Vida de Cão

Adalgisa Campos da Silva, para Criativos - CR Zine.


 

Minha genealogia é meio complicada. Minha mãe é filha da filha biológica da minha mãe...


Para facilitar, vou chamar minha mãe de Dona, porque ela acha que é minha dona, mas eu é que sou dono dela. Antes de mim, Dona teve o Zeus por doze anos. Tem gente que se refere a ele como sendo meu pai, meio que como um pai espiritual.

Pelo que sei, Zeus era um ser de luz que conviveu com Dona, transformando-a numa pessoa melhor. Assim, sou sempre grato a ele, que morreu nos braços dela, depois de um período intenso, mas curto, de sofrimento. No auge do luto, com medo de outros desgostos, ela tomou a decisão de não mais criar pessoas da minha espécie.

Só que, passados nove meses, a filha de Dona, que chamarei de Doninha, promoveu o cruzamento de sua filha Neve, minha mãe biológica, com um pai que não cheguei a conhecer. A união foi bem sucedida, e comecei a ser gestado junto com meus dois irmãos. Nessa altura, com o coração começando a cicatrizar, Dona desenvolveu o projeto de ficar com um de nós da ninhada e se preparou para me receber. Entre os preparativos, ela precisou convencer o seu namorado Maneco a me aceitar.


Maneco, que cantava vitória por não mais ter de compartilhar o quarto com seres de quatro patas, levou um baque ao saber da mudança de atitude de Dona, sem entender o que a causara. Esperta, ela usou de psicologia para predispô-lo favoravelmente em relação a mim, incumbindo-o de escolher o meu nome. Com tal responsabilidade, ele se sentiu prestigiado. Leitor das histórias do Tintin, chamou-me de Milou e, aos pouquinhos, foi se afeiçoando à minha pessoa.

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