Literatura: BIBA, de Hélio Paulo Ferraz



Hélio Paulo Ferraz
Hélio Paulo Ferraz

“Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali, e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão... O que pensar?”.

(Coleridge)


Quarta-Feira – 09,00 pm – RJ

Helena contou que ficara, totalmente, surpreendida quando seus olhares se cruzaram! Biba não permitiu mais que ela desviasse o foco de sua visão de dentro de seus olhos claros cor de mel, vivazes, plenos de sagacidade, que focalizavam os seus, nesse instante, pupila com pupila. Ela inicialmente vacilara, mas acabou permitindo que seu olhar se mantivesse fixo nos dela, até se dar conta disso e corar, o que aguçou ainda mais seu desejo, embora contido e tímido, pois impregnado de tabus, que sempre respeitara. Tentou ainda não admitir o súbito e suave calafrio que lhe percorreu o abdômen até que, sem perceber, esbarrou a ponta de seus seios firmes, bem conformados, nos de Biba, delicados em forma de pêssego, sob um vestido de seda leve, bem verão, com fundo branco e estampado em florais, quase uma segunda pele. Este contato, quase em câmera lenta, reascendeu aquelas íntimas e secretas fantasias, na apertada passagem entre a pia do toalete e o espelho ao fundo de onde podia vislumbrar com desejo, por trás, o decote mostrando a ousada sensualidade dos ombros e costas até a cintura da jovem que começava a segurar delicadamente a parte superior de seus ombros, e depois tocou levemente os lábios nos seus, até Helena se contrair, num gesto rápido, diante da iminente entrega àquela transgressão que a provocava, mas que ela não admitia mesmo no plano da fantasia, abriu a porta e saiu bruscamente, com o batimento cardíaco a 200 por minuto.

Quando retornou ao living, Biba - uma jovem, saindo dos vinte anos, cabelos castanho claro, quase loura, pele muito branca, não pálida, densa. Nariz afilado, lábios delicados e bem definidos - circulava descontraída, como se nada houvesse se passado. Aproximou-se novamente de Helena, que na varanda tentava se recompor ao meu lado, que a acariciava, fumando um back e ouvindo John Coltrane ao fundo. Ofereci um paf a Biba, quando esta se aproximou falando alegremente, o que me despertou pensamentos que me acompanhavam de há muito. Enquanto um de meus olhos mirava a generosa bunda de Helena, o outro percebia o decote de Biba, que sabia provocar ambos os sexos...Ah,... quem sabe esta noite..., pensei comigo mesmo e disse: a beleza, o colorido e o movimento de vocês são uma cenografia perfeita para esse “Cool Jazz”.

– Nosso quarto na mesma madrugada.

Helena, dormiu logo. Peguei algo para ler, da obra completa de Borges. Detive-me numa citação de Coleridge, levantei-me pensativo e fui até a janela observar a noite tropical derramando-se sobre a praia de Ipanema, deitando nas águas o luar de abril refletido em cor de prata até quase o horizonte, enquanto a areia iluminada realçava o contraste com o céu em azul-marinho até encontrar-se com a Pedra da Gávea. Contagiei-me com essa beleza noturna e tranquilizadora. Respirei fundo, a brisa amena do mar e descontraí ainda mais meu estado de espírito, antes de voltar a deitar-me. Depois, adormeci.

... Estou no paraíso, reconheço nosso jardim tropical, suas flores, seus perfumes, os pássaros. Como numa composição em forma sonata, tudo evoca um mesmo tema: Helena. Sob o céu claro e o sol ameno, surge Beatriz nua, linda. Ouço ao fundo os acordes de uma ópera de Wagner.

Depois, em meio a lençóis e travesseiros de cetim vermelho brilhante, sobre o gramado vejo um envelope branco e uma flor.

Acordei com os beijos de Helena ajoelhada sobre minha virilidade e ancas enquanto murmurava ao meu ouvido: “tesudinho, ciumento, taradinho, não para agora não, mais... mais, vai, hái, huh, vou gozar, vem Biba, gostosa se esfrega comigo.... Há... Goza também, lindo, goza safado, acorda e goza, já amanheceu”.

Sexta-feira, alguma hora da noite, em nossa sala íntima