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FREUD



A festa era grande. Muito grande. Nem todo mundo parecia contente, mas o evento tinha dimensões faraônicas. Há sempre quem reclame da multidão, da dificuldade pra comer ou beber, da falta de banheiros ou do mau cheiro deles. Não estava reclamando, tudo parecia estranhamente bem organizado, mas havia gente demais e nem todos estavam contentes.


A polícia reprimia os mais exaltados, estivessem comemorando ou reclamando. Parecia, até a polícia, também cumprir de maneira moderada a sua função. Isso. Era uma festa moderada. Grande, enorme, mas moderada. As pessoas andavam lentamente num mega cortejo que não parecia carnaval e nem procissão. Não havia esquinas, porque todas estavam tomadas de gente. Só era possível ver os contornos dos prédios olhando para cima. Não fazia calor, tampouco frio. A temperatura era agradável. Por um instante imaginou que, caso fizesse o calor habitual, seria insuportável estar no meio daquele povaréu. Não gostava particularmente de multidões.


Sentia uma estranha claustrofobia, mesmo em espaços abertos. O limite imposto pelo corpo de outra pessoa parecia limitar seu espaço. Crescera assim. Não lutaria contra sua própria natureza. Um certo grau de autismo? Talvez fosse. Relacionava-se com os outros, mas guardando sempre uma espécie de “distância segura”. Sofrera menos na pandemia que os demais. Não sentia falta de abraços. Da conversa, sim. Nunca se adaptara completamente aos novos tempos da vida intermediada por aparelhos. Foram tempos difíceis. Não teve Covid, vacinou-se a tempo e a hora, tomou as precauções devidas. Agora já se vivia outro tempo. E aquela multidão simbolizava o fim de uma era. Curta, mas uma era. Quem viveu sabe disso.


Tentava se mover na multidão, um misto de véspera de Natal na 25 de Março e véspera de carnaval na Rua da Alfândega, mas sem o entusiasmo típico daquelas datas. Tentava, mas pouco conseguia, porque a multidão não parecia querer mover-se. Sentia que a saída da letargia imposta pela peste recém terminada seria mais lenta que o previsto. Na verdade, nem havia “o previsto”. Durante uma era, ninguém sabe quando ela vai acabar. De repente acaba. E ninguém está preparado. Geralmente é trabalho pros historiadores, bem depois.

Continuava tentando chegar a algum lugar. Lembrava de uma vinda anterior à cidade e de um restaurantezinho que ficava por ali. Barato, aconchegante, relativamente vazio, perto da livraria mais simpática que conhecia. E lembrava também que, ouvindo as conversas das mesas em volta, atualizara-se sobre o que acontecia, desde que , naquela época, se decidira pelo isolamento.


Foi uma fase estranha, mas passageira. Ficara, ainda, antes da pandemia, dois anos em isolamento absoluto de informações. Era um experimento pessoal. Resistiria? Resistiu. Agora já tinha voltado ao seu normal, lendo ao menos um jornal periférico por dia. Descobrira mais bizarrices e fofocas do que informações verdadeiramente relevantes, mas já era alguma coisa. Sabia mais do que queria sobre a vida de astros neo-sertanejos, subcelebridades de reality shows, modelos super siliconizadas e políticos do baixo clero.


Mas o objetivo agora era procurar um lugar decente pra tomar um café ou beliscar um salgadinho, coisas que traziam boas memórias da cidade. Mas a multidão não deixava. Parecia que sempre se mexia na direção contrária. Tentava entrar numa rua, mas a multidão bloqueava. Tentava outra, mas a polícia impedia. Tempos atrás vivenciara coisa parecida no Cordão da Bola Preta e no Galo da Madrugada. Mas era bem mais festivo, bem menos regrado...


Se deixou levar pelo fluxo de gente, reprimindo todos os instintos contrários, que no seu caso indicavam distanciamento e um forte controle sobre suas próprias vontades. Mas não podia tentar reprimir a multidão. Mesmo oscilando entre confusa e determinada, a multidão era quem ditava as regras, quem dava o tom, quem colocava ordem no bloco.

Foram horas de agonia, foram momentos de uma angústia estranha, como são todas as angústias, afinal.


Depois de muito, conseguiu finalmente, levado pela turba, se aproximar do que parecia ser o epicentro daquela grande Meca, a Caaba daquela multidão sem começo e sem fim. Aos poucos foi descobrindo grupos que se enfrentavam. Em jogo, o direito de festejar ou lamentar, de celebrar ou sofrer. O debate não parecia levar a nada, mas os que lamentavam, apesar de parecerem mais decididos e violentos, pareciam estar em menor número. Conseguiu se aproximar mais. No núcleo principal, os grupos se equivaliam em número. No meio, algo se assemelhava a uma cerimônia fúnebre, ladeada por gente estranha, com bandeiras do Brasil e chorando a perda de alguém que eles consideravam um mito, ao que tudo indicava. Na multidão, perguntaram em seu ouvido:

- Sabe se foi Covid?


Acordou assustado!! Levantou-se, lavou o rosto, escovou os dentes e antes de comer qualquer coisa, folheou um dos volumes de “A Interpretação dos Sonhos”, tijolaço de Freud, que mantinha numa estante próxima à cama.


Mesmo sonolento ainda, voltou a compreender, depois de muitos anos sem ler Freud, que os sonhos são, entre outras coisas, a manifestação de desejos latentes, normalmente reprimidos pela razão.


Deitou-se e adormeceu de novo.

“Sonhar não custa nada”, dizia um velho samba enredo.


Rio de Janeiro, Outubro de 2021.


 

Que playlist é essa?



Negacionismo? Ou Crime?


Voltei pa casa de carona.




 

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