FREUD



A festa era grande. Muito grande. Nem todo mundo parecia contente, mas o evento tinha dimensões faraônicas. Há sempre quem reclame da multidão, da dificuldade pra comer ou beber, da falta de banheiros ou do mau cheiro deles. Não estava reclamando, tudo parecia estranhamente bem organizado, mas havia gente demais e nem todos estavam contentes.


A polícia reprimia os mais exaltados, estivessem comemorando ou reclamando. Parecia, até a polícia, também cumprir de maneira moderada a sua função. Isso. Era uma festa moderada. Grande, enorme, mas moderada. As pessoas andavam lentamente num mega cortejo que não parecia carnaval e nem procissão. Não havia esquinas, porque todas estavam tomadas de gente. Só era possível ver os contornos dos prédios olhando para cima. Não fazia calor, tampouco frio. A temperatura era agradável. Por um instante imaginou que, caso fizesse o calor habitual, seria insuportável estar no meio daquele povaréu. Não gostava particularmente de multidões.


Sentia uma estranha claustrofobia, mesmo em espaços abertos. O limite imposto pelo corpo de outra pessoa parecia limitar seu espaço. Crescera assim. Não lutaria contra sua própria natureza. Um certo grau de autismo? Talvez fosse. Relacionava-se com os outros, mas guardando sempre uma espécie de “distância segura”. Sofrera menos na pandemia que os demais. Não sentia f