RISOS


Ele parou de rir quando a emenda das Diretas foi rejeitada. Tinha voltado a se alegrar uns anos antes, quando o AI-5 foi revogado, mas achava que alegria de pobre dura pouco e essas coisas. A eleição do Brizola deu um respiro.


Alguns bons governadores foram eleitos naquela primeira leva, mas ainda sob o governo do Figueiredo. Não estava triste, tinham acontecido a anistia e a abertura, mas não era caso pra gargalhadas ainda. A iminência de um governo civil era uma grande razão pra festa, mas o formato da sucessão não estava definido. Quando a massa voltou às ruas pelas diretas e foi apresentada a emenda Dante de Oliveira, achou que, agora sim, poderia mostrar as obturações todas ou, quem sabe, ao menos rir discretamente. Mas deu errado. A emenda foi rejeitada e travou de uma vez diversos sorrisos em potencial, guardados havia tanto tempo.


De lá pra cá, com o tempo passando, foram muitos momentos de quase riso. A queda das ditaduras na América Latina, os shows do Rock in Rio, as copas do mundo de 94 e 2002, tantos carnavais, tantos botequins. Alegria, sim. Mas muito mais contida que o normal, mais presa do que recomendam os cardiologistas. Enfim, era o jeito.

Bebeu escondido a queda do muro de Berlim, face ao colapso do projeto do leste, contaminado pelos projetos pessoais dos líderes e pela ilusão da riqueza do oeste, sempre mal dividida. Sem comemorar, no entanto.


Erundina, Marta, Olívio, Tarso, Lula, Dilma, grandes momentos. Recuperação histórica, universidades abertas ao povo, viagens ao exterior, comida na mesa, estabilidade econômica, reconhecimento internacional, alguns bons governos em estados e prefeituras. Obviamente, não só na esquerda, mas mesmo no centro houve boas iniciativas. Ensaiou comemorar. Brindou até. Mas entre erros e acertos optou por não gargalhar. O saldo ainda era negativo.