Oque ainda não nos foi tirado é o direito de votar...

Aercio Barbosa de Oliveira, para CRIATIVOS / CR Zine.



foto: Aecio Barbosa de Oliveira / Cedro Rosa



Ainda não apareceram justificativas ou pesquisas que exponham satisfatoriamente as razões do Rio de Janeiro – refiro-me ao estado e à capital – ter alcançado tamanho desarranjo em suas instituições políticas, que beira à anomia.


Não faltam alegações a respeito, mas nenhuma está livre de refutações. Algumas afirmam que o Rio de Janeiro, ao deixar de ser capital do país, ficou órfão de uma elite política voltada para os interesses do estado; os partidos de todo o espectro político são frágeis, em decorrência da justificativa anterior; a fusão do antigo Estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro teria alterado a forma de distribuir os recursos públicos, prejudicando principalmente a cidade polo da metrópole fluminense; a herança do fisiologismo e corrupção do chaguismo; o avanço da milícia e da quantidade de facções responsáveis pelo varejo das drogas consideradas ilícitas; a existência de agentes políticos insaciáveis e “viciados” em acumular para si o dinheiro público; ao pluralismo político, religioso, social que dificultaria o estabelecimento de uma cultura cívica e uma concertação política estável, onde adversários partidários assumiriam pontos comuns; por ter sido sede do Império Português e capital da república, o que ajudou a moldar uma tradição política fluminense, especialmente na antiga Guanabara, a megalomaníaca, numa combinação de orgulho e a soberba (a vida mostra o quanto esses atributos em excesso nos cegam); por ser o estado, em termos relativos, com a maior quantidade de habitantes vivendo na região metropolitana, espremidos entre a serra e o mar, dificultando a execução de políticas públicas. As apresentadas, são as mais conhecidas. Seguramente tem outras, para todos os gostos.


O fato é que, ao olhar para a história fluminense, ao menos desde quando alguns poucos militares de alta patente criaram a República, foram poucos os momentos em que o sistema político do estado do Rio de Janeiro esteve em situação similar e tão vexaminosa. Uma situação que reforça o desprezo das pessoas ao sistema político da democracia liberal e mesmo o seu sistema de justiça. Não é nada fácil, para uma pessoa que acompanha, minimante, o cotidiano da política carioca e fluminense apostar um “tostão furado nessa estrutura”. A longitude entre os interesses dos representantes e representados se expandi ilimitadamente. Para gerações mais novas, é compreensível que a percepção seja a das piores.


Qualquer literatura distópica parece fichinha comparada à realidade. Quem mora em favela ou em algum bairro da periferia em cidades da região metropolitana sabe o que é viver sob o terror provocado pelo Estado – é polícia dando tiro a esmo de dentro de helicópteros, governador dando ordem para polícia acertar na “cabecinha”, milícia assumindo o controle de serviços essenciais nos territórios, inclusive sendo responsáveis pela construção e venda de imóveis. Quando não é este terror estatal ou paraestatal, temos a negligência dos governos estaduais ou municipais com os serviços e os bens públicos. Saúde, transporte, moradia e abastecimento da água, quando funcionam, são precários.


A maioria dos eleitos, que têm entre as suas funções, fiscalizar as ações das prefeituras e governos, mas representam seus interesses particulares e de empresas que controlam o Estado. A estrutura do estado, faz tempo, está nas mãos de empresas de diferentes ramos de negócios para a produção mínima das cidades e de financistas. A estrutura do sistema político formal virou um espaço para se fazer negócios. Uma minoria de legisladores, prefeitos e governador conseguem atuar de maneira lícita, mesmo sofrendo o custo de ameaças e, inclusive, perseguições da própria justiça e de setores do Ministério Público.


Gestores públicos sob a mira


A situação é alarmante. Assassinatos de parlamentares e prefeitos na política fluminense infelizmente não são novidade. A força da bala, muitas vezes esteve acima da força do argumento ou das leis. Em levantamento feito pela revista Carta Capital, em setembro deste ano, nos últimos 30 anos foram assassinado