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VALEU, MIRO!



PAULO CASTRO / Paulinho do Cavaco


Pena, Miro! A parceria acabou. Fico observando o seu corpo estirado na calçada, esquina de Princesa Izabel com Nossa Senhora de Copacabana. Infartou, né? Todo mundo avisava: olhe a gordura na barriga, faça dieta, caminhada...


Mas qual o quê! Aposentado, relaxou geral. Vez em quando, uma caminhada de meia hora no calçadão, pensando no pão francês com manteiga, no belo bife com fritas, no sorvetinho, na goiabada com queijo, no chopinho com os amigos... Agora, Miro, você está aí, cercado de uns poucos curiosos desconhecidos, olhos abertos refletindo o céu estrelado de Copacabana. Você vai me desculpar, mas não vou ficar aqui choramingando ao seu lado, não. Prefiro guardar sua imagem de boêmio e levá-la comigo nesse derradeiro passeio pelo bairro que você tanto amou. Como vê, já estou usando o pretérito perfeito.


Miro, você sabia aproveitar Copacabana, principalmente à noite, e, o melhor, me arrastava junto. Já que estou aqui perto, vou dar uma passadinha no Beco da Fome. Como sempre o balcão da Lindaura está lotado. O seu angu é famoso. É o reforço que os noctívagos precisam para se sustentarem na madrugada. Nós íamos lá duas ou três vezes por semana. Na rua, uma mistureba danada: malandros, trabalhadores, artistas, estudantes... Uma festa! Um frequentador assíduo, morador da rua, era o carnavalesco que desfilava no Municipal, ganhador de vários prêmios com suas fantasias belas e luxuosas. Dele, você recebia um abraço afetuoso. Terminado o angu, conta paga, você cumprimentava os conhecidos, trocava algumas palavras rapidamente e continuávamos a caminhada.


Beco das Garrafas. Também era sua parada obrigatória: gostava da Bossa Nova e era frequentador do Bottles. Por vezes, ficava de papo no beco, atento a uma possível garrafa na cabeça. Bom de conversa, tornou-se íntimo das grandes figuras da música: Menescal, Lira, Alf, entre outros, além da maior, na sua opinião, Elis. Ali, também, começava a sua noite etílica. A boate foi fechada, a Bossa ficou restrita a uns poucos lugares, quase guetos, os músicos se dispersaram, alguns morreram. Não havia mais por que parar lá. O barquinho vai, o barquinho vem e ficou à deriva.


E aí, moçada! Você chegava e já havia uma cadeira pra você no Alcazar. Fala, Mirinho! E você falava. Era um causo, uma piada, o relato, nem sempre verdadeiro, de uma nova conquista. Defendia com firmeza o Fluminense, mesmo na derrota, gerando discussão. Jamais tristeza. Essa guardava só para você. Era benquisto na turma por seu espírito elevado e altruísta. Aliás, depois dos três ou quatro chopes, acumulados com os cinco uísques do Beco, seu corpo se sacudia nas gargalhadas e seu espírito ficava elevado mesmo! Amanhã, todo mundo na rede da Tia Leah, falou? A rede era famosa: reunia profissionais do vôlei, alguns amadores talentosos e você, que ficava na cadeirinha, tomando uma cerveja e comentando as jogadas. Nada de machetes ou cortadas. Sacar... só outra cerva do isopor.


A saideira era no Pigalle, posto seis. Ali, conversa era outra: Dina. Ela largava às quatro horas da manhã como recepcionista da boite Mariusin e vinha encontrar-se com você para um chopinho, um papo e uns beijos preparatórios para uma noite de amor. Hoje, porém eu a encontro sozinha na mesa, olhando, ansiosa, o relógio, pensando no que poderia ser o motivo do atraso. Não consigo falar nada e fico observando a distância. Bem, vou pro apê, ela decide. Paga os dois chopinhos e se dirige ao ponto de ônibus para ir ao Leme. Ainda bem que estou aqui e não vou ver a surpresa e a tristeza do que a espera. Tchau, Dina. Não podemos fazer mais nada por ele. Eu também me sinto meio perdida e já é hora de me recolher.


Vou em direção à igrejinha do alto do morro, que nunca deixou de existir para mim: a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana. Lá, vou fazer minhas últimas orações e, finalmente, me despedir de você. Valeu, Miro, por me acolher em seu corpo. Tenho de me apressar para entrar na igreja, pois trocaram a oração pelo canhão: em seu lugar vai surgir o Forte de Copacabana e eu posso ficar presa no corpo de uma sentinela. Já pensou? Sei não... Ainda bem que estou de partida. Fui!


 

Conheça as músicas de Paulo Castro, escritor e compositor.


Saudade de Meus Botequins /


"Reunião de Condomínio", de Paulinho do Cavaco, gravado no disco do Bip Bip, produzido pela Cedro Rosa.



Escute o disco Roda de Samba no Bip Bip





Saudade de Meus Botequins / Paulinho do Cavaco e Luis Pimentel

 

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