Joanna já era uma Fátima muito talentosa


Lais Amaral Jr.


Voltando no tempo, retorno à Baixada Fluminense na época da turbulência juvenil. Finalzinho dos anos 70. Estou sentado ao balcão do 'China', uma pastelaria localizada à Rua 13 de Maio, Centro de Nova Iguaçu. (‘China’ não era propriamente o nome do estabelecimento). Tinha a melhor esfiha entre os asiáticos estabelecidos na cidade. Só não era melhor, claro, que as do Beirute. Por razões óbvias. Essa pastelaria ficava próximo do ponto do meu ônibus. Lá estava eu saboreando a iguaria antes de pegar a condução para casa, quando sentou no banco ao lado uma conhecida que eu não via há meses. Cumprimentei: "Oi, Fátima". E ela, que até então não tinha me reparado, respondeu: "Oi, tudo bem contigo?"


Naqueles tempos a Baixada vivia uma efervescência social, política e cultural numa proporção diretamente inversa com a visível decadência do governo autoritário. Os movimentos e as organizações político-sociais se multiplicavam. A região era cobiçada por grupos politizados que espalhavam novidades, avidamente absorvidas. Em Nova Iguaçu, a cidade mais populosa da Baixada alguns desses movimentos se entrelaçavam, colocando política e artes num mesmo balaio. Eu vivia com os pés na literatura, na música e a cabeça alada sobrevoando sonhos revolucionários. Se um dia assistíamos uma peça de autor local no Teatro Independente, no outro já discutíamos uma identidade cultural para a região e uma saída política para o país. Era o nosso dia-a-dia.


 

O melhor da Música Popular Brasileira nesta playlist robusta!