ROTINA



A viagem de trem de todos os dias era parte da vida. Acostumado, Wilsinho não ligava muito pra isso.


Despertava sempre antes das cinco da manhã. Fazia isso havia tanto tempo que não imaginava como seria fazer diferente. Um copo d’água, uma passada rápida no banheiro, um café puro, passado às pressas, um beijo em cada um dos dois filhos, um beijo e uma ou outra recomendação à Rosa, mulher da vida do Wilsinho. Depois de dez minutos de caminhada, era entrar na estação e esperar o trem, que o depositaria na Central, em caso de normalidade, quase duas horas depois. Em casos excepcionais, ou nem tanto, a viagem poderia levar muito mais tempo.


O Rio de Janeiro é uma cidade múltipla e desigual. Tem encanto em toda parte, tem uma gente inacreditável, em todos os sentidos possíveis. E tem o desencanto, que é, paradoxalmente, mais amplo e mais concentrado, mais denso. Fica atrás das cortinas da cidade monumento, da cidade que o mundo admira em fotografias, filmes, novelas. É de lá que vem as mãos que constroem, limpam e consertam o cenário. Cosmos, de onde o Wilsinho sai todos os dias, fica bem lá atrás, quase no final do ramal de Santa Cruz, o único que corre o tempo todo dentro dos limites da cidade.