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FESTINHA


Leo Viana

Nesta semana, há poucos dias atrás, em meio a um carnaval que houve mas não houve, um dos maiores amores da minha vida fez aniversário. E eu recuperei umas declarações de amor que já fiz a ela, botei num liquidificador como aqueles, com base de alumínio, que batem os nossos sucos de acerola e abacaxi com hortelã - ou vitaminas de abacate - nas casas de suco da 13 de maio, deixei bater bem e trouxe pra cá. Vamos lá:


Tive muita sorte na vida, não me canso de repetir isso. Saí de Meriti e conheci muitos lugares interessantes, no Brasil e fora dele. Menos do que eu queria, mas mais do que jamais imaginei conseguir. Cabem nos dedos de uma mão, por exemplo, os estados do Brasil onde eu nunca estive. Moro em Santa Teresa, como os meus amigos normalmente estão cansados de saber, com vista pra Lapa, mas por exigência do trabalho, conheço a Cidade do Rio de Janeiro, modéstia à parte, como pouca gente conhece.


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Dos extremos da Zona Oeste (alguém mais aí conhece a Comunidade do Camarão?) ao Alto Leblon; Do Itanhangá a Vigário Geral; da Maré à Urca; de Jacarepaguá à Pavuna; de Mariópolis ao Humaitá; do Alemão a Ipanema. E é por isso que eu tô muito feliz com os 457 anos do lugar que eu escolhi pra viver! Eu amo Paris, São Paulo, Natal, Recife, Havana, Porto Alegre, Florianópolis, Bruxelas, Liège, Lyon, Nova Iguaçu, Amsterdam, Seropédica, Foz do Iguaçú, Marseille, Belém, Chengdu, Boa Vista, Santa Maria, Pelotas, Bento Gonçalves, Rio Grande, São Luís, Campina Grande, isso numa listada básica, sem ordem de preferência e sem qualquer critério de priorização, mas eu só consigo ser feliz completamente no Rio de Janeiro!!! Não sei mais viver sem o Capela, o Sat’s, o Vaca Atolada, o Siri, a Praça XV, a Praça Tiradentes, o Sambódromo, a Rio Branco, o Pão de Açúcar, o Maracanã, o Engenhão, o Alto da Boa Vista, Bangu, Santa Cruz, Campo Grande, a Central do Brasil, o Lamas, a Colombo, o Teatro Carlos Gomes, o Bola Preta, o Simpatia, o Boitatá, a Mangueira, a Portela, o Salgueiro, o Império, a Vila de Noel e Martinho, o Aterro, o MAM, os cinemas de Botafogo, os Teatros da Gávea, o Cacique de Ramos, a Igreja da Penha, o Real Gabinete, a Biblioteca Nacional, a Quinta da Boa Vista, a Rua do Ouvidor, a Barra da Tijuca, a Tijuca, Copacabana.


Ainda que eu não os frequente com a assiduidade dos viciados, saber que eles estão aqui me conforta. Pode ser que haja aí doses de ufanismo, de bairrismo doentio. Talvez haja mesmo, mas não serão conjunturas desfavoráveis que me farão deixar de adorar este lugar. Cortavam cabeças na Paris do séc. XVIII, queimaram gente viva em Roma por muitos séculos, que aliás, viveu sob aqueles imperadores malucos que fariam corar o PMDB, quase a Europa inteira morreu de peste no século XIV. Acho que o nosso problema é menos grave.


E foi daqui, como eu disse no início, que eu saí pra conhecer outras partes do mundo, continuarei saindo, e sempre voltei e voltarei sempre. Parece que vivo aqui há 457 anos. Ter saído tantas vezes, seja pelo Galeão ou pelo Santos Dumont, pela Novo Rio ou pelo Terminal da Central, sempre foi um incentivo pra voltar. Foi aqui que eu aprendi e continuo aprendendo grande parte das coisas que me fazem ser quem eu sou. Eu tenho fixação geográfica. Admiro muito quem não tem, mas eu tenho. Lá em casa só a filha nasceu na Cidade. Mas nasceu na Praça XV, quando a gente morava na Lapa, pra valer dois pontos! A cidade é uma bagunça? É! Vota mal? Vota! É violenta? É! É quente demais? É também. Mas, estranhamente, ainda é o lugar mais visitado do Brasil, mesmo em plena decadência.


Morando aqui em Santa Teresa, eu atravesso diariamente, a caminho do trabalho, as hordas de turistas que se acotovelam na escada decorada pelo Selarón, aquele artista plástico chileno doido e genial, que foi um bom amigo durante o tempo em que habitou a casa na escada, entro em um ônibus ao lado do Passeio Público, o primeiro parque-jardim público do Brasil, inaugurado em 1783, e então o coletivo cruza os Arcos da Lapa, a maior e mais importante obra do Brasil Colônia, de 1750, feitos pra levar água de Santa Teresa ao Chafariz então existente no Largo da Carioca. Alguns minutos e referências históricas depois, cruzamos a Passarela do Samba, obra de Brizola e Darcy. Quem vê aquele gigante de concreto quieto na maior parte do tempo vai ter sempre muita dificuldade pra entender o que se passa ali nos dias de desfile, em que esse povo descendente de escravizados, cada vez mais pisoteado por um projeto de sociedade excludente, concentradora de renda, racista, misógina e metida a moralista, faz o maior espetáculo coletivo do mundo e deixa todos ensandecidos de alegria. Passam altivos e arrombando as retinas de quem vê (obrigado, Chico Buarque!), amolecendo o coração de quem ouve, aguçando a sensibilidade de quem sente. E minha viagem diária termina na Cidade Nova/Estácio, onde Ismael e outros bambas deram forma ao samba como a gente conhece e criaram a primeira escola de samba. Não dá pra reclamar!


Claro que também não dá pra deixar de ver a pobreza espalhada pelas calçadas mal cuidadas, a violência nossa de cada dia, a indiferença de grande parte de quem tem como se virar nessa selva em relação aos que nossa sociedade cruel praticamente decidiu excluir. Mas resistimos do jeito que disseram Moacyr Luz, Aldir Blanc e PC Pinheiro: "Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar!!"


Pode sim. Tenho certeza!

Feliz aniversário, querida!!!

A festinha foi boa, mas em abril parece que vai ser maior!


Salve o Bip Bip!


Rio de Janeiro, março de 2022.


 


 

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