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PIADAS



O Beto era metido a engraçadinho. Gostava muito de contar piadas. Demais até. E era bom no negócio. Tinha sempre uma pronta pra cada situação. Brincava que devia ser filho de cearense. Afinal, os conterrâneos do Chico Anísio têm fama nisso. E era um derrame permanente de historinhas de português, papagaio, loura, baiano, americano, gay, açougueiro, freira. Não tinha personagem que escapasse. Alegrava os ambientes até levar todos à exaustão. Era bom no negócio, não custa repetir, mas exagerava.


Não conhecia o limite. Perdera diversas pretendentes a namorada por causa dessa compulsão cômica. O cara era até bonitinho, de traços fino e tal, mas passava fácil do ponto. Não deixava escapar o menor detalhe e isso muitas vezes incomodava as meninas. Irreverente e politicamente incorreto no último grau, trazia sempre consigo uma pequena confraria de amigos que aproveitavam a popularidade do Beto, um verdadeiro showman.

Sabia que agradava e também que desagradava, no excesso. Mas não se preocupava com isso. Apesar do sucesso, Beto não era um profissional da coisa. Era bancário no Centro da Cidade, profissão quase em desuso há muito tempo, mas que lhe garantia a tranquilidade necessária pra continuar contando piadas por aí.


O salário do banco sempre deu pras despesas, tanto as previsíveis, de casa, quanto as da noite, inclusive as de alguns amigos que se alojavam na aba do Beto. Uma espécie de claque. Desnecessária até, considerando o talento notável que tinha pro humor. Coisa inexplicável mesmo, e mais ainda se alguém o visse durante o dia, naquele modelito caixa-consultor-gerente, função tripla que os bancos obrigaram os funcionários a assumir, quisessem ou não, sob pena de perderem a cadeira.


MPB do Brasil. Escuta essa!


De uns tempos pra cá, em virtude do ambiente favorável, a maior parte das piadas satirizava os políticos de direita. A história do Brasil sempre foi pródiga em personagens engraçados, em geral por sua inabilidade em alguma competência que deveria dominar.

Beto também passou a vida ouvindo aquela do “How tru you tru, Truman?”, que teria sido a resposta do Dutra ao “How do you do, Dutra?” do presidente americano da época. E aquela outra de Castelo Branco, que entre os generais americanos, os que ele melhor conhecia eram o General Eletric e o General Motors. Não escapou das sátiras à, digamos, estética desfavorável do Marechal Castelo (o mesmo), riu das alusões à vassoura do Jânio Quadros, que hoje talvez fosse um robô aspirador, visto que varreu-se a si próprio.

Garoto ainda, riu das grosserias do Figueiredo e da falta de graça do Geisel. O Médici só provocava choro, era o bicho-papão em pessoa, e o Costa e Silva saiu à francesa, sem se despedir. Mas não fez falta.


Ainda no tempo da guerra fria, viu o mundo concentrar renda sob a inoxidável Dama de Ferro, Mrs. Thatcher, enquanto imaginava o séquito de maquiadores e camareiros necessário ao funcionamento da Casa Branca sob as ordens de Reagan. O casal de gestores da implantação do mercado mundial fez muita gente chorar, mas rendeu boas piadas também.


Só começou a fazer piadas próprias muito mais recentemente, mas deu tempo pra explorar o tamanho das orelhas do Cesar Calls, o físico ímpar do Marco Maciel, a imortalidade de Sarney e Delfin, o desprezo pelo tempo do Francisco Dornelles, cuja carreira política parece ter começado no Renascimento.


Mais recentemente ainda, vinha desenvolvendo uma linha contemporânea, como aquela que diz que o Eduardo Cunha é uma reencarnação demoníaca do Carlos Lacerda. Difícil saber qual dos dois foi pior. Mas ao menos o Lacerda parecia mais inteligente. Ou não. O Cunha parece ter roubado mais. Há que desenvolver. Piada não pode ser só espontânea, improvisada.


Pezão e Cabral são personagens fáceis demais, há pouco o que explorar. E o enjaulamento deles contribuiu pra que não continuassem estrelando anedotas ao vivo, o que dava sempre um frescor. O Eduardo Paes faz as próprias piadas, e elas parecem funcionar. A pior delas foi tentar emplacar o amigo Pedro Paulo na prefeitura, o que acabou dando na eleição do Crivella, piada pronta. E de mau gosto. Tipo aquelas de escatologia, em que espirra algum fluido, normalmente corporal, em todo mundo.


O Temer passou rápido como uma mala de quinhentos mil. Prefere as sombras, os bastidores, os cantos. Podem ser no Porto de Santos ou nos frigoríficos dos irmãos Batista, tanto faz. Só não pode ter crucifixo e alho. E como todo filme de Drácula, há uma moça bonita de coadjuvante. Beto vem tentando, sem sucesso, encaixar aquela história de “vice decorativo”. Quem decora a casa com estátuas de vampiro?


O sucesso finalmente parecia ter dado algum fruto. Foi convidado, mediante uma graninha que seria muito bem-vinda, pra fazer uma espécie de stand up numa festa. O convite veio de uma mesa próxima, num jantar em que o Beto fazia a festa dos amigos, tirando piadas dos baús mais antigos e mesclando com novidades engraçadíssimas. Um fenômeno, o Beto. A mocinha, muito educada, veio até ele e, discretamente, comentou sobre o quanto já rira somente escutando a uma distância relativamente curta, as piadas do Beto. Fez a proposta financeira que surpreendeu nosso humorista amador.


Mais interessado na mocinha até do que na remuneração – que, reitere-se, era muito bem-vinda – o Beto aceitou na hora e pediu até uma semana ao banco para se preparar. Dominava o ofício, contava piadas como ninguém, mas seria um primeiro compromisso profissional.


Mulheres que cantam muito! Veja.


O endereço era estranho, mas atraente. Vieira Souto, praia de Ipanema. Aquela vista impressionante. Nunca tinha subido num prédio daqueles. A mesma mocinha foi buscar o Beto no Catete, no apezinho dele.


A conversa rolou solta, o Betinho soltou uns gracejos pra menina, já tentando criar um clima favorável e se aquecendo pra fazer o povo rir mais tarde, dessa vez sem os amigos de sempre, mas disposto a provar pra si mesmo que daria conta do recado.

Público rico, letrado, podia caprichar no repertório histórico e político.


Encontrou o Temer ainda na portaria. O Dornelles o cumprimentou na entrada, sem mover um músculo da face, claro. Reconheceu o Cunha pela tornozeleira sobre a meia preta no sofá da sala. Jura ter visto ao menos um juiz e um promotor. Dois ministros conversavam alegremente na porta da cozinha. Homens fortes, com camisas da CBF, faziam uma segurança ostensiva, quando anunciaram a chegada de um convidado importante, com a família toda. Vinha de Brasília, mas precisou passar na Barra da Tijuca antes, o que atrasava o almoço.


Começou a passar mal, pediu pra sair, esqueceu a mocinha bonita e jurou nunca mais aceitar convite de estranhos.

Mas juntou um material bom pra novas histórias...

Que podem ser de humor ou terror, a critério.


Rio de Janeiro, novembro de 2021


 

Samba



Escuta!



 

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