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Eu Vi



- Eu vi!!!


A telinha do smartphone de última geração, trazido de Cingapura quando da reunião daquele comitê internacional de ética corporativa, não deixava dúvida. A mensagem era curta e direta. A síntese da síntese.


- Eu vi!!!


Não havia razão para duvidar da informação. Restava agora algum tipo de negociação, a fim de que não se criasse um impasse definitivo, uma situação da qual não seria possível escapar sem um sacrifício tremendo. Moral? Financeiro? Profissional? Imaginava o pior, mas haveria sempre saída possível. Ninguém haveria de ser tão intransigente.


- Eu vi!!!


Só na terceira vez que olhou para a tela do aplicativo de mensagens raciocinou a ponto de iniciar um diálogo. Precisava salvar a pele. Não estavam em jogo apenas o casamento de muitos anos e a posição alcançada em muitos anos de dedicação ao mundo empresarial. O convite para uma Secretaria de Estado, propostas para o segundo escalão dos dois últimos governos federais, organismos internacionais. De repente, quase inapelavelmente, estavam no fogo anos de construção de credibilidade, conservadorismo nos costumes e liberalismo na gestão empresarial.


Arriscou olhar o número do remetente. Há muitos anos não gravava mais os contatos. Apenas os fundamentais: secretária, mulher e filhos, as empresas com as quais estivesse diretamente envolvido no momento, dois ou três políticos muito importantes. Os demais, bloqueava imediatamente. Qualquer coisa que chegasse de fora desse pequeno grupo de contatos era irrelevante. Vinha funcionando.

Mas, de um momento para o outro, aquela mensagem curta e acachapante.


- Eu vi!!!


Imaginou que a negociação não poderia se dar por mensagem. Ligou, de modo convencional, tentando estabelecer uma relação com o interlocutor desconhecido e ameaçador. Nenhuma resposta. Na segunda tentativa, uma resposta:

- Este número encontra-se fora da área de cobertura ou desligado.



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O número era de sua própria cidade, o que aumentava a sensação de ameaça. Quem seria?


Não podia arriscar. Tinha acabado de descer de uma sessão de sexo pago com uma acompanhante que anunciava num site. Discrição e preço justo. Edifício comercial no Centro da Cidade, onde já havia subido muitas outras vezes para reuniões com executivos ou advogados, consultas a médicos ou dentistas. A moça já era conhecida, garantia de bom atendimento. Não podia perder tempo e diluir esforço procurando por uma nova. Fazia as vezes de psicóloga e amante, sem os compromissos típicos de uma amante. Estava sempre lá, não cobrava mais que o tempo de atendimento.


Desta vez, no entanto, parece que alguém viu.

Teria visto só isso ou também descoberto que a mesma menina eventualmente o convidava pra grandes orgias, com homens, mulheres e gente das 15 ou mais orientações sexuais conhecidas? Cacete! Não é o sexo o problema. É a imagem!

Os convites para a filiação aos dois maiores partidos conservadores tinham sido rejeitados não por falta de identificação, mas pela crescente e flagrante identificação com ambos, de modo que a filiação a um deles poderia soar como uma traição. Precisava continuar negociando livremente com todos. E as aparições junto a líderes conservadores da igreja e das demais religiões monoteístas? E o financiamento de campanhas contra o aborto, a aparição em atos pró-homofobia e em defesa da família tradicional?


O telefone tremeu de novo e a olhadinha não só não deixou dúvida, como piorou a situação.


- Eu vi!!! Eu sei de tudo!!


O seguido e quase mecânico bloqueio ao número não surtiu efeito. Não manteve o bloqueio. Aquele interlocutor desconhecido sabia demais e não bastaria silenciá-lo remotamente. Ele exercia um poder mais difícil de neutralizar.

E as viagens para reuniões com partidários do Presidente Trump? Esteve com o próprio Steve Bannon, o grande oráculo da super ascensão da direita mundial. Jantou com o Professor Olavo, o popstar da versão brasileira do conservadorismo de resultados. Isso tudo tinha uma relevância.


Não tinha sido um mero arrecadador na vitoriosa campanha eleitoral de 2018. Fez muito mais que isso. Ajudou a convencer grandes empresários com preocupação social a deixarem de lado essa sanha caridosa. A chapa da caserna veio pra acabar com essa culpa cristã que leva a fazer doação, apoiar ONG, salvar animalzinho, comer broto de feijão. A ideia agora era fazer um liberalismo sem culpa, sem privilégios pra pobres, pretos e índios. Seria o fim de anos, séculos de paternalismo de Estado.

Digitou uma mensagem em resposta. Nada! Nem visualização do outro lado. A ameaça parecia crescer.



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Enquanto caminhava pela grande avenida do centro financeiro, imaginava as consequências de um escândalo. A família da mulher era tradicional, fazendeiros antigos no Centro Oeste, anos de ocupação sorrateira de terras indígenas com gado e soja, mas nenhuma ação jamais perdida na justiça. Foram muito presentes em todas as campanhas de arrecadação para chapas conservadoras em todos os níveis e muito especialmente na última eleição nacional. Convocados pelo genro influente, os sogros até foram a São Paulo, onde raramente punham os pés, para um evento que reuniu religiosos neopentecostais, católicos carismáticos, judeus conservadores, empresários, militares, líderes policiais, profissionais liberais e políticos para uma grande corrente nacional pela moral e bons costumes.


Os pensamentos se misturavam agora. Aquela perturbação tinha o efeito terrível de apagar o prazer que tinha sentido havia pouco. Duas lancinantes horas de prazer com a menina de não mais que uns 25 anos, mas com uma sabedoria física invejável. Que mal poderia haver nisso? Era um homem como qualquer outro, macho, viril! Tinha pavor desse tempo atual de orgulho gay, casamento gay, ditadura gay! A moda é apoiar os lgbtblá, blá, blá... Isso é um absurdo contra a criação! Homem é homem e mulher é mulher! Estava com o capitão! Finalmente um salvador para essa pátria à deriva, sem um ancoradouro moral!


- Eu vi!!!


Suava frio! E quente! A gravata apertada começava a incomodar e sentia o colarinho molhado. Devia estar vermelho. Mas não era hora de procurar um espelho pra se mirar. O momento pedia medidas urgentes de manutenção da ordem. Os filhos estavam distantes, em universidades americanas tradicionalmente ligadas ao Partido Republicano e a valores cristãos tradicionais, onde se deveriam formar bons conservadores. As condições eram até favoráveis para uma opção por Harvard, Columbia, Yale ou Chicago. A Universidade da California também estava a um passo, mas o ambiente, nesses lugares, poderia ser desfavorável. Fundamental era descartar universidades brasileiras, antros de marxismo deslavado. Queria que os meninos, gêmeos, tivessem formação conservadora de raiz. E aprendessem a atirar, por via das dúvidas. Um foi para Michigan e outro para a Pensilvânia.


Uma pesquisa séria indicou que eram esses os centros preferidos pelo conservadorismo americano. Poderiam se encontrar de tempos em tempos e tinham garantido a distância segura dos centros de perdição. Las Vegas ficava distante e só iriam aos cassinos acompanhados do pai, que certamente também os apresentaria, no tempo certo, a uma bela casa de swing com profissionais americanas do sexo. Um belo presente de formatura!


Só não era pra agora. Tinha que iniciar os meninos! Não tinham autorização pra viajar sozinhos para NY ou Los Angeles, Chicago, Miami ou qualquer outro desses lugares que concentram gente pecadora. A prioridade era outra. Não se podia deixar acuar por uma ameaça assim tão inesperada.


O estrago, no entanto, estava feito.

Entrou em casa tenso, após uma tarde de participações não produtivas em reuniões de negócios. A sequência de mensagens estava lá, no aparelho, dando forma aos medos mais profundos. Sim! Tinha ido ao encontro de uma prostituta! Mas não fumava maconha, não usava drogas, bebia apenas o uísque de boa cepa, era homem religioso e conservador!


- Eu sei de tudo!!! Cada detalhe!!!


Sentiu uma pontada no peito! Não, não era um ataque cardíaco. Os exames, em dia, indicavam saúde coronariana e geral. Era tensão. E ela aumentava. Tudo o quê? Que detalhes? Saberia das orgias? Saberia de um ou outro negócio não muito certo, uma sonegação aqui, uma coisinha ali com grupos não muito republicanos?


A mulher estranhou o comportamento. Em geral, tomava um uísque na sala depois de tirar o terno, fazia um carinho no cachorro e trocavam um beijo regulamentar antes de qualquer outra coisa. Dessa vez, só afrouxou o colarinho e desabou no sofá de couro de búfalo que ficava sob os dois troféus de caça, o urso e o alce, na sala de estar.


Quando o telefone tocou, já tinha chegado à janela da cobertura, de onde olhava desolado para o mar em frente e para a piscina logo abaixo.


Não teve tempo de atender ao telefonema do governador, informando que sabia de tudo e que tinha recebido a parte dele no negócio fechado com a empresa multinacional de armas e equipamentos hospitalares. O governante ainda informaria que não tivera tempo pra ligar mais cedo, daí ter optado pelas mensagens. Várias reuniões com grupos conservadores diversos, interessados em fechar negócio com ele, executivo de confiança. Negócios muito promissores, coisa de bilhão!


Também esqueceu de tomar o ansiolítico, receita do médico amigo, parceiro de orgias e de reuniões com grupos conservadores.

O caso foi registrado como queda acidental e o sepultamento contou com a presença de diversas autoridades que, em discursos emocionados, louvaram a memória daquele impoluto chefe de família.


Um comboio de motos acompanhou o cortejo. Sem máscara, parece.


Rio de Janeiro, junho de 2021.


 

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