposentar. Não vai sair de Cosmos, mas ainda desce diariamente no trem até a Central e vê a história passar diante dos seus olhos sem se dar conta. Nunca refletiu a respeito.


O Rio de Janeiro é uma cidade múltipla.

E nem tudo acontece à frente das cortinas.


Rio de Janeiro, janeiro de 2022.

 

Ouca.


Evandro Lima e Sergio Fonseca - Motim ( O verso que Nunca fiz)


Cantoras Maravilhosas.



 

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