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Proust no Aeroporto


Eleonora Duvivier, em foto de Chris Dodds


Viro a página, maravilhada com a coragem de Proust encarar a dor. Suas palavras identificam inteligência, amor e coragem, a santíssima trindade que chamamos de profundidade.

Ainda estou no aeroporto. Dessa vez minha mala de mão não foi examinada pela polícia após passar pelo raio X, pois não mais continha o enorme tomo de toda a A La Recherche du Temps Perdu. Troquei esse livro impresso em papel e grosso como uma Bíblia por uma versão eletrônica que o meu iPad carrega, juntamente com outras obras. Vim a saber por um funcionário mal humorado que o volume único da Recherche é impenetrável ao raio X, ao contrário do iPad, que mesmo cheio é mais fino do que do que seria qualquer livro impresso dos romances que tenho dentro dele. Parece ironia o fato da obra prima de Proust ser indigesta `a tecnologia de aeroporto assim como `a maioria das pessoas, enquanto o iPad com todo o seu conteúdo diversificado flui sob o raio X e através das mãos de crianças pequenas.


Embora a Recherche seja disponível numa sequência de livros impressos, faz sentido que a sua completude circular se encontre num só volume. A inteireza do circulo simboliza o infinito, pois contrariamente `a linha reta, que concerne a menor distância entre um começo e um fim que são definitivos e afastados um do outro, ele é um todo dinâmico no qual qualquer ponto pode ser começo e fim ao mesmo tempo, todos valendo independentemente de uma sequência fixa. Não só o final da Recherche é também o começo dela, como até os parágrafos Proustianos, os pontos dessa obra circular, são autossuficientes, independentemente de serem transições para o que lhes segue, desenrolando-se sinuosamente em ramificações do seu tema inicial antes de retornar a ele e lhe dar fechamento. Na inteireza da obra, a simultaneidade da presença desses parágrafos num único e exclusivo volume responde `a sua circularidade viva, ao conteúdo infinito do texto.


Não se pode dizer que o iPad contenha toda a Recherche dessa mesma maneira porque nenhuma parte dela está imediatamente presente e acessível `a vista através do contato direto de nossas mãos, mas seus fragmentos devem ser convocados lá da escuridão de sua aparente inexistência através de toques mediados por mecanismos eletrônicos, em pontos precisos da superfície impessoal do dispositivo. Cada página de Proust vem à luz na mesma tela em que quaisquer outras de romances diferentes armazenados nesse iPad podem vir. Em poucas palavras, a obra não é única nem àquela tela e nem ao interior do dispositivo, onde ela reparte uma invisibilidade promíscua com muitas outras, nenhuma delas comprometidas com um modo fixo e palpável de existência, como um pedaço de espaço neste mundo que lhe seja único e diretamente acessível à nossa percepção. Me parece desrespeitoso que a Recherche exista como uma mera co-locatária da tela de um dispositivo, na disponibilidade de fragmentos desta se tornarem visíveis, num um vai e vem entre eles e outras leituras.


Proust, que foi sempre fiel `a concretude de cada momento, tratou o elemento físico como uma raiz e deu importância crucial ao que nos é imediato aos sentidos, em oposição ao que resulta da mediação do intelecto (como a memória involuntária que é trazida por sensações físicas vs. a memória que controlamos e podemos convocar, e que para ele é uma mera descrição que nada tem do passado vivo). No caso de um livro, as características sensoriais do volume no qual ele é lido, como a cor da capa, a textura de sua encadernação e outras qualidades materiais tangíveis e unicamente presentes, se tornam, segundo o escritor, associadas `a vida do leitor/a, e a quem este ou esta era quando leram esse livro. Essas associações e a maneira com que esse leitor/a recebeu o conteúdo do que leu constituem, segundo Proust, a singularidade da sua experiencia literária.


Como exemplo, ele fala do volume vermelho de François le Champi que encontrou na biblioteca do novo casal Guermantes. Explica: “Coisas como um livro de encadernação vermelha são transformadas assim que percebidas em algo da mesma natureza de nossas preocupações e sensações daquele tempo particular, com o qual elas se misturam indissoluvelmente. A maneira com a qual a capa de uma encadernação se abre, a textura de seu papel particular pode ter preservado em si uma memória tão vívida de como eu outrora imaginei Veneza e o desejo que eu sentia de ir conhecê-la como as próprias frases do livro” (Le Temps Retrouvé).

Falando de sua preferência se fosse um bibliófilo, ele diz: “A primeira edição de uma obra literária seria bem mais preciosa aos meus olhos do que qualquer outra, e com isso eu me refiro `a edição em que eu o li pela primeira vez. Eu deveria procurar edições originais, aquelas de que recebi uma impressão original do livro. No caso de romances, eu deveria colecionar encadernações antigas, aquelas que tantas vezes ouviram Papa me dizer: Sente-se reto.

Como o vestido que uma mulher usou quando a vimos pela primeira vez, essas encadernações me ajudariam a descobrir o amor que eu então sentia”. (Le Temps Retrouvé)


O que acharia Proust a respeito do longo texto de sua obra prima ser contido numa forma invisível, comprimido como arquivo digital atrás de uma tela de iPad que pode ser tudo, e somente acessível a aparecer através de um contato tecnológico com a sua superfície fria e que se oferece com indiferença a outros livros, a notícias na internet e a imagens de tudo que é tipo?

Achando a utilidade vulgar - através do que diz Marcel, seu narrador, sobre a sua amada avó - acharia ele vulgar a abstração de seu trabalho para fins pragmáticos, em meros códigos que podem compulsivamente torná-lo visível? O que pensaria a respeito da irresistibilidade dos fins prosaicos que o iPad satisfaz, como permitir ao leitor carregar menos peso e não ser detido pela segurança do aeroporto?


Proust é ambivalente em relação `a tecnologia, pois ele acha o pragmatismo, princípio que a dirige, “estreitamente”, ou pejorativamente, humano. Quando Marcel visitou o Bois de Boulogne para ver as folhas de outono e se lembrar do tempo em que ia assistir o passeio matinal de Madame Swan, ele fica decepcionado com a substituição das carruagens românticas daquele tempo por automóveis “uniformes e feios”. A total mudança da moda e da cena de sua juventude o levam a pensar que o mundo de então não era mais o seu mundo. Mas ele se arrebata quando pode ser poético em relação a uma nova invenção. Chega a comparar as telefonistas do então recentemente inventado telefone a criaturas míticas, e dá magnitude também mítica ao primeiro avião que viu, sobrevoando o cavalo em que ele estava.


Ipads são dispositivos de reprodução tecnológica, algo que a avó de Marcel (obviamente Proust também) acha vulgar. Com um toque de nosso dedo na sua tela, qualquer página de qualquer texto armazenado no escuro calculado de seu interior vem à tona, e com outro toque ela desaparece, como que roubada da sua fatia de espaço no mundo. Nesse sentido, a reprodução eletrônica corrompe a condição existencial mais concreta, a que se trata de ocupar no espaço uma extensão diretamente acessível a nossa percepção sensorial. Ou no tempo, como a música. Devido `a sua extensa funcionalidade na leitura, o iPad pode ser usado como livro, dicionário, caderno de notas, e arquivo das frases que sublinhamos na sequência certa e, se quisermos, na distinção de cores diferentes. Desse modo, se abstrai o volume do livro impresso, o de um caderno de notas, o de um dicionário, e o de um lápis ou caneta. Devido à subtração desses outros objetos além do livro, e de podermos encontrar com muito mais rapidez nossas anotações e o que sublinhamos, se encurta também o tempo de leitura. A subtração de volume e a eliminação de sua diversificação coincide com a maior rapidez do ritmo eletrônico, que é bem mais veloz do que o ritmo de nossos movimentos. Certamente influencia o nosso estado de espírito e até mesmo o tempo e modo de nossa compreensão, à custa da nossa disponibilidade para a reflexão, pois se a velocidade aumenta, a subjetividade diminui. E nela esta o encontro que se pode ter consigo mesmo à medida que lemos para se questionar ou tornar pessoalmente sua a compreensão de uma leitura profunda vai sendo engolido por um entendimento frio, acadêmico e uniforme.


Assim como o iPad abstrai o volume do tomo da Recherche, a internet abstrai a identidade humana, permitindo que através dela qualquer um torne publico o que bem entender sem ter que se identificar. Identidade e concretude são pilares da existência e sua abstração não só deve alterar o nosso estado de espírito e o rítmo de nossas emoções, como empobrecer a experiência proustiana da leitura, na qual as características materiais do livro que lemos pertencem somente aos exemplares desse mesmo livro e têm importância fundamental, ao contrário da tela indiferentemente compartilhável de um iPad.


Mas graças a esse dispositivo, eu não mais preciso ser detida no aeroporto, e para não perder o avião ao esperar que mil funcionários de luvas de borracha prescrutem a minha bíblia escrita por Proust (Les Scriptures Sacrées, de acordo com muitos franceses) olhando-a como se fosse uma bomba e passando-a de um pro outro numa vasilha de plástico qualquer e com expressão furiosa, abandono a abrangência da experiência proustiana de leitura.


Desculpe-me Marcel Proust! Posso assegurar que não vou deixar a impessoalidade eletrônica encurtar meu tempo de apreciar a vossa santa união da inteligência `a coragem, ao amor, e, claro, à fisicalidade.


(Parte de Ayahuasca Anchor, minha coleção de contos a sair em breve.)

 

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