O destino nos deve uma. Impeachment-já!


Lais Amaral Jr.


Peço uma licença esta semana para fugir mais uma vez daquela atmosfera que envolve samba, poetas, boemia, que têm sido meus temais habituais aqui na Criativos. É que a mais recente internação do atual inquilino do Palácio do Planalto e mais uma grande manifestação de protesto contra o dito cujo, marcada para este sábado, dia 24, me catapultaram a um tempo em que acreditávamos viver os estertores de morte dos anos de chumbo, com os novos ventos varrendo os vestígios das ruindades daquele período.


Começo com a lembrança evocada, a internação do presidente eleito no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves. A tal diverticulite e outras coisas mais nefastas o levaram à internação num grande hospital em São Paulo para uma agonia que se arrastou por muitos dias. Eu trabalhava num jornal em Nova Iguaçu e o chefe de redação era o amigo já citado nessa revista, Adalberto Cantalice. Ele recolhia material sobre o político mineiro, porque nos parecia certo que o fim era inevitável e Cantalice editaria um caderno especial sobre a vida e a história de Tancredo. Prática comum na Imprensa. E retardou por muitos dias o “fechamento” da edição diária esperando alguma notícia ruim vinda de São Paulo.




Ouça a música AMOR DE INVENÇÃO, de Thiago Kobe e Manu da Cuíca.

Nas plataforma digitais, by Cedro Rosa.


Na época, quando podia, eu costumava dar umas escapadas para a pauliceia nos finais de semana. Já vinha curtindo a Lira Paulistana e também adorava perambular à noite pelo Bexiga. O jornal era diário, mas a edição de domingo ficava nas bancas também na segunda-feira. Domingo era a folga geral. Num certo fim de semana de abril eu não trabalharia no sábado e na sexta me mandei pra Sampa. No domingo à noite ia para o terminal Tietê pegar o ônibus. Dormia na viagem e chegava pela manhã cedinho. Assim acabava o meu fim de semana paulistano.


Era hábito passar antes numa pastelaria na Avenida São João para traçar umas esfihas abertas. Adoro. Foi lá que ouvi um atendente comentar alto com um colega de trabalho: “O homem dançou”. E diante da aparente incompreensão do outro ele completou: “Tancredo morreu”. Passei no Jeca para uma saideira e ver na TV a cobertura que mexia com a nação naquela noite. Pela manhã já a caminho de casa vi pendurado em uma banca a edição especial do jornal, com o caderno sobre o presidente que não tomara posse. De tarde quando cheguei na redação senti a frustração do meu amigo. A edição especial não saíra com o crédito dele. Ele morava no Meyer e não fora avisado que a redação abriria extraordinariamente naquele 21 de abril, Tiradentes.


As manifestações de protestos contra o atual mandatário da nação, vem crescendo, apesar dos cuidados com o risco de aglomeração. Já há quem compare essas multidões com o movimento das Diretas-já! que incendiou o país em 1984. Eu fui ao maior comício pelas Diretas. Palanque próximo à Candelária e a multidão de um milhão de pessoas, espalhada na Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio.



Esquentando os tamborins! Escute essa Playlist!