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O Samba resiste às tentativas de destruição da alma carioca e brasileira. Viva o Samba!


Lais Amaral Jr


Resende não é uma cidade de samba. O gênero não ocupa o espaço que eu gostaria que ocupasse. Pelo menos desde o tempo que estou aqui percebo isso. Há sim, esporádicos momentos onde ele dá as caras. Mas não faz parte da vida musical da cidade que tem prioridade diferente neste campo. É uma cidade interiorana que faz divisa com cidades interioranas de Minas Gerais e de São Paulo e sofre influências. Nada contra mas eu sinto falta de uma intensidade maior do samba por aqui. Por essas e outras que a minha turma, vai, ou vive a planejar idas ao Rio em busca de samba. Nos últimos anos, com pandemia, os eventos escassearam e o próprio trajeto até à Cidade Maravilhosa era uma aventura de risco real.


Essa reflexão fez redemoinho em minha mente como uma justificativa para a maratona, a imersão de samba para qual segui no fim de semana passado. E, confortavelmente, acreditando que o tempo ruim da pandemia se foi e devemos estar retornando à normalidade. No ônibus seguindo para a rodoviária Novo Rio, abro um livro do Jamil Chade. Uma coletânea de artigos do jornalista no jornal El País. Em determinado texto Chade expõe números horripilantes do mundo chamado normal, antes da pandemia: 4 bilhões de pessoas no mundo não contavam com nenhuma medida de proteção social; 821 milhões de pessoas estavam subnutridas; quase 20 milhões de crianças não receberam vacinas no primeiro ano de vida; em 40% dos países do mundo existiam menos de 10 médicos por 10 mil pessoas; somente 60% das pessoas no mundo contavam com uma pia, com água e sabão. É pouco? É pra essa normalidade que queremos voltar? Por mim, não. Precisamos de um outro mundo.


Fecho o livro já quase me achando o praticante de algum tipo de injustiça por estar indo a eventos de entretenimento. Reabro o livro. Mais à frente leio sobre pesquisas realizadas por grades universidades do mundo afirmando que somente 4 das 57 grandes epidemias ocorridas, desde a Peste Negra, no século 14, até à Gripe Espanhola no princípio do século XX, não estavam relacionadas a revoltas populares. A conclusão dos estudiosos é que provavelmente exista uma ligação entre as epidemias e distúrbios na sociedade civil. “Caramba! Em que parte da estatística nós nos encontramos? Haverá uma revolta social no Brasil?”, pensei com meus botões antes de fechar o livro e guarda-lo.


Da janela vejo a Igreja da Penha que me traz sempre boas recordações da infância. O Parque Xangai, as festas. Mas logo volto à realidade lembrando chacinas recentes, Complexo do Alemão, Vila Cruzeiro. Vem à mente outros números que dizem que o Rio é dominado em mais de 50% do seu território por Milícias. Essas mesmas milícias, em alguns casos, organizadas junto a entidades religiosas. Penso em comunidades dependentes do tráfico de drogas, devido a ausência do Estado e me vem a imagem do governador, esse tal Castro, e seus discursos a favor da morte, do extermínio por parte de sua Polícia. Em Resende muita gente se arrepia só de pensar de ter que ir ao Rio. “Uma cidade conflagrada”, exageram alguns. Cheguei na Novo Rio com a sensação de que a ‘Ucrânia é aqui’. Até me lembrei e parodiei na mente a canção do Caetano. Mas nem de longe senti sensação de insegurança. “Essa é a Cidade Maravilhosa”, disse a mim mesmo e devo ter deixado escapulir um sorriso sincero.


Logo, eu e alguns amigos, saltávamos do Uber em frete ao trepidante bar na comunidade do Morro do Pinto. Que maravilha o Bar do Omar. Uma grande bolha, animada e muita gente feliz, ouvindo e cantando samba. Demonstrações que otimismo com o que o mês de outubro pode trazer para o país. Outro amigo, que chegou um pouco mais tarde disse que o taxista demonstrou algum receio de estar subindo uma comunidade “num tempo desses”. Horas depois descemos o morro e um pouco mais tarde nossa trupe desembarcava na Lapa (na verdade fomos a pé desde um bar na Glória para uma pizza gigante à francesa).


O Beco do Rato fica perto. Mais samba e alegria capitaneados pelo excelente Moyseis Marques. Bar lotado, noite arrepiante, ainda mais para gente que estava enferrujada pela distância desses eventos, o meu caso. Conheci e conversei rapidamente com Dona Iracema Monteiro, cantora veterana da noite e que deu uma canja. Noite fantástica. Maratona para lavar a alma. Sobre outubro, muito otimismo, sofre o futuro geral do país e até do mundo, incertezas e algumas especulações temerárias. Foi o rescaldo das conversas e da sopa de emoções da noitada. No Morro do Pinto que deixou o taxista receoso, e na Lapa, aulas de que a alegria, essa energia incomparável, pode promover uma resistência ao movimento de destruição da alma carioca e brasileira. Viva o Samba e que outubro chegue sorrindo.


“A Dina subiu o morro do Pinto

Pra me procurar

Não me encontrando, foi ao morro da Favela

Com a filha da Estela pra me perturbar” (Nega Dina – Zé Kéti)


 

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