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A MÚSICA


Cruzou a esquina de Santa Clara com Nossa Senhora de Copacabana, esquina abençoada, indo em direção ao banco para pagar contas da empresa onde trabalhava. Um som que destoava das buzinas dos carros e dos motores dos ônibus chegou aos seus ouvidos: do outro lado da calçada, um jovem saxofonista executava “Carinhoso”, a obra prima do Mestre Pixinguinha e do seu parceiro, Braguinha. A música cobria o ar pesado da avenida: passantes iam apressados em direção aos pontos de ônibus, homens e mulheres procuravam, ansiosos, o que comprar nas lojas, mães levavam, agitadas, seus filhos para a escola e camelôs, aos gritos, ofereciam suas mercadorias.


Na frente dele, no chão, estava um “case” aberto, onde se viam notas de baixo valor e algumas moedas que uns poucos depositaram. A maioria das pessoas passava e nem o percebia. A melodia, porém, as acompanhava durante o trajeto até o ponto de ônibus, até as lojas, até a escola, tornando a caminhada, então, mais suave. Ela, sufocada pelo turbilhão de tarefas diárias, seguiu seu caminho para cumprir a mais pesada de todas: pagar contas no banco. Já antevia o sofrimento: filas enormes, que cobravam uma parcela do seu tempo e não devolviam com juros o seu bem mais precioso: o prazer de viver.


Hoje, porém, sentiu que estava um pouco mais leve: não conseguia parar de cantarolar “Carinhoso” desde que cruzou com o músico. Seus passos, normalmente rápidos, agora estavam mais lentos, compassados, seguindo o ritmo da canção. Lembrou que ela fez fundo musical de dois momentos importantes em sua vida: a descoberta do amor no baile da AABB e o pedido de casamento no baile da Estudantina. A fila, enorme, se tornou pequena e o tempo passou rápido. Seu ar feliz contrastava com as carrancas e o mau humor dos outros clientes da fila.



 

Saudade de uma Roda de Samba, né? Escuta aqui!


 


Fez o mesmo caminho de volta, queria encontrar o artista e colocar uma contribuição em seu “case” como retribuição pelo que sua arte lhe devolvera. Ele estava lá e a cena era a mesma: as pessoas passavam e o ignoravam. Surrupiavam a sua música para acompanhá-las, mas não se dignavam a dar um centavo de colaboração. Talvez não o considerassem um trabalhador: músico não é profissão, é diversão. Poucos entendiam de outra maneira e deixavam um trocado. Ele agradecia da mesma forma, independentemente do valor colocado. Sentia-se orgulhoso pelo reconhecimento da sua arte.


Vou dar dez Reais. “Porra! Dez Reais!” gritou a sua consciência. O cara aliviou seu sofrimento, trouxe prazer à sua vida num dia que se prometia estressante, tem um filho pra criar, ganha a vida tocando na esquina de rua, solou “Carinhoso”, permitindo-lhe recordações, e você quer dar uns míseros dez Reais? Tome vergonha!” Vou dar cinquenta! Abriu a carteira, procurou o dinheiro: seis Reais, o pouco que tinha para pagar as duas passagens de ônibus até em casa. Nem os dez tinha. E agora? Remexeu a bolsa e encontrou, dobrada e amassada, uma aposta de três reais e cinquenta da Mega-Sena. O sorteio seria nessa noite. Quer saber: vai você! Não tinha sorte mesmo. Jogava pra falar que jogou. Ter motivo pra conversa. Por vezes nem conferia o resultado perdendo o prazo de validade do bilhete. Colocou, sem que ele percebesse, o cartão da aposta no “case” e foi embora.


No dia seguinte, caminhando para o trabalho, leu o cartaz na porta da loteria: Mega-Sena acumulou! Um som melodioso chegou aos seus ouvidos. Ele continuava lá. Ficou feliz! O ser humano é contradição.


Paulo Castro - Paulinho do Cavaco - especial para CRIATIVOS!


 




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