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Vida - Morte - Vida


Suzana Padua


Suzana M. Padua


A morte é um fenômeno muito estranho. Uma hora a pessoa está ali e de repente não mais se encontra presente. Essa falta de entendimento é comum para nós, humanos, que temos ligações afetivas com pessoas e não queremos “perdê-las”. Não que os animais não tenham. Um casal de papagaios ou araras (psitacídeos), ou mesmo de micos, é para sempre. No caso dos psitacídeos, se um morre, o outro permanece sozinho. Quando vemos um só voando, a razão em geral é essa. No caso dos micos, pelo menos os micos-leões encontrados na Mata Atlântica do Brasil, só quando um dos indivíduos de um casal morre é o que aquele que fica procura novo ou nova companheiro(a). Se é por afeição ou não, não sabemos. Com os humanos esse nem sempre é o comportamento que se observa…


Conversando com um biólogo (que por acaso é meu marido, Claudio Padua), sua visão é bem mais lógica. A morte é a garantia de continuidade da vida na Terra. O nascer e morrer propiciam renovação e evolução. Se não houvesse morte, as espécies não evoluiriam e com isso a probabilidade do desaparecimento da vida seria muito maior. A diversidade contribui para a perpetuação de espécies. Aliás, é chave. No caso de uma catástrofe, por exemplo, se todos fossem iguais ou bem parecidos e precisassem dos mesmos elementos para sobreviver, as chances de deixarem de existir seria imensa. Mas, com a diversidade de espécies e de elementos, alguns podem estar mais ajustados às novas condições que se apresentam e aí têm maiores chances de sobrevivência. Assim a vida continua. Diversidade é, portanto, condição sine qua non para a vida acontecer.


Essa visão traz um certo conforto se conseguirmos absorve-la, pois ajuda na aceitação da morte não como perda, mas como uma contribuição à vida. A morte vista dessa forma passa a ser esperança de continuidade. Nesse processo natural, a pessoa que parte estaria dando chances à vida num sentido amplo, e o vazio da ausência ficaria reduzido. É uma revolução em nossa concepção tradicional de como vemos a morte.


Essa semana escrevi um bilhete difícil para uma pessoa que perdeu um ente querido. Sei do seu sofrimento e imagino o quanto vai sentir falta de quem se foi, e me pus a pensar sobre o assunto. Já perdi entes queridos e sentia saudades, um vácuo como ausência da presença. Olhava para o lugar onde a pessoa sentava e imaginava que ainda poderia estar ali. O vazio fica por algum tempo...


A própria morte é pouco estudada. Há muitos anos li um livro, “A Roda da Vida”, no qual a autora, Elizabeth Kübler-Ross, trouxe um dado que a impressionou como médica psiquiátrica. A literatura sobre morte era ínfima quando comparada a outros temas da medicina. Era como se fosse um assunto evitado, por não se querer enfrentar. O livro é autobiográfico e seu interesse pela morte teve origem quando, ainda jovem, quase morreu e os médicos perderam totalmente o interesse em cuidar dela. Referiam-se ao seu leito por um número e não mais por seu nome. Era um caso perdido, o que significava insucesso dos médicos e suas equipes. Não sabiam lidar com o fracasso de não conseguirem a salvar. Mas a paciente sobreviveu e passou a vida estudando a morte e como aliviar o sofrimento dos que estão se aproximando do fim da vida, ou ainda daqueles que perderam entes queridos, ajudando-os a lidar com a dor da “perda”.


Na natureza a vida é exuberante e farta, e a morte, quando não causada por influências externas, inclusive ações humanas, acontece com naturalidade. É um processo de renovação.


Hoje está cada vez mais difícil deixar a natureza seguir seu rumo sem interferência humana. Segundo Sir David Attenborough, a humanidade mais os animais e as plantas domesticados perfazem 96% das espécies de mamíferos e 70% das aves do planeta, ou seja, apenas 4% e 30% são respectivamente de fauna ou avifauna selvagens. “Repusemos a vida selvagem por nós mesmos e nossos animais e plantas domesticados”. E vai além quando afirma: “A perda da biodiversidade não é apenas uma tragédia, mas o maior problema que enfrentamos hoje”. Os seres humanos parecem só enxergar a si mesmos e não levam em conta a perda dessa riqueza natural e as consequências de seus atos impensados.


A espécie humana encara a morte como sinônimo de perda, de fracasso. Há um medo do desconhecido e muitos mitos e crenças acompanham o imaginário das pessoas. Alguns creem em vida após a morte, e esses têm mais esperança no que virá depois. A noção de reencarnação traz a pessoa de volta com os aprendizados que precisa aperfeiçoar dessa vida e de outras pregressas, com as lições e melhoras que precisam ser trabalhadas. Outros são céticos e acreditam que nada mais há após a morte. Com isso, talvez sejam ainda mais agarrados à vida.


Seja como for, com o passar do tempo, ao chegarmos à maturidade e a idades mais avançadas, nos defrontamos com a proximidade da morte. Reconhecemos que há mais passado do que futuro, como poetizou Mario e Andrade em seu “Valioso Tempo dos Maduros”:

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo pra viver daqui para frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.


Seja qual for a situação individual, minha vontade é de viver plenamente enquanto for possível. Aproveitar a vida. Sêneca já havia pensado nessa linha quando escreveu: “Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só, uma vida”.


A natureza pode e deve ser nossa fonte de inspiração, não só para aceitarmos melhor o processo vida/morte, mas para nos inspirarmos no conceito vida/morte/vida. A continuidade da vida é uma forma, para mim, revolucionária de encarar a morte e por isso compartilho nesse pequeno e singelo texto.


A natureza como fonte de inspiração tem sido aclamada por pensadores no correr da história. Aristóteles, por exemplo, se expressou da seguinte forma: “Em todas as coisas da natureza existe alguma coisa do maravilhoso”. Shakespeare considerava que “A Terra tem música para aqueles que sabem ouvir”. O naturalista norte americano, John Muir, escreveu: “A melhor forma de adentrar o universo é por meio de uma floresta selvagem”. No Brasil, Drummond tem uma das minhas preferidas de suas poesias, por minha ligação especial com os ipês:


…Sou um homem dissolvido na natureza. Estou florescendo em todos os ipês. Estou bêbado de cores de ipês, estou alcançando a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado. Não me façam voltar ao chão, não me chamem, não me telefonem não me deem dinheiro, Quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela. Este é tempo de ipê. Tempo de glória.


Viver precisa ser reaprendido. E o momento é agora. Nesse sentido estou com o Oogway do Kung Fu Panda: “Ontem é história. Amanhã é mistério. Mas hoje é uma dádiva. Por isso é chamado de presente”.


Aproveitar esse presente de forma plena é para mim o segredo da vida. É dar chance para sairmos dos casulos e virarmos borboletas. É aprendermos a ser livres. Parafraseando mais uma vez Drummond, “Amar se aprende amando”, eu ouso o copiar com “Viver se aprende vivendo”. Creio que a humanidade precisa aprender a viver. E viver com amor pela vida para tratar o outro ser humano e as demais espécies da natureza como joias a serem protegidas e não como recursos explorados. E se aprendermos com a natureza, quem sabe a morte fica menos inaceitável...

 

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