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LARVAS




Se a memória não me trai, já devo ter declinado aqui os meus maiores medos. Não são muitos, é verdade. Vivo no Rio de Janeiro e por aí dá pra saber que preciso ser ressabiado (palavra sensacional!!!) com algumas coisas, mas me considero bem dentro da média. A aproximação de duas pessoas numa moto, por exemplo, geralmente faz arrepiar pelos onde eles nem existem na maioria das pessoas; nas ladeiras de Santa Teresa, no entanto, normalmente é só um moto-táxi carregando alguém pra casa ou pra algum compromisso.


Voltando aos meus medos, durante muito tempo, a maior parte dos meus já numerosos anos sobre essa terra, a coisa que mais me tirava do sério era carne podre com larvas de mosca. Isso. Nem ratos, cobras, baratas, altura, multidão, assalto, tiroteio. Nada disso. Mas larvas de mosca mexiam com algum mecanismo cerebral de pavor que me desestabilizava completamente. Cada louco tem a sua mania. Ou manias. Cheguei mesmo a sonhar, repetidas e malfadadas vezes, com a cena terrível de “A Mosca”, aquele filme de horror-ficção, refilmagem de “A Mosca da Cabeça Branca”, em que nascia uma larva enorme, fruto também da imaginação do personagem principal, já geneticamente modificado pelos genes do inseto.


Pois bem. Muito recentemente, por alguma razão que me escapa, mas que venho tentando entender, esse pavor foi passando. Ainda não estou imune a um encontro eventual com a larva gigante, mas já não corro o risco - como já corri - de colocar fogo na casa diante de um pequeno foco de larvas, por exemplo.


Pode ter sido a minha tomada de consciência sobre perigos muito maiores e capazes de causar estragos muito mais significativos. Ou talvez a efetiva percepção de que as varejeiras não estão fazendo mais que o seu papel na natureza, onde ocupam um lugar que pode ser considerado estratégico (ajudam a eliminar a sujeira) ou muito subalterno (ficam com os restos), de acordo com a forma que você hierarquiza as coisas.


A única coisa que talvez explique esse aparente destemor que cultivei frente a alguns medos comuns da maioria é o ambiente ao qual fui submetido nos primeiros anos. Longe de ser hostil, ele naturalizava coisas que hoje compreendemos que não deveriam ser assim.


Senão vejamos:


Negro, fui criado num mundo em que a escola nos fazia naturalizar o passado de escravidão. Não raro, e não por culpa de professores ou de quem quer que fosse no final da linha, éramos informados de que “os negros viviam daquele jeito” durante os quatro primeiros séculos da história do Brasil. Eventualmente um samba enredo ou a leitura de um Castro Alves alertava para o contrário, mas eram esporádicos. No mais do tempo, era praticamente considerado natural. Éramos treinados, inconscientemente, para tolerar o racismo. Afinal, descendíamos de escravizados. E durante grande parte da minha vida, o regime do apartheid vigorou na África do Sul, sem grandes reações do resto do mundo.

Também me soava normal o silêncio diante das atrocidades dos governos militares. Eu até tinha esporadicamente acesso ao Pasquim e outras publicações. Alfabetizado cedo, tive a sorte de ter na vizinhança gente que lia coisas interessantes. Mas todo mundo tinha medo de falar. Só já na abertura, finalzinho do Geisel, é que mais e mais gente soltou o verbo. E na Baixada, soltar o verbo ainda não significava muita coisa. Eu fui educado pra não achar nada demais naquele silêncio.


Um dos maiores descalabros do século XX, se não o maior, o holocausto nos era apresentado na escola como uma coisa terrível, claro, mas ainda mais como um fato histórico isolado, sem repercussões posteriores, como um pequeno erro histórico da Alemanha, que afinal era um grande país a ser imitado. Hein?? Também me educaram – e a muito mais gente - pra achar isso praticamente normal.



Música instrumental, ouça!



Eram muito comuns, mais do que seríamos capazes de supor hoje em dia, as cenas de violência doméstica. Esses olhos meus, hoje carregados de miopia e astigmatismo, viram mais de uma vez mulheres correndo pela rua com o marido atrás portando algum instrumento contundente. Na Baixada dos anos 70 era a regra, quase. E ainda assisti ao deprimente espetáculo de uma senhora com uma panela inteira de macarrão jogada, com molho e tudo, sobre os cabelos dela. Em casa, graças aos céus, nunca houve nada que sequer remetesse à violência. Ao menos isso. Mas taí outra coisa que naturalizávamos.


Polícia. Como nasci pobre e negro, esse tema me diz respeito. Mas pelo fato de termos policiais na família, fui levado a naturalizar as dezenas de abordagens que sofri apenas por causa da minha aparência. Nem sempre eu tinha os documentos em dia, sempre fui meio desleixado com isso. Só por muita sorte, muita mesmo, nunca houve consequências mais sérias. E eu não temia a polícia.


Aos poucos, nos anos 70 ainda, fui apresentado a uma igreja que questionava o que existia. O silêncio frente à opressão, o racismo, as injustiças. Fui levado, naquela época da inocência, a não temer a igreja e seus pastores.


Não quero invocar aqui a compaixão dos leitores, longe disso, mas se hoje temo e questiono as coisas certas, foi preciso muito tempo, muito estudo, muitos jornais e livros, muita convivência com as pessoas certas, muito tempo de janela.


As moscas, coitadas, fazem apenas a parte que lhes cabe, mesmo que eu ainda não as considere simpáticas. Há seres muito mais nojentos soltos por aí que, com o suporte de blogueiros, base parlamentar, cercadinhos, rachadinhas, seguidores de redes sociais, igrejas e líderes religiosos alinhados com o que há de pior, mentem e fazem coisas horríveis, contaminando os ambientes, semeando o horror, capazes de provocar náuseas e ânsias de vômito bem mais intensas que um naco de carne podre.


E moscas e larvas nem tentam convencer ninguém a pensar como elas, são bem mais úteis.

Perdão, mosquinhas.


Rio de Janeiro, novembro de 2021.


 

Ouça!



Como cantam bem!



 

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