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GRACINHA



Gracinha vinha distraída no metrô, enquanto passava em revista a sua própria história. Aos 22 anos, não era um prodígio em nenhuma atividade em particular, se sentia uma menina muito semelhante às demais do seu entorno, gostava de sair, namorar, se preocupava com o final do curso na faculdade, tinha muitos amigos, gostava muito dos pais e dos amigos deles. Pois bem. Dos pais vinham os predicados que a tornavam única e diferente entre seus próprios amigos e nos ambientes que frequentava.


Ela fora adotada ao nascer, por um casal até então sem filhos aos 50 anos de idade, no ano 2000. Nascidos em 1950, eram crianças quando surgiu a bossa nova, adolescentes no golpe de 1964, estudantes universitários e tropicalistas no AI-5, exilados em 72, clandestinos em 75, anistiados em 79. Viveram como poucos as aventuras de um Brasil tanto sofrido quanto criativo e pulsante. Na maturidade, estabelecidos, professores universitários, foram agraciados – com e sem trocadilho – com a Gracinha.


Sem carro por opção ideológica, passaram muitos perrengues com a criança no transporte público, o que contribuiu para a desenvoltura da Gracinha no metrô e nos ônibus confusos da cidade. Pela mesma opção, nunca trocaram o apartamento na Tijuca, perto da uma comunidade muitas vezes conflagrada e visitavam constantemente a favela, onde tinham feito muitos amigos e desenvolviam, aos sábados, um projeto de reforço escolar e preparação para os exames de admissão às escolas técnicas e universidades. Sempre com a criança a tiracolo.


Gracinha cresceu num ambiente de discos e livros organizados com alguma rigidez. Os discos e CDs eram dispostos por década do lançamento original, não por artistas. A maioria absoluta era da MPB, com o samba e o choro ancestrais reinando absolutos. A discoteca era cheia de Callado, Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Sinhô, Donga, João da Baiana, Ismael, Pixinguinha, Benedito Lacerda, Noel, Geraldo Pereira, Wilson Batista, Carmem Miranda, Assis Valente, Bide e Marçal, Galhardo, Orlando, Mario Reis, Silvio Caldas, Chico Alves, Herivelto, Ataulpho, Dalva e mais muitos. Do Nordeste vinham Catulo, João Pernambuco, Luiz Gonzaga, Capiba, Sivuca, a poesia de Patativa do Assaré. Em inglês, as vozes eram poucas, mas marcantes. Billie Holliday, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Nina Simone, Alberta Hunter, Louis Armstrong, Beatles, Joan Baez, Bob Dylan. Mas os instrumentistas do Jazz eram inúmeros. De cor, lembra de Charlie Parker, Dizzie Gillespie, Miles Davis, Duke Ellington. Em francês tinha Piaf, Serge Gainsbourg e Yves Montand. Em espanhol, ouviu muito Mercedes Sosa, Pablo Milanés, Silvio Rodrigues e Raíces de América.


As estantes guardavam infinitos tesouros acadêmicos e literários. Lembra muito dos pais lendo Sartre em francês, mas os Paulo Freire e Darcy Ribeiro também viviam em cima da mesa. E muito Hobsbawm, Gore Vidal, Umberto Eco. E muito mais gente! Era Walter Benjamim, Adorno, Marcuse, Habermas, Platão, Aristóteles, Espinosa, Sergio Buarque. E tome Saramago, Borges, Neruda, Jorge Amado, Dostoievski, João Ubaldo, Vinícius de Moraes, Graciliano, Rachel de Queirós, Zelia Gattai, Clarice Lispector. Mas Gracinha era do ano 2000. Uma criança perdida naquela Disneylândia adulta de “conteúdo”, que é como informação e conhecimento passaram a ser conhecidos na geração dela. De todo modo, gostava de tudo aquilo e tinha especial predileção pela estante de música do fundo da sala de TV, que tinha a MPB da bossa nova para diante. Começava, sempre por data, em Agostinho do Santos e Elizete Cardoso e vinha até os últimos lançamentos de Bethânia, Caetano, Chico, Milton, Gil, Paulinho, Gal, Tom Zé. E passava por Elis, pelos festivais, pelos obrigatórios e sensacionais Aldir Blanc e João Bosco, Gonzaguinha. E tinha Tim Maia, Ivan Lins, Sidney Miller, Beth, Clara, Alcione, Emilio, João Nogueira e Paulinho Pinheiro, Gudin, Adoniram, Vanzolini, Melodia, Fagner, Elba, Zé Ramalho, Dominguinhos, Hermeto, os meninos e meninas do samba da Lapa. E muitíssimo Tom Jobim, Vinícius, Baden, Toquinho, Billy Blanco, Nelson Cavaquinho, Cartola, Padeirinho, Época de Ouro, Jacob do Bandolim, Novos Baianos, Angela Maria, Cauby, Maysa.


Enquanto inventariava a vida e focava no que a havia formado, nas coisas que sabia, finalmente entendia, após alguma reflexão, o quanto ela era diferente de sua própria geração, mais ligada que ela nas redes e nos últimos lançamentos da música eletrônica ou pop, agora em formato de singles normalmente sem mídia física, vindo direto pelas plataformas. Gracinha então soluçou de leve e deixou escorrer uma lágrima.


Uma senhora que fixara os olhos na menina distraída se aproximou para saber se ela passava bem. Não era nada demais. Era só que, agora, ficando adulta, ia ter que aprender a conviver com a perda de gente que, de um modo ou de outro, fazia parte de sua vida. A morte de Gal e Rolando Boldrin, a despedida de Milton dos palcos e a posterior morte da Isabel do Vôlei, a atleta mais querida por seus pais, eram mais que notícias tristes. Eram o início do fim de uma era. Gracinha tinha pego só o finalzinho da era. Não frequentou as Dunas da Gal, não viu a Ópera do Malandro, não cantou “Tô Voltando” na hora da anistia. Viu nem as “Diretas Já”. Não pintou a cara pra tirar o Collor. Não abraçou a Lagoa, não xingou o Maluf, não conheceu o Irmão do Henfil, não leu “O Pasquim”, não seguiu o “Mendigo Joãozinho Beija Flor”, não viu Roque Santeiro, Saramandaia ou “O Bem Amado”.


Mas sofria como se tivesse visto tudo isso. Aprendeu com os pais certos, na hora certa.

Desceu do metrô com um sorriso estampado no rosto bonito, os olhos meio fechados pela claridade do sol forte e uma vontade louca de encarar a vida adulta que, ao que parece, no seu caso, vem já com as melhores referências.


Por via das dúvidas, estendeu a canga perto do posto 8, no mesmo lugar onde no início de 72, antes de terem de se exilar, seus pais dividiram a areia com Gal nas dunas do Pier. E também com Macalé, Waly, Caetano. E, sabida, continuou lendo, em francês, as “Memórias de uma Moça Bem Comportada”, da Simone de Beauvoir. Precisava pra terminar o TCC.


No fone de ouvido, uma playlist de Noel, Cartola, Armstrong, Chico, Gal, Bach, Paco de Lucia e Áurea Martins.


A vida não é ruim.


Rio de Janeiro, novembro de 2022.


 

Cultura



 


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