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Moraes Moreira e João Amarelo, baianos elétricos



Moraes Moreira _ fonte: Youtube

Naqueles tempos estoicos da Nova Iguaçu do início da minha fase adulta, havia lá um cidadão baiano, chamado João Araújo, um cara digno de registro. Apelidado João Amarelo, por membros da colônia de conterrâneos, João não era diferente do contingente de nordestinos que descia ao “Sul Maravilha” em busca de melhores oportunidades. E que não raro, se estabeleciam na Baixada. Mas além de virão como a maioria dos que migravam, ele tinha uma inteligência viva. Era irrequieto e um cara lido.


Entre as virações que empreendia para levar o sustento da casa, em certo período tornou-se empresário avulso de artistas emergentes como a então desconhecida Elba Ramalho, alguns consagrados como Ivan Lins e Gonzaguinha e até veteranos de alto nível como Sérgio Ricardo. Com este, tive a oportunidade de tomar uns chopes. João comandou um pequeno grupo até um galeto nas proximidades do teatro aonde o artista se apresentara. Juro que não perguntei nada sobre o caso do violada na plateia no célebre festival da canção de 1967.


Moraes Moreira, é um caso à parte. Difícil encaixá-lo entre os emergentes porque afinal, vinha do conceituado e popularíssimo grupo ‘Os Novos Baianos’. Mas iniciando carreira solo, era, sim, um emergente. João Amarelo o levou a Nova Iguaçu. Sua apresentação foi no Teatro Arcádia, que ficava bem no centro comercial da cidade. Não era um teatrão. Nem mesmo de porte médio. O prédio fora originalmente a Arcádia Iguaçuana de Letras, com um auditório de cem assentos mais ou menos. Naquela noite, mesmo com João liberando a portaria de graça depois da apresentação iniciada, a ocupação foi de meio teatro.


O irrequieto João Araújo era um cara do bem. Certa vez sugeriu a Adalberto Cantalice, que editava uma revista de cultura e política e vivia na batalha para sustentar a família numerosa, que fizessem e vende-se fotos-posters de pontos históricos da cidade. Ele vendeu os posters para ajudar o Cantalice. Tempos depois João sucumbiria às pressões familiares e retornaria para sua Eunápolis, cidadezinha no sul da Bahia, a caminho de Porto Seguro. Não tardou e Moraes Moreira ocuparia no cenário musical do país, o lugar proporcional ao seu talento, arrastando multidões para suas apresentações. Não caberia mais nas acanhadas instalações do Teatro Arcádia.


Nunca mais vi o João Araújo, uma pena. Já o Moraes Moreira voltei a vê-lo em palcos cariocas e mais tarde, aqui em Resende, onde resido há três décadas. Em 2010 ele se apresentou na tradicional Festa do Pinhão, em Visconde de Mauá. No ano seguinte, ele e o filho, Davi Moraes abrilhantaram o evento que marcou o início do ano letivo no município, realizado no teatro da Academia Militar das Agulhas Negras. Falaram dos tempos dos Novos Baianos e do Sonhos Elétricos, título do livro de Moraes dedicado a Dodô e Osmar, os inventores do Trio Elétrico. Livro que adquiri na ocasião, claro. Textos oportunos, bem informativos e com uma boa carga emocional.


Certa vez, vindo de ônibus de Porto Seguro, passei por Eunápolis. Por todo o trecho não tirei os olhos da janela, na esperança de ver o João Araújo transitando pelo local. Nada. Essas coisas só acontecem em filmes. Foi a última vez que estive, ou devo ter estado, próximo ao João. A última vez que vi Moraes Moreira foi num voo da ponte aérea. Vinha de São Paulo e ele entrou pouco antes da partida. Passou rápido pelo corredor acomodando-se no final da aeronave. Na chegada o vi também saindo apressado.


O tempo passou e certa noite, no ano passado eu estava na padaria do Márcio, no bairro Liberdade, uma das boas padarias de Resende, quando um carro parou em frente ao estabelecimento. Uma senhora ao volante solicitava uma informação. Fui lá e a senhora era simplesmente Baby Consuelo, ou para as gerações mais recentes, Baby do Brasil. Dei a informação e voltei para comprar meu pão, com a mente grudada no passado. Os Novos Baiano, que grupo maravilhoso. Moraes Moreira partira em 2020, um desses anos impiedosos que nos assolam. E veio à cabeça aquela canção premonitória:

“Quem desce do morro

E não morre no asfalto

Lá vem o Brasil

Descendo a ladeira

Na bola, no samba

Na sola, no salto

Lá vem o Brasil

Descendo a ladeira” (Lá vem o Brasil descendo a ladeira – Moraes Moreira/Pepeu Gomes)


 

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