PAIXÃO


Chegou na esquina, deu um alô geral pros amigos, entrou no boteco, pediu uma Salinas, que bebeu de um gole só sem fazer careta, e, depois, um chope. Encostou no balcão e ficou escutando o papo: futebol. A turma estava toda lá, e a conversa, às vezes calma, às vezes inflamada, girava, hoje, em torno da Seleção.


Todos torciam por ela, embora não houvesse unanimidade na escalação do time. Discutiam, gritavam e debochavam uns dos outros. Quem passasse e não os conhecesse achava que a briga era iminente. Ele, afastado, só observava, e essa atitude chamou a atenção do grupo, pois era justamente ele quem puxava a discussão, quem falava mais alto e quem mais pilhava os amigos com suas posições sempre extremamente passionais: “Que Neymar porra nenhuma! Deviam chamar o Gustavo Scarpa, que é dez vezes melhor do que ele”.


Uma afirmação dessas deixava os ânimos exaltados e a esquina em pé de guerra. As gozações surgiam: podiam chamar também o Antônio pro meio campo e o Reginaldo Barbicha pra centroavante. O primeiro era o dono do botequim, um português boa praça, dono de uma bela barriga que o impedia de qualquer jogada. Carrinho, nem pensar! Reginaldo Barbicha era escrevente no ponto do bicho. Macérrimo, fumante inveterado, joelho bichado, segundo ele por ter levado uma porrada quando dividiu a bola com Nílton Santos no campo do Botafogo, quando jogava no Madureira. Quem o conhecia bem dizia que a dividida foi, na verdade, com o Genésio, paraibano grosso, cozinheiro do Alcazar, numa pelada do aterro. Alguém escalava o trio de ataque: Scarpa. Antônio e Barbicha, não tem pra ninguém. A turma se mijava de rir. Ele acabava rindo também, e a esquina virava uma festa.


 

MPB Esporte Fino. A melhor playlist de MPB na Spotify.