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Moacyr Franco, o artista sem um tempo 1ª parte


Moacyr Franco_reprodução: youtube

Uma das manias consolidadas nesse período cinzento de nossas vidas, foram as ‘Lives’. Num português simplesinho, as transmissões ao vivo via Internet. Virou moda. Curti muito aquela do Gil com seus filhos e as do Moacyr Luz com o Samba do Trabalhador. Vi também Diogo Nogueira misturando samba e comida. Das fixas, vejo um domingo ou outro a da Teresa Cristina com aquela lindeza da sua mãe, dona Hilda. Acabei me ligando mais às ‘Lives’ de jornalismo. Mas se tem alguém que parece ter se afeiçoado a essa renovada forma de comunicação, e até de interação com o público, esse alguém é o Moacyr Franco. Dia sim dia não, lá está ele, ao vivo, interagindo com seus fãs. De repente aparece no celular uma chamada para mais uma Live do homem.


Considero Moacyr Franco um artista dos mais talentosos e versáteis e, até percebo um quê de indiferença da crítica para com ele. O cara não é só cantor e compositor (o que não é pouco). É ator completo, e de quebra, um humorista que fez história. Compartilha dessa opinião o amigo Ricardo ‘Ferrugem’ Paiva. No apagar das luzes de uma das nossas terças-feiras de mesa de bar (que tem os sócios permanentes: Mauricio Schneider, Antônio Carlos, Vagner Barcelos, Elon Viana), nós dois conversamos sobre o Moacyr. O papo rolou sobre a atuação dele como o delegado ‘Justo’, no belíssimo filme ‘O Palhaço’, de Selton Mello. São três minutos antológicos, o que lhe valeu a premiação no Festival de Cinema de Paulínia. Roubou a cena naqueles três minutos. Impagável, como se dizia. Minha tese, frágil, é que por nosso país não ter uma forte tradição de atores cantores, atrizes cantoras, ele foi ficando pelo caminho.


Moacyr Franco é meio onipresente na minha vida, desde sempre. Seu estilo musical está longe de ser o meu preferido. Nunca comprei um disco sequer. Mas desde pequeno ele esteve por perto. Na minha infância, já disse isso aqui, o rádio e a TV viviam ligados em programas musicais. Ouvi música de todos os gêneros, cheiros e sabores. Nacionais e estrangeiras. Naquele tempo as emissoras eram um pouco mais ecléticas. E minha mãe, dona Zoraide, embora fosse fã de carteirinha de Anízio Silva, estava aberta a cantarolar qualquer sucesso que lhe tocasse o espírito. Lembro de uma balada belíssima, uma versão de Nazareno de Brito para ‘Tender is the night’ que virou ‘Suave é a noite’. Bastava o rádio sobrar a introdução e lá ia minha mãe soltando a voz: ‘É tão calma a noite / A noite é de nós dois / Ninguém amou assim / Nem há de amar depois...


Já na época me intrigava como aquela voz macia e até relaxante saía da mesma boca do mendigo estridente daquele programa humorístico, do careca e rechonchudo Manoel de Nóbrega que a família e os televizinhos adoravam. “Quanto é que eu levo nisso?” perguntava o personagem fixando um dos seus bordões, que só perdeu em popularidade para outro bordão: “Me dá um dinheiro, aí”. Bordão este que virou letra de marchinha, dos irmãos Homero, Glauco e Ivan Ferreira. Um super sucesso na voz de Moacyr Franco, no Carnaval de 1959 e que há pelo menos seis décadas, ainda é executada na nossa maior festa popular. Um clássico.


O tempo passou e em 1970 eu era um jovem que, como a maioria dos jovens, sabia de tudo. Mirava meu olhar preconceituoso para o que não parecesse ser do meu tempo. Jamais conversaria com um amigo sobre Moacyr Franco. Não cabia. Era “ultrapassado”. Nunca fui de espezinhar o que passou. Expressão artística não tem idade. Mas não parecia pertinente para uma turma recém entrada na puberdade se aninhar com criações de anteontem. Mas confesso que tremi quando ouvi o estrondoso sucesso ‘Balada nº 7’. Como botafoguense, aprendi a adorar Garrincha, o ’Anjo das Pernas Tortas’ e não tinha como não balançar ouvindo aquela música. Não tive personalidade suficiente para comentar com a turma que gostava muito da canção. Bem depois eu li que ela fora composta por Alberto Luiz, para Ipojucã, craque do Vasco da Gama. Moacyr teria convencido o amigo compositor a fazer umas mexidas e que o tributo ficaria mais forte e abrangente se fosse para Garrinha. Mexidas feitas, Moacyr estava certo. Ainda hoje a balada pulsa, até como uma metáfora da própria existência.

“Sua ilusão entra em campo no estádio vazio Uma torcida de sonhos aplaude talvez O velho atleta recorda as jogadas felizes Mata a saudade no peito driblando a emoção

Hoje outros craques repetem as suas jogadas Ainda na rede balança seu último gol Mas pela vida impedido parou E para sempre o jogo acabou Suas pernas cansadas correram pro nada E o time do tempo ganhou

Cadê você, cadê você, você passou O que era doce, o que não era se acabou Cadê você, cadê você, você passou No vídeo tape do sonho, a história gravou” (Balada Nº 7 - Alberto Luiz)


 

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