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Fui um tremendo predador!

Roberto Menescal, para CR Zine.



Dois anos antes de pegar no violão pela primeira vez, aos quinze anos de idade, ganhei um par de nadadeiras, uma máscara de mergulho e um respirador e, como sempre, passava minhas férias em Vitoria, lugar onde nasci e levei comigo esses presentes.

La eu ficava na casa da minha tia, em frente à praia. Fiz meus primeiros mergulhos neste lugar onde havia lajes de pedra no fundo e onde eu me deparei com centenas de lagostas. Peguei logo algumas e as levei para minha tia, que fez uma maravilhosa muqueca.

Meu tio vendo isso e ouvindo minhas estórias sobre os peixes que vi nesses mergulhos, me levou à cidade onde havia uma loja de material de pesca e comprou uma arma de pesca submarina, naturalmente me agradando e pensando na possibilidade que eu trouxesse alguns peixes para casa.

Foi uma loucura, pois aquele lugar era totalmente virgem, com uma quantidade incrível de peixes. Me apaixonei pelo mergulho e pela caça submarina. Comecei ali nas férias minha carreira de “predador submarino”.

Dois anos mais tarde, ainda nas férias de Vitória, conheci dois rapazes de Niterói que partiram para lá atrás de belas praias e belas garotas. Eles tocavam violão e fiquei encantado com esse instrumento que passou a ser parte de minha vida.

Essas duas paixões eram muito fortes e iguais. Um ano mais tarde, eu já estava tocando profissionalmente, acompanhando diversas cantoras em shows pelo Brasil inteiro, mas sempre levando meu material de mergulho nas capitais praianas onde fazíamos shows.

Quantas vezes não aceitei shows por causa das pescarias! Eu justificava os peixes arpoados dizendo que era pra comer... Na verdade eu queria tirar fotos dos grandes peixes pescados, às vezes meros com 200 kg, fotos que seriam publicadas em revistas especializadas brasileiras e estrangeiras ou mesmo em uma coluna semanal do Jornal do Brasil. Eu me sentia um verdadeiro herói.

Para vocês verem a que ponto a coisa chegou, certa vez uma pessoa do Itamaraty me telefonou convidando para um grande show no Carnegie Hall, em Nova York, mas quando ele me disse a data de novembro de 1962, eu lhe respondi que não poderia aceitar o convite, pois tinha uma pescaria marcada com uns amigos em Cabo Frio. No dia seguinte de minha recusa, Tom Jobim me telefonou e disse: Menescal, você está completamente louco, nós estaremos representando o Brasil neste famoso teatro de Nova York. Você tem que ir!

Claro que meu mestre maior falando isso, eu teria mesmo que ir. Quase que perdi este e mais dois concerto que fizemos na mesma viagem e que foi a porta aberta para nossa música no exterior, tudo por causa da pescaria de mergulho. Muito da minha vida profissional foi prejudicada por causa dos peixes.

Poucos anos depois cheguei em casa com um peixe muito grande e toquei a campainha para que quem abrisse a porta levasse um susto com o peixe que eu tinha fisgado. Acontece que quem falou do lado de dentro da casa foi minha filha Adriana, que tinha 4 anos de idade, perguntando - quem é? Respondi, sou eu, filhota, pode abrir, e quando ele me viu levantando ao ombro aquele peixe, ela exclamou: pai, você matou esse peixe! Eu disse: é pra gente comer. E ela: pai, nós vamos comer um peixe desse tamanho? Você matou o peixe!

Eu fui me desmontando, colocando o peixe no chão, vendo ela partir para dentro, chorando e gritando: mãe, papai matou um peixe!

Ali eu tive, pela primeira vez, a noção do que eu estava fazendo durante todos esses anos. Então mudei minha cabeça e dei uma guinada total, me dedicando mais à minha profissão e a minha nova e duradoura paixão: as minhas bromélias, Graças a Deus.

Continuo pagando minha grande dívida com a natureza que tanto predei durante anos e sou hoje um grande batalhador pela luta na proteção das matas, dos mares e dos animais.

Quantas oportunidades perdi na minha profissão por nunca ter aceitado passar um tempo fora do Brasil, como todos os meus companheiros de música fizeram e se deram muito bom.

Eu fui realmente um grande predador.


 

Roberto Menescal, 83 anos, é músico, compositor, produtor e um dos maiores nomes da música brasileira dos últimos 60 anos. Difícil encontrar um grande nome da musica brasileira que não tenha trabalhado com "Menesca", como é carinhosamente chamado no meio.


É venerado pela classe musical, nao apenas por seu imenso talento como por sua personalidade.


Um dos fundadores da Bossa Nova, como descrito no artigo, participou do fantástico show do Carnegie Hall de 1962, ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e outros artistas. Tem diversos sucessos internacionais, como O Barquinho - parceria com Ronaldo Bôscoli.


Atualmente dedica-se a shows, sua gravadora Albatroz , à defesa dos direitos autorais e às bromélias.


 

A Cedro Rosa, através de seu diretor, Tuninho Galante, homenageou Roberto Menescal com uma musica chamada "Jardim do Menescal", recentemente lançada nas plataformas digitais.



Escute nas principais lojas de streaming musical.




 

Nota do Editor:

Um pequeno exemplo da personalidade de Roberto Menescal, que encanta a todos no meio.


Quando lancei a musica "Jardim do Menescal" foi um "estourinho", na Spotify, eram mais de um mil streamings por dia. Liguei para o "Menesca" informando nossa "proesinha" (os numeros de streaming sao enormes, mas para hits internacionais ou musica sertaneja).


Dai ele me responde de bate-pronto:

- Que legal, Toninho (ele me chama assim e adoro), vou ficar famoso agora...


Tuninho Galante.


 

A Cedro Rosa é uma plataforma digital brasileira com escritórios fisicos em NYC, nos Estados Unidos e Tokyo, no Japão, que une, em um único ambiente, criadores musicais e a industria da midia, entretenimento, games e tecnologia para contratos de licenciamento musical.

Compositores, bandas e artistas podem registrar suas musicas e fazer contratos de distribuição e licenciamento e empresas da midia como TVs, Radios, produtoras de cinema e conteudo em geral podem licenciar essas obras devidamente certificadas diretamente no site da Cedro Rosa.

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