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Mamãe e Papai


trabalho de Edgar Duvivier

Um dia, quando eu e meu irmão éramos pequenos, estávamos prestes a sair da praia com papai, depois de termos conseguido fazer esculturas na areia, durante algumas horas de rigor e paciência. Orientados por nossos pais escultores, frequentemente treinávamos modelar o leve e fugidio chão arenoso para participar de uma competição para jovens naquela mesma praia dali a algumas semanas.


Percebendo que íamos nos afastar das obras que tínhamos feito, alguns garotos se juntaram ali perto e olharam para elas de um jeito que imediatamente transmitiu sua intenção predatória a papai. Ele pôde ver que tão logo nos afastássemos, aquele bando destruiria as formas que conseguimos destacar da uniformidade de um chão evasivo com tanta tenacidade. De fato, eles nem bem esperaram que acabássemos de juntar nossas coisas para começar a dar pontapés frenéticos nas nossas esculturas.


Com uma seriedade que dispensava qualquer tom de reprovação em sua voz, papai nos disse:

“Vocês nunca devem destruir nada a não ser que consigam refazer melhor o que destruíram.”

Olhando a fúria com que os garotos vandalizavam o que fizemos, percebi a tentativa de compensarem sua incapacidade de fazer o que tínhamos feito com o falso poder da agressividade, e vi como era ridículo disfarçarem sua impotência em raiva.


Afastamo-nos deles com o compromisso de sempre fazer melhor, não porque quiséssemos destruir alguma coisa, mas porque, no mandamento de papai, a condição “a não ser que consigam fazer melhor” nos fez ver a mesquinhez de nem mesmo tentar ser dignos do que poderíamos admirar, ainda que somente aprendendo alguma coisa sobre nossa admiração ou sobre nós mesmos através do que admiramos.


Há mais de vinte anos, num dia em que me queixei a um analista sobre o que considerava incoerente na maneira em que fomos educados, a consciência de que meus pais já eram velhos me assustou. Embora nada seja mais natural do que criticar papai e mamãe para nosso analista, eu já morava fora havia tempos e me perguntei se algum deles morresse de um momento para o outro, eu me sentiria culpada. Já tinha muito com o que lidar por te-los deixado tão longe, e minhas restrições sobre como agiram poderiam fazer com que me sentisse eternamente ingrata. Embora por natureza eu acredite, ou gosto de pensar que acredito, na capacidade individual das pessoas se recriarem, será que continuaria a viver me sentindo vítima dos erros de meus pais para sempre?


O analista era mais velho do que eu e já era órfão. Disse-me que com o tempo, os sentimentos que temos para com nossos pais tendem a dar lugar ao amor. De fato, através dos anos que se passaram depois que meus pais se foram, revisitei minha juventude e fiz as pazes com o passado. Para minha surpresa, senti gratidão por meus pais terem sido quem foram. Ambos se dedicaram à arte, mas podiam contar com a renda de um pequeno apartamento alugado de papai e não precisavam viver do seu trabalho. Herdamos seus dons artísticos, e eles esperavam que fossemos sempre criativos. Devíamos fazer desenhos dos filmes que víamos, escrever diários e questionar nossa vida, praticar nossos instrumentos musicais e participar de concursos de arte. Mas sempre que ganhávamos o prêmio de algum concurso, que em geral era uma viagem ou bolsa de estudos na Europa, nossos pais decidiam deixar o prêmio para quem tivesse tirado segundo lugar. Nosso sobrenome era associado `a fortuna de nosso avô e eles achavam que sendo o meio artístico em sua maioria de esquerda, o júri se revoltaria com o fato de tirarmos a oportunidade de outros competidores menos favorecidos financeiramente, como aconteceu quando mamãe ganhou primeiro lugar em escultura e teve que levar o caso `a justiça para receber a bolsa de estudos que lhe era devida. Mas a despeito da posição de nosso avô, nós não contávamos com muito, não podíamos financiar qualquer viagem ao estrangeiro, gostaríamos de ir pra Europa `a custa de nosso próprio mérito, e nunca entendemos a razão de papai e mamãe nos fazerem participar daqueles concursos. Além da incoerência de competirmos sem poder ganhar o prêmio, nunca fomos mandados a qualquer escola de arte que nos desenvolvesse no mundo além das quatro paredes de nossa casa. O princípio que governava nossa vida era o da arte em si; arte acima de recompensa financeira ou de qualquer utilidade. Nossos pais não davam a mínima para nossa vida acadêmica porque a consideravam inferior `a nossa atividade artística, mas não podiam nos ver simplesmente brincando sem nos culpar por estarmos, na sua opinião, esperdiçando tempo. A fidelidade à arte sem objetivo, como uma religião, exigia o voto de sermos criativos durante todas as horas do dia, mesmo que simplesmente trocando ideias e opiniões.


Mamãe e papai olhavam para a vida de maneiras opostas. Ela encontrava mágica na nossa visão poética da realidade, desenvolvia nossa imaginação mítica e acreditava na existência de muito mais do que os olhos podem ver. Ele, por outro lado, achava um dever nos mostrar que a vida é absurda e nada mais existe além da matéria. Mas apesar de seu ateísmo e do panteísmo de mamãe, ambos nos transmitiram o sagrado da criação.


Agradeço a Deus por terem ambos, mesmo que raramente chegassem a algum acordo, passado pra nós a mensagem de que o respeito incondicional existe.

Por terem nos transmitido, a despeito de suas crenças e opiniões, a realidade da Alma.

Por terem sido criativos sem parar.

Dou graças a Deus por sempre terem avaliado sua atividade em si mesma ao invés dos objetivos a serem alcançados através dela.

Por terem sido incapazes de usar o presente em função do futuro, mesmo que isso não lhes permitisse um grão de praticidade.

Agradeço a Deus ter tido pais que só mentiram pra poupar outros e não pra tornar as coisas mais fáceis pra eles próprios.

Que nunca esperavam que se curvassem para eles, como nunca se curvaram para ninguém.

Que eram péssimos pra falar sobre dinheiro e ainda piores para fazê-lo.

Por não saberem calcular o preço de nada, mas conhecerem o valor de tudo.

Que estavam sempre prontos a aprender e nunca ligavam para a imagem que pudessem dar a outros.

Que honravam valores que estão além do utilitarismo, da temporalidade, e do auto interesse.

Que em poucas palavras, viviam em contacto com a dignidade de cada ser.


 

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