Medieval



Ele tinha perdido o contato com o seu tempo. Já há algum tempo, mergulhado pela atividade num mundo de personagens históricos, seguia dando suas aulas de história medieval na faculdade particular que ficava relativamente perto de casa e que o aceitou mesmo após a licença para tratamento de saúde compulsoriamente oferecida pela universidade federal em que tinha sido chefe de departamento e coordenador do curso por muito tempo.


O fato de andar vestido com roupas de cavalaria já não era nem surpreendente no bairro e na escola. Falava com propriedade sobre vassalos, suseranos, feudos, catedrais góticas, a influência dos papas, as cruzadas e outros eventos que marcaram aquela era, só trocando os trajes quando precisava ilustrar algum subperíodo mais específico, como a criação das ordens religiosas, a peste, o renascimento.


A mulher e os filhos tinham ido embora e a faculdade tinha contratado dois funcionários apenas pra fazer o trabalho burocrático de apoio docente ao Claudio, já que ele havia se desligado, e fazia tempo, dessas tarefas básicas. Não preenchia os diários, não repassava as listas de notas, sequer corrigia as provas. Dava aulas em primeira pessoa, com uma propriedade tal que impressionava aos alunos, que viviam entre maravilhados e amedrontados. O risco da forca em praça pública ou da morte em um duelo no pátio da faculdade parecia ser real, tamanha a fidelidade das aulas ao período.


As turmas, em que se acotovelavam estudantes de cursos diversos, não somente os de história, atraídos pela excentricidade do professor, foram divididas em feudos, numa clara demonstração de interesse na descentralização do poder, típica da época. Os alunos, de maneira geral, gostavam muito do que acontecia em sala, a despeito de eventualmente o professor Claudio se exceder na fidelidade, ficando dias sem tomar banho ou, num acesso de radicalização, falar por duas horas em latim, sem concessão. A faculdade tinha mesmo disponibilizado um curso de latim para quem se interessasse, de olho na demanda das turmas do Claudio. A maioria não fazia, e passava o semestre sem entender pelo menos uns vinte por cento do que dizia o aplicadíssimo professor.


Ninguém deu bola quando ele começou a reunir um grupo de alunos mais radicalmente identificados, que tinham inclusive feito o curso de latim. Após três ou quatro encontros, apareceram todos vestidos de cruzados. Não pareciam agressivos como os originais e ao menos num primeiro momento demonstravam interesse apenas em mostrar suas roupas. As espadas vieram depois, mas ainda sem clara ameaça aos demais ou a qualquer pessoa. Eram espadas cenográficas, sem corte. Assustavam aos desavisados, mas faziam um estrondoso sucesso entre quem conhecia o caso do professor louco e de seus cursos de imersão naquela fase da história. A capela da faculdade, reformada com motivos góticos, com a ajuda de um carnavalesco da escola de samba do bairro, ajudava a dar contornos cada vez mais reais ao devaneio coletivo. Ao menos as meninas também participavam, ao contrário do que ocorria na idade média de verdade, mas começava a haver preocupações, ainda leves, sobre a interpretação das demais disciplinas, considerando a tendência à negação do conhecimento, que poderia vir junto com aquelas estranhas manias neomedievais.


Aconteceu de um jeito estranho, ainda mais estranho que o conjunto dos acontecimentos, que há muito não podiam ser considerados normais. Claudio, já completamente alienado do presente, foi convidado pela professora de história contemporânea para participar de uma aula especial, onde se discutiriam heranças culturais diversas que vieram da idade média e chegaram aos nossos dias, tais como grandes obras artísticas, arquitetônicas ou mesmo conceitos e técnicas.

A chegada do professor e de seu séquito de cruzados (alguns, para fins ilustrativos, vestidos com roupas que lembravam as diversas ordens religiosas criadas pelos papas da época, mas a maioria com o tradicional uniforme das cruzadas) foi um grande evento, por si só. Cada vez menos razoáveis, chegaram montados em cavalos, conseguidos não se sabe onde. Os trinta cruzados e monges ocuparam grande parte do auditório, mas funcionaram como um atrativo, que fez com que o evento fosse um sucesso.


Ao final, sem que se chegasse a uma conclusão clara sobre a influência do período medieval para a consolidação da sociedade que temos hoje, apesar da manutenção das ordens religiosas e da rigidez das estruturas góticas ainda espalhadas pela velha Europa, a professora de história contemporânea fez uma breve análise de conjuntura, parte fundamental da disciplina e sempre necessária. Os personagens de época, fiéis seguidores do professor e de seus medievalismos, espantaram-se muito com aquela dose de realidade. Instruídos sobre o atual governo do Brasil e seu permanente flerte com a barbárie, iniciaram um burburinho, em latim, de revolta.


Revoltaram-se principalmente com a o fato de que aqueles imbecis, que ora ocupavam os cargos máximos da república, eram frequentemente chamados de medievais, ultrapassados. Para os recém autoproclamados defensores da honra da idade média, isso era um escárnio. Afinal, ao menos a cultura e a arte eram fortemente valorizadas! E, a seu modo, a medicina e a saúde foram objeto de preocupação continuada.

- O mundo nos deve a Notre Dame de Paris!!!

- O mundo nos deve o renascimento!!!

- Nós vencemos a peste!!!