Drumond e uma carta que virou poema?




Vivemos tempos nunca imaginados. O Covid-19 deixou o mundo de cabeça para baixo. Ninguém sabe se escapará incólume, ou se as pessoas que importam em sua vida serão atacadas ou não. Inerme, confinada em casa torcendo pelo achatamento do pico da curva, assisto a provas cada dia mais contundentes do desgoverno de nosso país. E, por instinto de sobrevivência, resolvi aproveitar este recolhimento forçado para contar a história de minha correspondência com o nosso Poeta Maior, Carlos Drummond de Andrade.

COMO TUDO COMEÇOU

Era mãe fazia pouco, mas o vazio só aumentava. Eu, cujo maior desejo sempre fora o de ter uma filha, me perguntava como era possível. Quando casei, dois anos e meio antes, cursava o terceiro ano de jornalismo e, diante da ameaça de que minhas faltas durante o período de lua de mel me fariam perder o semestre, tranquei a matrícula. Mais tarde por miopia, julguei não ter condições de me dividir entre os afazeres domésticos e a faculdade, e simplesmente ignorei o prazo de destrancamento, decidida a me dedicar a meu marido e minha filha. Só que os dias são longos, a rotina mata e, por maior que fosse a minha dedicação, eu sentia que faltava alguma coisa.

Neste estado de espírito, abro o Jornal do Brasil pela manhã e me deparo, na coluna de Drummond, com seu poema “Apelo a meus dessemelhantes em favor da paz”.

O apelo do poeta reverberou fundo no tumulto do meu coração. Tive vontade de me comunicar com ele, procurei seu endereço e enviei-lhe o poema abaixo, que intitulei de

DESAGRAVO AO DESAGRADO DO POETA