Vocês vão te que me engolir


José Luiz Alquéres

Membro honorário do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)




A expressão que dá o título a este artigo ficou imortalizada em nossa crônica esportiva, ao ser, aos berros, dirigida a jornalistas ao final de uma partida importante. Mario Jorge Lobo Zagallo, então técnico da seleção brasileira de futebol, foi enfático. Ele vinha sendo criticado por seu esquema de jogo e escalação do time. Ao fim da partida, vencedor, deu o troco.


Se o nosso planeta falasse, poderia se virar para nós, brasileiros em geral e governo brasileiro, em particular, e repetir a frase de Zagallo. Por qual razão? Por termos ignorado os sinais do bom senso e termos deixado nossa situação ambiental se degradar até o presente estágio.


A primeira coisa a engolir é a existência científica do nosso papel nas mudanças climáticas. Contrapondo-se ao nosso negacionismo, este ano houve a concessão de três prêmios Nobel a Syukuro Manabe, de Princeton (EUA); Klaus Hasselman, do Instituto Max Plank (Alemanha); e Giorgio Parisi, da Sapientia University (Itália), por seus trabalhos que comprovam a relação da humanidade com o meio ambiente.


Desde Arrhenius, Premio Nobel em 1903, passando por três outros cientistas que, em 1996, mostraram o efeito da destruição da camada de ozônio por compostos químicos altamente comercializados; passando também pelo Nobel da Paz em 2007, para Al Gore e, ainda, para o Painel da ONU (IPCC); chegando, finalmente, em 2018 quando viu-se o Nobel de Economia ir para Willian Nordhaus, não faltam evidências e reconhecimento público para o problema das emissões nocivas à vida do planeta. Só não viu quem não quis.


A segunda coisa que especialmente o governo terá que engolir (e depois reformular suas políticas) é a sua responsabilidade pelo passado e obrigação de agir de forma diferente em relação a Amazônia, ao uso da terra, ao desflorestamento, à produção crescente de proteína animal oriunda de novas áreas de pastagens, ao desrespeito à populações indígenas etc. Questões que bloquearão o acesso aos mercados mundiais dos nossos produtos principais de exportação, as commodities minerais e agropecuárias. Aos erros nas políticas se acrescenta uma sucessão de discursos idiotas sobre o assunto da parte de autoridades da área das relações exteriores e do meio-ambiente.


A terceira mudança a ser feita é na eliminação de preconceitos e aceitação que hoje falam pela sociedade vozes diferentes. Assim, há total legitimidade nas manifestações da defesa do meio-ambiente que tem a jovem Greta Thumberg como figura chave. Ela vem sendo criticada pelas redes sociais a serviço do ódio (no Brasil e no exterior, diga-se de passagem) por não ter os conhecimentos científicos profundos de um especialista que a habilitassem a abrir a boca em público. Ela virou "A Pirralha", como é referida em geral depreciativamente por uma certa mídia. A questão, no fundo, é outra.


 

Mulheres cantando samba, que espetaculo! Veja.

 

Ela representa uma coisa nova, difícil para a velharia engolir: a participação dos adolescentes na política em defesa do mundo que irão viver e que estamos estragando hoje. Essa garotada estará viva no ano 2.100. Lembrem disso. A maioria de nós já terá passado, faço votos, para um lugar melhor, mas adolescentes - como hoje é Greta e há poucos anos era Malala, a menina que enfrentou os radicais islâmicos para poder estudar - são as verdadeiras vozes do século. Simpatias pessoais à parte, as duas tem razão. No fim do século, elas poderão viver em um mundo verde ou em um mundo devastado. E isso depende nós.