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Cantora da Noite.

Paulo Castro, para CRIATIVOS CR Zine.



Morava num edifício de má fama, com 40 apartamentos conjugados por andar. Famílias, prostitutas, gigolôs, funcionários públicos, camelôs de beira de calçada, estudantes e outros desfilavam diariamente, de manhã à noite, pelos corredores dos dez andares, buscando uma vaga nos dois sempre lotados elevadores do prédio.


Discussão entre vizinhos ocorriam, mas nada muito importante: som alto da televisão, latido de cachorro, briga de casal... O síndico, advogado de porta de xadrez, tinha lábia para contornar as diferenças e apaziguar os ânimos. Por vezes, a polícia invadia o prédio, quebrando a tranquilidade, para estourar bingos clandestinos. No mais, cada um cuidava de si.


Cantora da noite, fazia algumas entradas de meia-hora em algumas boates de segunda categoria do Lido e adjacências. A primeira, uma hora da madrugada, quando a bebida já tinha despertado nos frequentadores uma paixão incontrolável pela acompanhante eventual, e a última às quatro da manhã, quando os garçons empilhavam as cadeiras e sinalizavam que o casal deveria procurar o caminho do motel.


Abria com “A noite do meu bem” e fechava com “Ninguém me ama”. A fossa estava na moda, era bonito morrer de amor, e o repertório vendia muitas garrafas de uísque falsificado. A voz já não mantinha os agudos, e os graves às vezes falhavam. Ninguém reclamava, pois ainda tinha uma estampa razoável para os cinquenta e tantos anos e uma interpretação melodramática que condizia com o repertório. Às vezes, durante uma canção, uma lágrima verdadeira rolava por seu rosto denunciando uma paixão inacabada: Osório, leão de chácara de uma das boates. Não deu certo. Ela queria mais do que ele podia dar: largar um casamento de mais de quarenta anos. Terminou a relação preferindo sofrer nas canções a morrer no dia a dia.


O cachê, pequeno, ajudava no sustento. Não era o seu único provento: enfermeira aposentada, recebia um dinheirinho do INSS, esse, sim, garantia o aluguel, a alimentação e as vestimentas. O filho, militar do exército, também ajudava. Tinha orgulho da mãe, que batalhou muito para lhe dar educação e possibilitar seu ingresso nas forças armadas. Chegava junto nas horas difíceis. Não repetia roupa. Usando criatividade, misturava o amarelo de ontem com o verde de hoje e este com o azul de amanhã. Maquiagem um pouco pesada para esconder as rugas que a idade e, principalmente, as decepções amorosas lhe deixaram.


Hoje, indo para o trabalho, veio caminhando pelo calçadão da Avenida Atlântica para variar o caminho. Observou a lua. Cheia, enorme, iluminando casais de namorados, que, na areia, trocavam beijos, abraços e, com certeza, juras de amor eterno até quando. Deixou-se levar pelas lembranças e viu-se também sentada na areia, ouvindo as mesmas juras de Jurandir, vendedor de carros, Amâncio, guarda-vidas, Dinho, comerciário e Leo, vagabundo de beira de praia, vivendo às custas da mãe.


Fez força para conter as lágrimas. Pensou no ex-marido, pai do seu filho. Ele, sim, agora reconhecia, a amava verdadeiramente. No início, aceitou a sua vida noturna, acompanhava, mas, aos poucos, foi ficando incomodado e sentindo ciúmes dela. Homem de bem, preferiu se afastar e se tornar amigo. Um infarto o levou. Dedicou-lhe uma canção no show da madrugada, mas não chorou.


Chegando à primeira boate, tomou um uísque duplo e subiu ao palco. Interpretou o repertório com uma emoção jamais vista. Quando, porém, para encerrar, começou a cantar ”Ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama, de meu amor”, vieram à tona os desencontros amorosos de toda uma vida, não conseguiu se segurar e chorou as lágrimas guardadas há muito tampo.


Foi aplaudida de pé, respeitosa e compreensivamente, pelos poucos casais presentes na casa. As mulheres, como se vendo no espelho, choraram também.


 


A partir de R$ 25.


 

Paulo Castro (Paulinho do Cavaco) é compositor e professor de lingua portuguesa. Participa de várias rodas de samba no Rio de Janeiro (Bip Bip entre elas).

Suas músicas ja foram gravadas por nomes como Nélson Sargento. Élton Medeiros, Áurea Está preparando um livro de contos, poemas e letras de músicas. O conto Cantora da Noite faz parte do livro.

As músicas de Paulinho do Cavaco são representadas/editadas pela Cedro Rosa.


Escute algumas gravações aqui.


Reunião de Condominio (Gravada no CD do Bip Bip)


Saudade dos Meus Botequins / Paulinho do Cavaco e Luis Pimentel


 

Criativos! é uma revista digital de Arte, Cultura e Economia Criativa e conta com a colaboração de centenas de artistas, criadores, jornalistas e pensadores da realidade brasileira.

Editado pela Cedro Rosa.


 

A Cedro Rosa produtora e distribuidora de conteúdos, com sedes no Rio de Janeiro, New York e Tokyo.


Sua plataforma digital funciona em 10 idiomas no mundo inteiro e conta com mais de 3 000 mil certificadas, prontas para serem licenciadas para sincronizações diversas em filmes, novelas, audiovisuais, games e publicidades.



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