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 INSEGURANÇA



Todo aniversário abre uma página nova, mas principalmente fecha um capítulo. Era essa a teoria da Diana. Morria de medo de as histórias acabarem, como já tinha ouvido uma professora dizer. Não sabia exatamente quando tudo ia começar a parecer déjà vu, mas morria de medo que essa hora chegasse. Quando fez 50 anos, e não faz muito, tinha começado, um pouco antes, um inesperado romance com um bonito, competente e inseguro ex-aluno de 30.


Não planejara aquilo. Mas  afinidades passadas, do tempo da sala de aula, apareceram maiores agora, no samba animado em que se reencontraram. Ela comemorava com as amigas a perspectiva dos 50 anos e a brecha na legislação que permitia que se aposentasse em pouco tempo. Adorava seus alunos do ensino médio, mas queria dedicar um pouco mais de tempo pra outras atividades, cuidar de si, viajar, quem sabe até ganhar um pouco mais de dinheiro numa atividade comercial qualquer.


Tinha paixão pela profissão, dedicara seus melhores anos ao magistério, se aperfeiçoara muito e era querida por todos, mas já eram trinta anos de sala de aula, desde que, na flor dos vinte, recebera a primeira turma, diário, caixa de giz e apagador. O menino, por sua vez, foi seu aluno aos quinze, no início do ensino médio. Inteligente, bonito e deprimido, origem humilde de comunidade conflagrada. Faltava à escola quando a polícia subia o morro. Quinze anos depois era músico de artistas famosos e tinha saído do morro.


Entre uma turnê e outra, estava no samba e – surpresa!! - encontrou a Professora Diana. A conversa foi boa. O André mantinha a reverência diante da professora. Ela sentiu um pequeno desconforto, mas nada que ligasse algum alerta. Mais meia hora de conversa regada a caipirinhas e a intimidade aumentou. Os músicos da roda anunciaram a presença do André, querido e consagrado entre eles, mas ele não entrou na roda. Saudou a todos, agradeceu e continuou o papo com a professora, a essa altura bem impressionada inclusive com seu próprio trabalho. Lembrava aos poucos ter incentivado o talento musical do menino, que era tímido, mas competente. Tocava na banda da escola e carregava a flauta, herdada do avô, pra cima e pra baixo.


Diana era uma mulher muito interessante. A natureza tinha sido generosa com ela no aspecto físico. Ela mesmo cuidara do aspecto intelectual. Desde cedo se dedicara aos estudos com aplicação exemplar. Não queria repetir experiências familiares anteriores. Os maus tratos sofridos por mãe e tias, domésticas e casadas com homens violentos ou machistas ao extremo. Saiu de casa antes de terminar a faculdade de psicologia, surpreendentemente cedo. Mas optou pelo magistério. Era inexperiente e tinha medo de precisar lidar com os problemas dos outros num consultório.


Quando assumiu a primeira turma de psicologia num curso de formação de professores, era mais nova que parte significativa de seus alunos. A conquista da confiança dos estudantes e colegas não demorou. Aos quase cinquenta, seguia solteira, bonita e segura de si. O André, como não seria difícil prever, não resistiu. Não que ela tivesse lançado sobre ele algum charme mal (ou bem) intencionado. A conversa fluiu fácil, a identificação aconteceu e em pouco tempo saíram juntos pra um local menos público.


Foram seis meses de uma alegria tão incontida quanto inesperada. Uma mulher adulta, madura e independente e um músico mais jovem, bem menos experiente, mas assediado por mulheres mais novas em viagens, shows. Novo desconforto com a situação. Não o suficiente pra terminar a brincadeira.  Era segura o suficiente para não temer esse tipo de “ameaça”. Mas chegava a hora da festa de aniversário de 50 anos. E ela seguia seu próprio mantra interior de fechar um capítulo ou começar um novo.


Combinou com duas outras amigas, as melhores, uma festa com samba e muita gente. Precisavam celebrar. Tinham vivido muita coisa juntas. Namoros, viagens, trabalho. Chegaram a dividir apartamento por um tempo. Preferiram a amizade à proximidade doméstica. Hábitos diferentes, formas distintas de gerir a casa, mas muito amor entre elas. Uma das três, a Mirtes, tinha três irmãos homens. A outra, Nívea, tinha um. Diana era a mais nova de três irmãs. Não se dava com elas, que seguiram a triste sina das mulheres mais antigas da família. Até  queria muito estar mais próxima, mas eram elas mesmas que a evitavam. Com o acréscimo da religião, achavam que Diana não era bom exemplo pros sobrinhos. Solteira e de roupas curtas aos 50 anos? Boa coisa ela não era!


Os irmãos da Mirtes foram os primeiros a chegar pra preparar o local da festa. Os três eram jogadores de basquete. Um deles profissional e dois de basquete de rua. Mirtes e Nívea se ocuparam da programação e a Diana foi terminar o seu dia de preparação pessoal. Academia, maquiagem, vestido, essas coisas que ela mesmo se deu de presente. O André estava em turnê fora do Brasil. Prometeu fazer uma ligação de vídeo durante o dia, mas ela acreditava ele faria isso na hora da festa ou ao menos bem mais tarde. Relaxou.


Quando as pessoas começaram a chegar, o cenário estava lindo, as três aniversariantes estavam maravilhosas e o samba começava a esquentar. Diana, era muito querida e meio líder entre as outras. Os irmãos de Mirtes tinham, os três, uma queda pela amiga da irmã, mas eram amigos também queridos e nunca houve qualquer coisa entre ela e nenhum deles.

Quando chegaram, juntos, causaram alguma comoção entre as moças presentes. Mas juntaram-se, os três, e levantaram a Diana com absurda facilidade. Depois cada um deles a segurou um pouco antes de colocá-la de novo no chão, sorridente e alegre.


Foi na passagem entre o do meio e o mais novo – e mais alto – que o André apareceu na porta, para surpresa de todos.

Ao ver a cena, Diana sendo abraçada por aquele homem enorme, o inseguro André estatelou os olhos, voltou pro carro e foi embora.

Diana assistiu a tudo impressionada.

Mas o alerta tinha ligado antes.

Ela morria de medo de déjà vu.

E aquela insegurança ela não queria rever. Não precisava daquilo.

 Já foi tarde!

 

Divino, MG, maio de 2024.


 

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