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O Barão, sempre atual


Tuninho Galante, Cid Benjamin e Gisa Nogueira, na Cedro Rosa


As Forças Armadas estão preocupadas com a deterioração de sua imagem, devido à identificação com o governo Bolsonaro. O desconforto se deveria especialmente devido a charges e piadas, relacionando-as com corrupção.


Pesquisa recente da Datafolha mostra que 54% das pessoas são contrárias à ocupação de cargos civis por militares. Certamente as trapalhadas do general Eduardo Pazuello na Saúde e a bandalheira na compra de vacinas, que vieram à tona na CPI da Pandemia, contribuíram para tal.


Vantagens materiais de todo tipo - além de identidades no plano ideológico – levaram os militares a mergulharem de cabeça no governo Bolsonaro. Só que isso os deixou na mira das gozações.


O Brasil tem tradição de humor na crítica política. Ela vem do Império, quando dom Pedro II era um alvo habitual. Nossa maior figura nesse campo foi Apparício Torelly (1895-1971), o Barão de Itararé. Seu pseudônimo já era um deboche. Na Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder, era esperado um tremendo confronto em Itararé – na divisa entre o Paraná e São Paulo. Mas entrou na história como o conflito em que não foi disparado um só tiro. Torelly apresentou-se, então, ao país como o herói da batalha que não ocorreu.


Certa vez seu jornal, “A Manha”, foi invadido por oficiais da Marinha que o espancaram, em represália à publicação de fascículos sobre a Revolta da Chibata. O Barão não se deixou intimidar. Afixou na porta da redação o cartaz: “Entre sem bater”.


Acusado de ligações com o Partido Comunista, Torelly foi preso na ditadura do Estado Novo. Ao chegar ao cárcere da Ilha Grande, recebeu um questionário que deveria preencher. Como seria de se esperar, as perguntas eram idiotas. Uma delas: “Tem vícios secretos?” O Barão não perdoou: “São secretos”, respondeu.


Ele logo se tornou uma figura popular. Em 1947, candidato a vereador no Rio de Janeiro, foi eleito. Seu lema era “Mais água e mais leite. Mas menos água no leite”.


Na ditadura militar, nossa tradição de humor político se manteve. Sérgio Porto, que assinava coluna na “Última Hora” com o nome de Stanislaw Ponte Preta, foi uma pedra no sapato dos donos do poder. Criou o Febeapá – “o festival de besteiras que assola o país” – para comentar as asneiras diárias.


Pouco depois foi criado por um grupo de humoristas o semanário “Pasquim”, herdeiro do Barão e de Stanislaw. Submetido à censura de forma intermitente, criou um aviso, publicado na primeira página: “Se este selo estiver aqui, o Pasquim não está sendo censurado”.


Quando voltava a censura, o selo desaparecia, claro.



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Agora, as estultices do presidente genocida e seus amigos fardados e milicianos fizeram o humor político reaparecer em grande estilo. E com um elemento adicional: a internet e as redes sociais, antes inexistentes, lhe oferecem novos espaços de divulgação.

Para Bolsonaro, reagir à gozação com violência implicaria caminhar para a ditadura. Embora esta seja o regime dos sonhos do capitão, no momento não há condições para implantá-la. O que ele faz, então, é vez por outra processar um humorista. Mas é pior: só aumenta o ridículo.


Assim, mesmo que o Exército esteja preocupado com o desgaste, não há saída enquanto continuar no colo de Bolsonaro, pois o capitão não vai mudar. Afinal, como dizia o Barão de Itararé, “de onde menos se espera é que não sai nada mesmo”.


Cid Benjamin, jornalista e escritor.


 

O que rola na internet?


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