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Benki


Benki_photo- Chris Dodd


Sempre vou lembrar a primeira vez em que o vi. Foi ele que inspirou a música Txai, de Milton Nascimento.


Eu e meu irmão Edgar o esperávamos no aeroporto, e o atraso de seu avião me deu tempo pra relembrar seu rosto, cuja expressão, nas fotos online que eu já tinha visto, dele revelava a intensidade de sua vida interior. Naturalmente, viria vestido como um de nós; era preciso abstrair seus traços da pintura indígena de seu rosto nas fotografias que vi dele, sem deixar de observar o irritante abre e fecha do portão automático de uma das salas de chegadas aéreas do Santos Dumont para poder reconhecê-lo tão logo aparecesse.


O abre e fecha se repetia frenético, mas as pessoas que chegavam não tinham nada a ver com Benki. Me aproximando do portão, tentei localizá-lo do outro lado durante os segundos em que as portas se abriam para cuspir alguém pra fora daquele espaço de ansiedade, onde os passageiros que ainda estavam despojados de sua bagagem podiam ser vistos desamparados e anônimos `a beira de uma esteira, como que roubados de sua identidade.


Edgar decidiu ir vigiar a outra saída quase que na extremidade oposta do aeroporto, mas dali a alguns momentos, através de uma brecha entre um corpulento passageiro e a borda do portão que o expelia, avistei um rapaz no outro lado, vestido de camiseta e jeans como um de nós, mas inteiramente diferente de todos. Esbelto e alto, ele me apareceu etéreo como a essência de um perfume se misturando com o ar. Encontrava-se longe da esteira e não se focava no portão de saída, como que em sincronia com uma dimensão acima da possessividade que ditava o comportamento dos que esperavam seus pertences e da eficiência objetiva dos que já corriam para sair. Quando ele finalmente apareceu portão afora, nos reconhecemos de imediato.


Mais tarde, na casa de Edgar, vi que mesmo na urgência com que Benki vive, ele transmite a tranquilidade de contar com todo tempo do mundo, respondendo a uma causa que já era sua antes que nascesse. Diz ser a incarnarão de seu avô, que lhe deu a missão de salvar sua cultura tradicional e o respeito pela biodiversidade. Benki veio para curar e resgatar não só as árvores da floresta como as raízes culturais e nativas de muitos povos indígenas. Se pensarmos bem, essas raízes não são só deles, mas da própria relação da humanidade com o planeta mas para nós se encontram em um tempo muito mais remoto do que para os nativos. Um tempo em que todos pisávamos na terra, um tempo em que ninguém obedecia a convenções, somente a ritos. Jung nos mostra bem como o homem primitivo é mais ligado a seus deuses e seus mitos. E o mais importante, à sua alma!


Nos momentos em que Benki esteve conosco e nossos amigos próximos, entre os milhares de chamados de toda parte e por todo tipo de pessoas que o seguem, ele nos encantou. É pajé e líder dos índios Ashaninka que moram na fronteira do Brasil com o Peru. Esteve com cada um de nós em particular, e disse só de olhar, qual era o principal problema de cada um. Pelo que ouvi de nossos amigos e pelo que conheço deles, Benki acertou com precisão. Rezou-nos individualmente, soprando fumaça de seu cachimbo em nossa cabeça, aspirando de nosso peito as energias ruins que depois cuspia pela janela, enquanto entoava rezas em sua língua.


Pode-se pensar que o alívio que senti com sua pajelança resultou de autossugestão, assim como acontece com as cobaias que tomam placebos e alcançam resultados positivos do que seriam, supostamente, remédios novos. Mas além de qualquer pajelança, ou de tudo que Benki relatou para nós, o que na verdade mais me impressionou foi a sua presença. Ele é multiforme. Parece uma criança, ao mesmo tempo que um homem moço e também um ser vindo de tempos imemoriais. Em sua graça naturalmente nobre, já é príncipe antes de ter nascido.


Benki é reconhecido não só por abrir caminhos para as pessoas e ver dentro delas, curando-as na origem das doenças que apresentam, mas pelo sublime ideal de salvar a floresta e o meio ambiente, havendo levado sua mensagem a vários países em encontros com líderes de diferentes nacionalidades, como o papa e Dalai Lama, e mobilizado muita gente que a princípio era indiferente a esse ideal. No reflorestamento que faz com o grupo que lidera, já plantou dois milhões de árvores. Suas estórias fascinantes alternam a realidade com a verdade de sua herança mítica e do que lhe mostra a ayahuasca. Integralmente presente, ele é ao mesmo tempo arrebatado. Transmite o foco da coragem, dessa sincronia com o destino que ignora quaisquer consequências e torna mesmo a morte irrelevante, pois sobrevivendo ou não a um ato de coragem, heróis serão sempre heróis.


Ter coragem é ter o poder de dispensar passado e futuro, não se guardando contra nada que possa acontecer e não se apoiando no que já passou; é ser o infinito de presença. Benki já passou por várias ameaças de vida por parte de traficantes e madeireiros, e segue sem vacilar. Na sua firmeza tranquila, vive sob a paixão. Curou pessoas que conheço intimamente, de aflições que exigiriam remédios por toda a vida. Como Ghandi, Benki é um guerreiro que não agride. Sua luta é obedecer à sua causa. Assim são os verdadeiros líderes; ao invés de mandar, inspiram obediência ao que eles próprios obedecem.


Por suas visões, suas plantas mágicas, seu acesso a um outro mundo, e sua simplicidade, não temos ideia da realidade que os nativos alcançam. Enquanto temos ciência, não lidamos com o mundo dos espíritos, o mundo do xamanismo. A ciência médica trata o corpo, enquanto o xamanismo trata a alma. A primeira, baseada na lei da causalidade material, já pega o bonde andando pois que nunca se pode chegar `a causa última, aquilo que seria o começo da cadeia de fatos que fazem alguém ficar doente. Pois como nos mostra Kant, todas as causas são causadas, ou seja, toda causa é consequência de algo que a causou. E não chegando a uma causa última, que é, portanto, inexistente, e tampouco alcançando a razão ou o sentido do que acontece, que pertence `a dimensão do espírito, essa ciência não consegue resolver muitas coisas e os remédios alopáticos são em geral faca de dois gumes.


Resumindo, o tratamento científico é um tratamento de sintomas ou de consequências, e não do verdadeiro porque desses sintomas, daquilo que na abordagem espiritual seria o motivo, a mente, o pensamento, a relação da pessoa consigo mesma, ou inconscientemente, com os espíritos. Claro que isso pertence a um campo mais vago, infinito, mítico e irracional, que é, portanto, muito mais evasivo e misterioso do que aquele em que se trata a matéria como consequência da própria matéria. Por isso, a ciência médica, dispensando o mundo espiritual, pode fazer curas mais variadas do que o xamanismo, sem isso querer dizer que lhe seja superior.


O xamanismo parte de uma origem espiritual se manifestando no corpo, coincidindo com este, como uma sincronicidade junguiana. Quando um pajé cura alguém, ele remove “energias” ao invés de “germes”. No xamanismo não se prescreve receita de remédios que qualquer um pode administrar, pois a cura espiritual depende do curandeiro que a administra e da pessoa a ser curada. Não existe a separação de sujeito e objeto, médico e paciente. O toque do determinado pajé, os seus cantos, o ritual que conduz, tudo conta. Assim acontece a cura por ayahuasca, a medicina da alma. Ayahuasca nos faz sentir que tudo é interligado, ao contrário da percepção racional que separa cada ente dentro de um conceito e cada pessoa dentro de seu ego. O milagre revelado por ayahuasca é a experiencia da individualidade e do todo ao mesmo tempo, eu não diria um como parte do outro, mas sim como o eterno e mútuo reflexo de ambos. Na linha dessa verdade, os indígenas convivem com os espíritos porque sua mente mítica não divide a realidade em mundos que se opõe, o material de um lado e o espiritual de outro, e tampouco em entes separada e definitivamente cristalizados.


Ao contrário de nós, os indígenas são discretos, frugais com elegância, e falam com suavidade. Também ao contrário de nós, que só sabemos contar com a acumulação, que é fruto do medo, eles olham a sua comida como o pão de cada dia. Enquanto tudo separamos e, vivendo dentro de pequenas prisões chamadas de propriedade privada, mantemos uma guerra surda ou uma constante defensiva para preservar nossas posses, eles repartem o chão em que pisam.


Não sou ingênua. Não digo tudo isso pensando que podemos viver como eles ou dispensar a tecnologia já conquistada. Nesse sentido, a civilização não “regride”; não pode deixar de contar com o que já conquistou com a criação artificial. Mas devemos reconhecer que os indígenas são fonte de uma verdade há muito esquecida mas que continua a ser a verdade. E talvez um dia, com a ajuda de ayahuasca, que tudo reconcilia, conseguiremos, no tocante a eles e a nós, nos ajudarmos reciprocamente.



 

Cultura



Escute AWA, de Tuninho Galante, em homenaíem aos AWA, "tribo invisivel"

da Amazônia do Mãranhao




Escute essa playlist de violão brasileiro


Música e Povos Originais


A música desempenha um papel significativo na história e cultura humanas desde o início da civilização. Ela foi usada para entretenimento, ritual, cura, comunicação e contação de histórias. A música é uma linguagem universal que transcende barreiras culturais e linguísticas e tem o poder de unir as pessoas.

Para os povos originais da América do Sul, a música foi uma parte integrante de suas vidas diárias. Ela foi usada em cerimônias, rituais e celebrações e foi transmitida de geração em geração como forma de preservar sua cultura e tradições. No Brasil, por exemplo, a música indígena foi influenciada pela música africana e europeia, resultando em um patrimônio musical rico e diverso.

No entanto, apesar da importância da música para essas comunidades, muitas de suas canções e composições tradicionais permanecem não documentadas e não reconhecidas. É aqui que organizações como a Cedro Rosa Digital podem desempenhar um papel vital na preservação e promoção da música indígena.

A Cedro Rosa Digital é uma plataforma digital que ajuda as comunidades indígenas a registrar e documentar suas canções e composições tradicionais. Essa plataforma pode ajudar a garantir que essas obras sejam reconhecidas e protegidas pelas leis de direitos autorais, permitindo que os músicos indígenas gerem receitas com sua música.



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