Você é de esquerda ou de direita?


Minha amiga, entre uma garfada e outra, disparou: você se considera de esquerda ou de direita? Respondi na lata: sou a favor da redução das desigualdades sociais e de renda. Objetivos com prioridade sobre qualquer outro. Ah, então você é de esquerda, disse ela. Isto me fez lembrar o magnífico tratamento dado ao tema pelo gênio da raça que foi Ariano Suassuna. No capítulo 'O Cordão Azul e o Cordão Encarnado', do seu magnífico livro "O Romance da Pedra do Reino", ele monta um diálogo hilário entre os dois mestres do seu personagem, Quaderna. O louro Samuel, de direita, que relaciona as coisas nobres e elevadas de direita. O mestiço Clemente, faz o mesmo com as coisas de esquerda. Aí esbarram na definição de mulher. Para Clemente, um ser fútil, preocupado com cabelos, joias e aparência é de direita, porém, se vista como um ser explorado, dependente do seu senhor marido e oprimida, será de esquerda. Tal ambiguidade, ou melhor, ambiguidade semelhante hoje nos acomete ao olharmos para o nosso panorama político. Para o assunto não morrer, emendei logo: a direita é apolínea, adora a ordem, a simetria, a perfeição nas maneiras. É estática, reacionária e nunca nos tirará deste estado a que chegamos. É muito burra, teimosa e vive achando que era feliz viver feito no passado, "quando as pessoas sabiam o seu lugar" (sic). Já a esquerda é dionisíaca, corajosa, delirante, irresponsável, enfia os pés pelas mãos, faz da vida uma peça de teatro, a exemplo do seu deus protetor. É iconoclasta e fixada em futuros idealizados em discursos, para cuja realização somente propõe a primeira etapa: eliminar tudo que existe - e logo partem para a mesa do bar ou para defender suas 'boquinhas'. A direita então se arrepia e pensa logo em sua casa de Angra ou de Bragança Paulista sendo invadida pela gentalha, e faz campanha pelo direito de propriedade. Schumpeter, seu ideólogo, autor do livro "Capitalismo, Socialismo e Democracia", sempre pregou a aceitação da inevitabilidade de um capitalismo das destruições sucessivas. Esta parte não agrada muito, decerto, pois aqui se gosta mesmo é do status-quo. A