A MÚSICA


Cruzou a esquina de Santa Clara com Nossa Senhora de Copacabana, esquina abençoada, indo em direção ao banco para pagar contas da empresa onde trabalhava. Um som que destoava das buzinas dos carros e dos motores dos ônibus chegou aos seus ouvidos: do outro lado da calçada, um jovem saxofonista executava “Carinhoso”, a obra prima do Mestre Pixinguinha e do seu parceiro, Braguinha. A música cobria o ar pesado da avenida: passantes iam apressados em direção aos pontos de ônibus, homens e mulheres procuravam, ansiosos, o que comprar nas lojas, mães levavam, agitadas, seus filhos para a escola e camelôs, aos gritos, ofereciam suas mercadorias.


Na frente dele, no chão, estava um “case” aberto, onde se viam notas de baixo valor e algumas moedas que uns poucos depositaram. A maioria das pessoas passava e nem o percebia. A melodia, porém, as acompanhava durante o trajeto até o ponto de ônibus, até as lojas, até a escola, tornando a caminhada, então, mais suave. Ela, sufocada pelo turbilhão de tarefas diárias, seguiu seu caminho para cumprir a mais pesada de todas: pagar contas no banco. Já antevia o sofrimento: filas enormes, que cobravam uma parcela do seu tempo e não devolviam com juros o seu bem mais precioso: o prazer de viver.


Hoje, porém, sentiu que estava um pouco mais leve: não conseguia parar de cantarolar “Carinhoso” desde que cruzou com o músico. Seus passos, normalmente rápidos, agora estavam mais lentos, compassados, seguindo o ritmo da canção. Lembrou que ela fez fundo musical de dois momentos importantes em sua vida: a descoberta do amor no baile da AABB e o pedido de casamento no baile da Estudantina. A fila, enorme, se tornou pequena e o tempo passou rápido. Seu ar feliz contrastava com as carrancas e o mau humor dos outros clientes da fila.



 

Saudade de uma Roda de Samba, né? Escuta aqui!